O lema dos Jogos Olímpicos, que desde 2021 passou a incluir a palavra Communiter – Juntos – para simbolizar a importância da solidariedade global e do trabalho colaborativo em tempos de crise, reflete perfeitamente os desafios que a Europa enfrenta para superar a profunda crise estrutural em que está imersa desde a crise econômica e financeira de 2008-2009. Esta crise não se limita ao âmbito econômico, mas abrange também uma crise de identidade coletiva e de projeto, que se intensificou com a pandemia de Covid-19 e os eventos subsequentes, adquirindo dimensões geoeconômicas e geopolíticas que a eleição de Donald Trump apenas acentuou.
Na recente conferência “Um ano após o relatório Draghi: o que foi alcançado, o que mudou”, realizada em 17 de setembro, Mario Draghi destacou o esforço da Comissão Europeia para enfrentar os desafios mencionados em seu relatório. No entanto, ele também ressaltou que, ao longo do último ano, as pressões sobre o modelo de crescimento aumentaram, e que sem um crescimento acelerado, a Europa não conseguirá atingir suas ambições em áreas como clima, digitalização e segurança, além do financiamento necessário para suas sociedades em envelhecimento.
Draghi mencionou que as necessidades de financiamento anual para enfrentar os desafios levantados no relatório, inicialmente estimadas em 800 bilhões de euros para o período de 2025 a 2031, agora são de 1.200 bilhões, segundo cálculos do BCE. Ele observou que a parte pública desse financiamento quase dobrou, subindo de 24% para 43% – o que representa um adicional de 510 bilhões por ano, resultante do financiamento, em grande parte público, da defesa. Isso ocorre em um contexto de espaço fiscal limitado, com a dívida pública projetada para crescer 10 pontos percentuais na próxima década, atingindo 93% do PIB europeu, em uma perspectiva de crescimento mais otimista do que a realidade atual.
A análise de Draghi não se limita a esses pontos. Um ano depois, a Europa enfrenta uma situação mais complexa. O modelo de crescimento está se enfraquecendo, as vulnerabilidades estão aumentando e não há um caminho claro para financiar os investimentos necessários. O mais preocupante é que há uma crescente percepção entre empresas e cidadãos de que os governos ainda não compreenderam a gravidade do momento.
Essa análise de Draghi é aprofundada em um estudo recente realizado no Instituto Bruegel, que teve como contexto a reunião informal dos ministros das finanças e governadores dos bancos centrais da UE, realizada em Copenhague nos dias 19 e 20 de setembro. As conclusões reforçam a avaliação do relatório Draghi do ano anterior. Se a Europa deseja deixar de ser um scenario-taker e se afirmar como um scenario-maker, será necessário ganhar autonomia estratégica em áreas-chave como defesa, tecnologia, finanças e matérias-primas críticas – setores onde ficou para trás.
Retomando o tema central deste artigo, nas próprias palavras de Draghi expressas em sua fala, um novo caminho para a Europa requer mais velocidade, escala e intensidade. E, acrescentamos, necessita do fortalecimento do trabalho conjunto e solidário por meio do aprofundamento da integração.









