Diversos eventos na vida de Rosa Valgy a conduziram à Zona J, em Chelas. No entanto, foi a sua determinação em utilizar a paixão pela terapia transpessoal para ajudar os outros que a motivou a estabelecer o projeto “Bairro vs. Mente“, onde oferecia consultas gratuitas aos residentes do Bairro do Armador.
A vocação de Rosa para a terapia surgiu após descobrir um departamento no sistema prisional de Londres chamado Self-Harm Department, destinado a reclusos com doenças mentais e tendências suicidas.
Naquela época, Rosa estudava artes em Londres. Enfrentando a escassez de recursos, aceitou a primeira oportunidade de trabalho disponível, que a levou a ser guarda prisional. “Sinceramente, acredito que foi a melhor profissão que já tive, pois me ensinou a me colocar no lugar do outro”, reflete.
Após retornar a Lisboa, Rosa tornou-se professora de Educação Visual no 3.º ciclo e de Desenho no ensino secundário, atraída pela vocação para a docência. Simultaneamente, iniciou uma formação avançada em Play Therapy, cujo propósito era compreender o significado por trás dos desenhos de crianças. Entre as várias formações que completou, foi nesta especificamente que se deu, segundo Rosa, “a abertura de olhos que realmente precisava”.
Durante os exercícios em que precisava desenhar, seus colegas perceberam que Rosa sempre utilizava marcadores mais escuros. “Tudo girava em torno do preto, da morte, da dor, da mutilação”, recorda. E foi nessa época que ouviu pela primeira vez: “Rosa, você nunca pensou em fazer terapia?”
“Na altura, eu não acreditava muito nessa ideia da terapia para mim. Mas passados meses de convivência com colegas de curso já psicólogos, decidi experimentar”, explica.
Aconselhada pela coordenadora do curso, Rosa decidiu trilhar o caminho da terapia transpessoal, buscando aproveitar sua sensibilidade energética e espiritual, uma vez que essa abordagem terapêutica é multidisciplinar e, segundo ela, “trabalha o espírito, a mente, o corpo e o emocional”.
A primeira vez que entrou na sala sentiu medo.
O processo foi longo, mas, uma vez estabelecida uma relação terapêutica, as consultas “ajudaram-me muito a ultrapassar vários traumas”, conta Rosa Valgy. Após anos em terapia e compreendendo a importância dessa prática, decidiu se formar em Psicoterapia Transpessoal no Instituto Almasoma e, a partir daí, começou a oferecer consultas gratuitas em Chelas.
Porquê Chelas?
Embora não seja natural da região, Chelas era onde morava sua avó, estabelecendo assim uma ligação emocional com o bairro. “Minha avó sempre fez ações sociais e era conhecida em Chelas por ajudar as pessoas. Esse foi o legado que decidi continuar”, recorda.
Com o apoio do Instituto onde se formou e da associação Chelas é o Sítio, inaugurou seu consultório em uma sala da Academia Jorge Pina, um espaço pequeno que originalmente seria utilizado para massagens nos atletas.
Antes de cada consulta, Rosa purificava a sala com Pau Santo, uma planta de aparência lenhosa originária da América do Sul, conhecida por seu aroma suave e propriedades terapêuticas.
“Os atletas reclamavam, dizendo que cheirava a madeira queimada, mas na verdade, a limpeza ia além do físico, atuando na carga energética deixada por cada cliente na pequena sala do ginásio. Todos que por nós passam deixam um pouco de si e levam um pouco de nós”, explica a terapeuta. “É um grande número de pessoas, e energeticamente o espaço fica muito carregado.”
Vencer o preconceito
No início, os membros da associação Chelas é o Sítio sugeriam que determinados residentes participassem das consultas, pessoas que na avaliação de Rosa “precisavam, evidentemente, de ajuda psicológica”. No entanto, encontraram resistência devido a certo preconceito.
“Estamos a falar de um público completamente descrente na terapia, o que dificulta o trabalho e o progresso do projeto.”
O principal desafio era a assiduidade. Rosa suspeitou que a gratuidade das consultas estava contribuindo para a falta de compromisso e, ao começar a cobrar um valor simbólico proporcional à renda, notou uma melhoria significativa na participação.
“Sinto que pude ajudar várias pessoas, sim. A gratuitidade das consultas permitiu introduzir a terapia a quem nunca tinha tido contato com a técnica. Afinal, sendo realista, para quem vive em meio mais carenciado, ao ponderar entre comer ou fazer terapia, é claro a decisão que farão.”
Rosa lamenta apenas por aqueles que não conseguiram buscar ajuda devido a uma rotina difícil e a algum preconceito. “É evidente que houve pessoas que ficaram por tratar, mas é bastante complicado ajudar quem não deseja ser ajudado”, lamenta.
O projeto “Bairro vs. Mente” chegou ao fim em meados de 2025, mas deixou um legado que demonstra que uma iniciativa terapêutica pode ajudar a superar estagnações e a reorganizar “mentes e espíritos”, ao mesmo tempo que muda a percepção da comunidade sobre a importância do cuidado da saúde mental. Embora não tenha uma data definida para retomar a iniciativa, Rosa expressa seu desejo de voltar em breve.









