Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Essa ideia surgiu a partir de residências literárias realizadas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Apesar da distância que nos separa, decidimos estreitar laços através da língua. A série chama-se Maningue giro (ou “muito giro”) e é elaborada em conjunto.
Encontrar repentinamente um amigo é algo extraordinário e belo. Você apareceu com seu ar principesco, aquele que usa as palavras para decifrar a vida. E achei curioso que, vestido como quem ia à neve, não se importasse com o calor de 30 graus. Nós dois serpenteamos por uma cidade em estado de sítio, e você se espantou por eu já ter visto luzes verdes dançando no céu, mas ainda não um pneu pegando fogo.
Quando vi Maputo pela primeira vez, fiquei impressionada com os edifícios deteriorados e com a estrutura inacabada ao lado do Polana Shopping – algo imenso e ainda por finalizar. Depois, houve a Vila Algarve – sneakeei você para dentro e não soube mais sair, transformando as pedras malemolentes em um livro e desenhando você nas páginas. Com isso, depois de tanto espanto, talvez não surpreenda ninguém que, agora, em minha mente, Maputo se resuma a você.
Para essa sensação, pouco importa que você seja um garoto da Matola.
Cresci cercada por livros, enquanto você teve poucos por companhia. Eu usava um casaco ao entrar em casa, tremendo de frio sob os cobertores durante a noite de inverno – você provavelmente já nasceu com a roupa grudada na pele. Na infância, eu devorava dicionários, aprendendo palavras como obtemperar, quimera e abstruso; jamais entenderia se você me falasse maningue ou balabaza ou mata-bicho, mas adoraria o verbo barulhar. Enfim, não é esse o ponto – a questão é que entre Vizela e Matola existem muitos mundos, e nunca teríamos sido amigos se não tivéssemos a sorte de ter nascido com histórias nas pontas dos dedos. São histórias que avançam a todo vapor, ansiosas por criar narrativas, sedentas por escrever frases bonitas e, nem que seja em sonho, inventar a beleza que se perde no cotidiano. Quando se encontram, parece que esses bichinhos se agarram e andam interligados.
Quando era criança, quase todos os escritores que admirava já estavam mortos. Outros, como García Márquez, estavam tão distantes de mim que a diferença era a mesma. Queria um amigo escritor que eu pudesse levar no bolso, que me falasse em tempo real e a quem eu pudesse responder, que compartilhasse comigo as angústias da segunda pessoa, do ponto e vírgula, de um parágrafo muito parado: na prática, um Quive apitando no WhatsApp, mas na época nem WhatsApp existia.
Nas aulas de História, falava-se de Portugal, e, consequentemente, surgiam Brasil e Angola, e a Inglaterra chegava pelo mapa rosado, e só depois falava-se de Moçambique. De resto, o sul da África era um mistério, assim como qualquer estante repleta de livros implorando por minha leitura. Em algum momento do quinto ou sexto ano, conheci Mia Couto, li sobre terras queimadas, mas meu espanto foi outro: eu não fazia ideia de que escritores tinham permissão para inventar palavras. Gostei e quis inventar também: em vez de me saciar com dicionários, quis nutrí-los. Lentamente, fui construindo sonhos: não só o de escrever um livro grandioso, que se destacasse na estante, mas também o de contribuir para a língua e criar verbetes. Enquanto outros meninos sonhavam em ser skaters ou famosos, que são sonhos bem piores.
Numa composição de português, com bichinhos famintos nas pontas dos dedos desejando saciar a sede no dicionário, criei uma bibliotecasem fim. Era, portanto, incomensurável, e impossível de ser lida completamente – ou seja, era inconsumível. A professora, ao invés de apreciar, com um espanto sólido, a elegância da minha miacoutice, riscou minha criação – tirou-me um ponto, veja só. Indignada, reclamei. Pouco aflita, ela insistiu em sua decisão – afinal, era ela quem tinha poder. Ainda mais indignada, argumentei a favor da liberdade do texto, da semântica, da igualdade – se Mia Couto, que escrevia livros e tudo, podia, por que eu não poderia? Reclamei com meu pai, não obtive apoio. Queixei-me ao meu avô, que ficou impassível à porta da livraria, imune à minha revolta. Ao final do conflito, o resultado foi este: a literatura moçambicana fez de mim uma escritora que falha a mão e se deixa levar pelo erro. Somente anos depois compreendi que aquela língua, que fluía livremente nas páginas da Caminho, era a mesma que corria nas ruas: jamais um português teria a ousadia de domar o inglês à vontade, reivindicando palavras como chuinga, biznar ou jobar. Da semântica à sintaxe, somos um povo bem mais organizado.
Para mim, que sou de nicho, essa é a principal vantagem de falarmos línguas diferentes dentro da mesma língua e nos contaminarmos nesse movimento sem veneno que é a expansão: a tua voz que diz desconseguir ou kanimbambo ou machimbombo amplia minha capacidade de expressão. Com isso, qualquer diferença de significado – e principalmente a sintaxe – te torna mais relevante aos meus olhos. Vejo-te com a língua solta e, de repente, és um soneto à Afrodite Anadiómena. Aposto que nunca ninguém te chamou assim.
Os autores desta série:
Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Desde então, só saiu para o Brasil, onde, de maneira característica, sentiu saudades dia e noite. Ao retornar, escreveu Lisboa, chão sagrado, mergulhando numa cidade que se tornou musa de suas narrativas. Anos depois, em uma casa em Benfica, viajou ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo lugar, mergulhou nas memórias de Vizela e escreveu Amor estragado. Para aqueles cá, apresenta um sotaque minhoto; para os de lá, é formal.
Eduardo Quive
Vive na Matola, mas é mais apropriado dizer que é de Maputo, cidade onde passa mais tempo. A literatura ocupa uma grande parte de sua vida, seja escrevendo ficção ou poesia, ou criando eventos que unem pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).
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