Imported Article – 2026-01-23 05:31:41

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A Praça dos Três Poderes em Brasília é um dos ícones do Brasil, com suas duas torres em paralelo, um par de semi-luas em concreto — uma voltada para baixo e a outra para cima — e uma esfera cortada ao meio, simbolizando a simetria na assimetria democrática, onde a democracia acolhe as diferenças e respeita as opiniões diversas, tanto à direita quanto à esquerda.

Inaugurada em 21 de abril de 1960, esta praça, situada no coração da capital federal, representou uma tentativa brasileira de concretizar em cimento o ideal abstrato da ágora helênica, o espaço público da república, a res publica, de onde ecoa a voz dos cidadãos e emana o poder do povo.

No entanto, a imagem apresentada na exposição Complexo Brasil, onde se observa um grande muro separando esse espaço emblemático, idealizado para ser indivisível, evidencia o fracasso dessa tentativa brasileira.

A incapacidade do Brasil em reproduzir a ágora ateniense — um modelo arquitetônico predominante no Ocidente e que se reflete em várias cidades europeias, como Lisboa — é um dos destaques da exposição, que aborda a formação do Brasil e do brasileiro, e está em exibição na Fundação Calouste Gulbenkian.

O espaço expositivo, projetado pelo arquiteto Guilherme Wisnik, um dos três curadores da mostra, busca apresentar aos portugueses, europeus e brasileiros as alternativas que o Brasil encontrou na busca por um espaço público que substitua a praça após a falência do modelo da ágora clássica.

“A praça como símbolo do espaço público no Brasil é um conceito fora do lugar”, afirma Guilherme Wisnik.

Para ilustrar sua perspectiva, o arquiteto recorre à literatura, especificamente às obras de Machado de Assis, como um exemplo de uma “tradição” brasileira em reproduzir valores europeus que frequentemente não se concretizam na realidade latina única.

“A matéria-prima da literatura de Machado de Assis era revelar de forma irônica como os valores burgueses e liberais da sociedade carioca, copiados da Europa, eram inadequados em um país ainda colonial e escravocrata como o Brasil do final do século XIX”, complementa o curador.

No Brasil, que ainda se espelha nos reflexos dos espelhos trazidos por caravelas portuguesas, a ágora verde-amarela se distanciou das praças aprovadas por políticos e delineadas por arquitetos, manifestando-se de maneira orgânica, não cartesiana.

Assim surge uma ágora made in Brazil — para não fugir ao exemplo literário — com o espírito de Macunaíma, o herói de Mário de Andrade, que é a imagem estereotipada de um brasileiro preguiçoso, malandro e erotizado, mas ao mesmo tempo sensível e adaptável às influências do mundo.

Uma ágora manifestada em campos de futebol de terra batida em uma labiríntica favela, no galpão de uma escola de samba, no reduzido espaço de uma coletividade, e na vastidão da praia.

Da praça à praia: o sol ainda é para todos

A seção dedicada à reflexão sobre o espaço urbano brasileiro ocupa um lugar de destaque na Complexo Brasil, representando um dos três núcleos da exposição, intitulado Branco Ocidental Construtivista, que, segundo Guilherme Wisnik, contextualiza o passado e especula o futuro do movimento concreto e neo-concreto no Brasil.

Um movimento cujo ex-libris é Brasília, construída na década de 1960 para substituir o Rio de Janeiro como capital do Brasil. Uma cidade planejada, simétrica, destituída de esquinas e caracterizada por solitárias avenidas e vastos vazios, contrastando com o caótico ecletismo arquitetônico carioca, que resulta de inúmeras inspirações urbanísticas, muitas vezes sem inspiração alguma.

“Enquanto o resto do mundo mergulhava numa irracionalidade artística em meados do século passado, com surrealismo de Dalí ou expressionismo abstrato de Pollock, o Brasil se destacava como bastião do iluminismo cartesiano”, observa Wisnik.

Com um atraso de séculos, o Brasil tentava através de Brasília emular o modelo europeu de espaço público, onde a praça é o local de ações políticas. O urbanista e arquiteto Lúcio Costa, considerado o “pai” do Plano Piloto da capital federal, não percebeu, porém, uma variável crucial que levaria ao fracasso de sua empreitada.

A variável do patrimonialismo.

