António Carlos Cortez
Condor
Neste conjunto de vinte e sete poemas extensos de verso abundante, António Carlos Cortez menciona Luís Vaz de Camões, autor d’Os Lusíadas, como o “poeta da poesia”. No seu mais recente livro, Cortez também assume essa definição ao interpretar a realidade do mundo contemporâneo (“tempo tétrico do averno técnico” onde ninguém já tem “ouvidos para a musa”) à luz da tradição poética, refletindo sobre a natureza e o significado da própria poesia (“Sim, a poesia / é uma forma de pressentimento das eras / que sobre eras vêm”). A obra, que elege o “oráculo como arquétipo”, convoca o passado literário como refúgio do esquecimento da alienação atual (“Portugal (…) no porto do desabrigo e da infâmia”). Nesta leitura alegórica, o condor – mensageiro dos deuses na mitologia andina, o maior pássaro da terra e o único capaz de enfrentar o sol sem cegar – é o próprio poema (“condor-poema”): “animal poético animal perfeito / animal profético”. António Carlos Cortez escreve: “A poesia acabará também por ser (…) uma ave a caminho do sol que a cegarà absolutamente. Só na cegueira a poesia poderá continuar e aí terá a sua última fase lúcida.” Caminho
Stanisław Lem
A Máscara e Outros Contos
Em O Enigma, o último dos contos desta coletânea, o mestre da ficção especulativa, Stanisław Lem (1921-2006), relembra o papel do Santo Ofício como principal opositor do avanço da ciência. Lem sempre cultivou o ideal de liberdade como uma utopia. Com ascendência judaica e apoiando a resistência, dedicou-se a sabotar veículos alemães durante a invasão nazista. Em 1976, foi expulso da Associação de Escritores de Ficção Científica e Fantasia da América por criticar a baixa qualidade da produção norte-americana no gênero. A Máscara reúne treze contos escritos entre 1956 e 1993, revelando diferentes temas e influências que dominaram suas obras magnas como Solaris (1961): a contaminação do romance policial e da literatura gótica, o interesse pela cibernética e a psicologia, o tom grotesco e humorístico, e a relação nem sempre pacífica entre a humanidade e a inteligência artificial. Em todos os contos é possível reconhecer os elementos estilísticos que tornaram Lem popular entre um amplo público, como a descrição minuciosa de detalhes, baseada em impressionante erudição científica, diálogos essenciais e ágeis, inspirados no modelo norte-americano, e a busca constante por uma dimensão existencial profunda. Antígona
Mónica Baldaque
As Casas da Vida de Agustina
Nascida em 1922, a vocação literária de Agustina revelou-se desde cedo. A Sibila, de 1954, foi um enorme sucesso e evidenciou sua maestria na arte do romance. A relação com a região duriense, vivida durante longas temporadas da infância e adolescência, marcou de forma indelével sua obra. Em 2013, Agustina escreveu no Caderno de Significados: “Os lugares físicos são fonte de revelação, porque eles guardam o espectro do acontecimento”. Neste livro, Mónica Baldaque, filha de Agustina e também pintora e escritora, recorda a “vida sábia” da mãe e “o reflexo das paisagens por onde passou”. A partir da casa dos pais em Vila Meã, onde nasceu a 15 de outubro de 1922, Agustina, de uma família com “espírito de nômadas”, mudou várias vezes de moradia, ora temporariamente, ora de forma mais duradoura. Este livro rememora suas vivências e a relação que estabeleceu com a escrita em cada um desses “lugares físicos”. Ao evocar a Casa do Gólgota, sua última residência, Mónica Baldaque escreve: “foi mais uma casa da vida de Maria Agustina, e não A Casa da Vida. Essa, e por fim, não a vejo em outro lugar senão na sua obra.” Relógio d’Água
Eugenio Carmi e Umberto Eco
Três Contos
Exemplo perene de colaboração entre um artista visual e um escritor, estes três contos ilustram como as pessoas enriquecem e ganham novas dimensões ao se relacionarem: à luz das palavras de Umberto Eco, o pintor Eugenio Carmi se tornou ilustrador, e, por sua vez, ao se deparar com as imagens de Carmi, Eco se transformou em fabulista. A Bomba e o General ilustra como a harmonia mundial pode ser destruída por uma guerra atómica. Os Três Cosmonautas aborda a tolerância e o respeito pelas diferenças entre um marciano com seis braços e três cosmonautas rivais: um americano, um russo e um chinês. Os Gnomos de Gnu é uma parábola sobre o colonialismo e a notável ideia ocidental de “civilização”. Todos os contos dispõem de lindas ilustrações em aquarela, que transitam entre a geometria e a abstração, utilizando colagens de fragmentos de papel e tecido. Os dois primeiros contos foram publicados originalmente em 1966, e o último em 1992, mantendo uma relevância completa. Em tempos em que surgem vozes a favor do rearmamento da Europa e do mundo e da reintrodução do serviço militar obrigatório em nosso país, e em que a intolerância em relação ao “outro” cresce, este livro é uma leitura imprescindível para crianças e adultos, pais e educadores, humanos e extraterrestres. Gradiva
Giuliano da Empoli
A Hora Dos Predadores
