Uma melodia de samba toca entre as mesas do restaurante, que exala a atmosfera de um autêntico boteco brasileiro, enquanto dois funcionários conversam em português brasileiro atrás do balcão. Na entrada, uma exuberante palmeira recebe os convidados, mas apesar dos sinais, das aparências e do sugerido nome — O Palmeiral — esta pequena jóia em Príncipe Real tem DNA italiano.
Especificamente de Roma, de onde o proprietário Daniel Bernardi partiu há mais de duas décadas para adquirir experiência e ganhar a vida em Londres, até que o Brexit em 2020 o colocou diante de um dilema: ficar ou ir embora?
Lisboa não era uma novidade; pelo contrário — a capital portuguesa era uma velha conhecida, uma escala entre os céus cinzentos de Londres e o intenso azul do Algarve.
Na capital portuguesa, Daniel ficou na casa do seu sogro, um prédio na Travessa da Palmeira, cuja janela dava para outro cruzamento — menos desafiador e mais agradável — formado pela junção da Rua de São Marçal com outras duas vielas, Santa Teresa e São José.
Da janela do apartamento de seu sogro, o romano observava os entra-e-sais no restaurante moçambicano Moya, bem no epicentro do cruzamento, sem imaginar que um dia aquele seria o ponto de partida de sua vida em Lisboa.
“O dono do Moya, Bruno Carvalho, era meu amigo. Eu costumava ir lá e conversávamos muito. Até que a pandemia tornou a situação do restaurante impraticável. Um dia, o Bruno mencionou que ia vendê-lo, e pensei que era um sinal para me mudar para Lisboa de vez,” recorda Daniel.
E assim, em julho de 2025, o número 1 da Rua de São Marçal, a poucos passos do Jardim do Príncipe Real, recebeu um novo inquilino: um restaurante italiano com uma vibe despretensiosa — mas quando a comida chega à mesa, sua verdadeira ambição se revela: não ser apenas mais um restaurante italiano em Lisboa, mas sim estar entre os melhores.
Essa ambição foi confirmada pelo ImmigrantFoodies, que reconheceu a cozinha de O Palmeiral entre os 101 Melhores Restaurantes de Lisboa, publicado em parceria com a Mensagem de Lisboa.
Um vizinho de Príncipe Real
Dois anos depois, a mudança que começou quando O Palmeiral abriu suas portas está completa, com a esposa e a filha de Daniel se estabelecendo permanentemente em Lisboa. Daniel agora vive a sua rotina lisboeta e não esconde sua felicidade com a escolha — ou scelta, como ele frequentemente repete em sua língua materna — de trocar Londres por Lisboa.
E Lisboa também se beneficiou da scelta de Daniel. O Palmeiral é a prova desse diálogo entre Roma e Lisboa — um restaurante italiano com o espírito descontraído de uma tasca: de manhã convida para um ensolarado café da manhã ou petiscos com amigos, e à noite as mesas de madeira são enfeitadas com toalhas brancas enquanto assume sua persona de trattoria romana.
“Muito se fala sobre as semelhanças entre italianos e espanhóis, mas estou cada vez mais convencido de que Portugal tem muito mais em comum com a Itália do que com a Espanha,” diz Daniel, enquanto cumprimenta um vizinho português à porta.
A relação de O Palmeiral com o bairro é vital em um espaço onde cada centímetro quadrado deve ser utilizado. Sem espaço para grandes depósitos ou adegas de vinho, os suprimentos de comida e vinho vêm de uma mercearia e adega local. Até recentemente, a carne também vinha de um açougue vizinho, antes que este fechasse para se tornar alojamento de curta duração.
“Mas fizemos um acordo com os antigos proprietários e continuamos comprando carne deles mesmo após o fechamento. Para mim, é importante manter essa vida de vila bem no centro da cidade,” enfatiza Daniel.
Essa sinergia entre vizinhos se traduz na simpatia gastronômica de um menu conciso e focado inspirado em um ícone lisboeta, O Galeto, onde a qualquer hora você pode ir com a certeza de que seu apetite será satisfeito. “Adoro esse estilo lisboeta de chegar, sentar-se no balcão e comer bem,” diz ele.
Um menu que une Portugal e Itália
A conexão emocional entre a Itália e Portugal é evidente nos petiscos, com salsichas de Leiria e bifanas de porco, e nos pratos de primi e secondi: salada de polvo, filé de atum, e até um bacalhau com grão-de-bico — que Daniel insiste ser também um prato tipicamente romano — sem mencionar clássicos da culinária italiana como ossobuco e berinjela à parmegiana.
Todos produzidos em uma cozinha que combina com o minimalismo do espaço. “É incrível o que se faz em um lugar tão pequeno,” diz Daniel sobre os modestos nove metros quadrados do restaurante — pequeno apenas em tamanho, não em espírito. É nesse espaço semelhante à cabine de um avião que três cozinheiros revezam-se para preparar o menu elaborado pelo chef brasileiro Lucas Melo.
O estilo despretensioso de O Palmeiral, mencionado anteriormente — tanto na sua decoração, que realmente remete a um boteco brasileiro descontraído, quanto na calorosa hospitalidade portuguesa — é outro destaque, e apesar de estar localizado em uma das áreas mais turísticas de Lisboa, mantém uma clientela majoritariamente local.
A cereja do topo da atmosfera relaxada — além da palmeira do lado de fora, cuja sombra não deve ser ignorada nos dias de verão — é a pequena vitrine onde Daniel exibe obras de arte criadas por amigos artistas. No entanto, no período do Natal, a galeria de O Palmeiral é reservada para um membro da família: “É a hora em que meu sogro monta seu presépio,” explica.
Um presépio em um presente da Itália que Lisboa recebeu.