“O patrimonialismo é uma característica profundamente enraizada na cultura brasileira, que contamina a esfera pública com a lógica da iniciativa privada”, sintetiza Wisnik.

Ao contrário do que ocorre na Europa, onde praças são frequentadas por moradores que vão e vêm em seus compromissos diários ou por famílias buscando momentos de lazer, as praças nas grandes metrópoles brasileiras costumam estar vazias, esvaziadas pela insegurança pública e pela opção brasileira pelo transporte rodoviário, que transforma o pedestre em motorista.

A escolha pelo modelo rodoviarista no Brasil deslocou o convívio social para outras áreas urbanas, dividindo os bairros entre dormitórios, boêmios ou elitistas. Assim como em cidades americanas, onde os centros metropolitanos foram esquecidos, as áreas centrais das capitais brasileiras foram abandonadas, deixando espaço para a lógica de condomínios e em declínio.

Nesse cenário, as praças brasileiras tornaram-se incômodas, com vegetação descontrolada cobrindo estátuas e monumentos esquecidos, brinquedos corroídos pela ferrugem e um quadrilátero estéril, abrigando sem-teto e servindo de pontos para atividades ilícitas ou prostituição, configurando um modelo decadente de ágora onde o debate político é inviável.

Um incômodo para os governantes, que rapidamente acionaram o botão do patrimonialismo.

“As praças brasileiras acabaram privatizadas, tomadas por empresas que as cercam com grades e contratam seguranças particulares para afastar as presenças indesejadas, trancando-as”, lembra Wisnik.

“Espaços permeados pela informalidade e pelo lúdico”, observa Wisnik, como ilustram as imagens na Complexo Brasil, da praia repleta pela população, de um rapaz e um menino banhando um cavalo na água do mar, e do campinho de terra batida no coração da comunidade.

Embora essas novas configurações reflitam ainda a lógica patrimonialista brasileira, estabelecendo papéis distintos para diferentes classes sociais, existe a possibilidade de convivência característica entre a diversidade de moradores de uma cidade, semelhante ao modelo da ágora clássica.

“Na praia, por exemplo, a classe média vai para o banhos de sol enquanto os mais pobres trabalham. Mesmo assim, as classe populares permanecem visíveis, cumprindo funções e participando de alguma forma desse espaço público”, destaca Guilherme Wisnik, otimista de que no Brasil o sol ainda é para todos.

O 8 de janeiro e o fim da ágora brasileira

O muro erguido diante da Esplanada dos Três Poderes em Brasília teve como objetivo dividir os eleitores de esquerda e direita no dia em que o Congresso Nacional votou o impeachment da então presidente Dilma Rousseff, que resultou em um golpe institucional que, dois anos depois, lançaria o Brasil nas sombras do fascismo.

Esse evento foi o golpe final nas aspirações de Brasília em se tornar a ágora planejada por Lúcio Costa, promovendo o encontro e o diálogo entre diferentes correntes ideológicas e políticas, agora tão radicalmente opostas que um muro rústico foi erguido entre as colunas paralelas e os dois semi-círculos, arruinando a paisagem e a simetria arquitetônica da capital.

“Em 2016, a utopia da arquitetura modernista brasileira, materializada na construção de Brasília, chegou ao colapso, pois os dois lados já não conseguiam mais coexistir”, explica Guilherme Wisnik.

Complexo Brasil faz várias menções a essa tentativa frustrada de Brasília como modelo da ágora clássica nacional, sendo a mais curiosa uma obra do artista plástico pernambucano Bruno Faria, uma instalação compacta e eloquente onde metades de uma laranja e um par de garrafas de Crush imitam o skyline do Congresso Nacional, uma provocação sobre a pressão comercial decorrente do patrimonialismo.

O incidente de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e vandalizaram o mesmo Congresso Nacional — um movimento que remete à invasão do Capitólio em Washington em 6 de janeiro de 2022 — pegou a produção da exposição em andamento, e a menção ao ataque violento à democracia brasileira aparece apenas no vídeo de abertura do Complexo Brasil.

Apesar disso, a tentativa, mesmo que malsucedida, de destruir a democracia brasileira atacando seu maior símbolo confirma o ciclo que se iniciou com o muro em 2016, soterrando de forma definitiva as aspirações de Brasília em representar o modelo da ágora clássica em um Brasil onde qualquer diálogo entre correntes políticas é aparentemente inviável.

Artigo publicado ao abrigo de uma parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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