Um dos títulos mais aguardados da 82.ª edição do Festival de Cinema de Veneza é The Wizard of the Kremlin, de Olivier Assayas, que adapta o romance de estreia de Giuliano da Empoli, hoje mais reconhecido como ensaísta do que como conselheiro político, apesar de ambas as atividades coexistirem em sua vasta obra. A Hora dos Predadores não se compadece com aparências ou palavras brandas para abordar o presente e prever o pior que se aproxima. “Hoje, nossas democracias parecem sólidas. Mas ninguém pode duvidar de que o mais difícil está por vir. O novo presidente americano lidera um cortejo variado de autocratas descomplexados, conquistadores da tecnologia, reacionários e teóricos da conspiração, impacientes para ações concretas”, escreve. Giuliano da Empoli descreve situações que testemunhou, protagonizadas por aqueles que alimentam e lucram com a máquina do caos: a mesma que inflama o comportamento humano com infinitas percepções que não são nada mais que extrapolações abusivas da realidade. O crescente poder da Inteligência Artificial aponta para esse mesmo abismo, que é uma espécie de rosto incorpóreo e totalitário. Gradiva
Sigrid Nunez
Qual é o teu tormento
Após vencer o National Book Award com O Amigo, Sigrid Nunez retorna ao romance com Qual é o teu tormento, que foi adaptado ao cinema por Pedro Almodóvar sob o título O quarto ao lado, com Tilda Swinton e Julianne Moore nos papéis principais. A história é sobre duas amigas, cujos nomes permanecem desconhecidos, uma delas tratando um câncer terminal. Inicialmente relutante em se tornar cobaia de um tratamento que provavelmente não a salvaria, acaba sendo convencida a não desistir. Afinal, “ela não queria sair da festa mais cedo”. Todos, exceto a filha, com a qual tinha pouco contato. Em um diálogo contínuo entre a narradora e a amiga doente, também acompanhamos a relação da narradora com o ex-marido e as razões que levaram a filha a se afastar da mãe, sem que a narrativa perca de vista o poder da amizade. Sem querer “partir em uma angústia humilhante”, a mulher doente revela à amiga que possui um medicamento para a eutanásia e gostaria que ela a acompanhasse até os últimos dias. Não quer ajuda para morrer, mas apenas que a amiga esteja com ela até o fim. “Alguém disse: Quando vens ao mundo, tens pelo menos uma pessoa contigo, mas quando o abandonas, estás só. A morte acontece a todos nós, mas continua a ser a mais solitária das experiências humanas, que nos separa em vez de nos unir.” Exceto neste romance. Livros do Brasil
Patrícia Portela
Manual para andar espantada por existir
Assim como o “panfleto mágico em forma de romance” que o inspira – Aventuras de João Sem Medo, escrito por José Gomes Ferreira no conturbado ano de 1933 –, este livro também é sombrio, sublinhando a importância de resistir. Patrícia Portela faz um apelo para cultivar a imaginação e escreveu este Manual, advertindo imediatamente o leitor (de qualquer idade) a não tentar “pensar apenas com a parte lógica do cérebro”, pois assim não conseguirá “se espantar por existir” e, naturalmente, não fará a viagem proposta neste livro, cuja capa é dominada pelo amarelo, a cor que, afirma-se, representaria o espanto se “o espanto tivesse uma cor”. Na pele de João Medroso, a autora, que percebe que “o medo é um sentimento que (…) pode paralisar as pessoas e impedi-las de sonhar livremente”, atravessa o muro da realidade e nos leva de volta à antítese do país sombrio que é a Floresta Branca, o cenário das aventuras de João Sem Medo no folhetim de Gomes Ferreira. Ali, à luz dos mais de 90 anos que separam as duas narrativas, ressurge um universo prodigioso de fantasia e imaginação, alimentado pela emergência de combater antigos fantasmas que retornam através da prodigiosa capacidade humana de pensamento e curiosidade. Caminho
Tiago Salazar
O judeu de Santa Engrácia
Viajante, escritor e guia, Tiago Salazar inspirou-se no mito em torno da construção da Igreja de Santa Engrácia para elaborar seu mais recente romance, O judeu de Santa Engrácia. Em 1631, o cristão-novo Simão Lopez Pires de Sólis foi acusado de profanar as relíquias do templo de Santa Engrácia. “Mandar alguém para o cadafalso sem prova cabal era comum no nosso burgo, como deveria ser em outros, regidos por um poder despótico e venal.” Embora não fosse a primeira vez que presenciava tais rituais, Antero Figueira, homem de leis, observou a morte na fogueira de Simão e sentiu que estava a ser cometida uma tremenda injustiça, decidindo investigar a razão pela qual Simão rondava a igreja inacabada a horas tão tardias. “A execução de Simão era o grau máximo da impunidade das trevas. E o fato de que as pessoas que ali acorreram não o apedrejaram, e muitos em segredo o consideravam vítima de uma ratoeira, mais me convence de que havia ali pano para mangas.” Embarque nesta viagem ao século XVII e descubra o que levou Simão a se calar diante da acusação que pendia sobre ele até o momento em que as chamas foram acesas, ocasião em que declarou: “Morro inocente! E é tão certa a minha inocência quanto o fato de que aquelas obras nunca se concluirão, por mais que tentem!”









