José Pacheco Pereira para diante de uma grande reprodução em preto e branco onde um casal posa para a câmera, acompanhado pelos sogros. “Esse é o retrato de Portugal nos anos 1950”. Destacam-se os pés descalços da sogra, o alfinete que substitui um botão solto e o exuberante busto da noiva…
Esses “retratos de um Portugal”, de um passado não tão distante, estão agora expostos nas imagens e objetos que constituem a exposição “Casar“, na galeria do Museu São Roque, um patrimônio cultural da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. É um passeio curioso e esclarecedor pela história privada dos lisboetas e o lado afetivo de Portugal, realizado a partir do rico acervo do Arquivo Ephemera, organizado pelo professor e ex-deputado José Pacheco Pereira.
“No Ephemera, temos milhares de fotografias, incluindo muitas sobre casamentos, que parecem ser as primeiras a serem descartadas”, diz José Pacheco Pereira.
Esse padrão pode auxiliar na descoberta de outras nuances da cultura portuguesa, e foi essa busca que motivou a organização da exposição, que desde junho atraiu 600 mil visitantes e permanece aberta ao público até 30 de setembro.
A vida privada dos portugueses
Assim como em um casamento, o acesso à exposição Casar se inicia pela porta de uma igreja, a de São Roque, um tesouro do barroco português. ao lado do altar majestoso, segue-se um trajeto que remete aos costumes de uma boda tradicional portuguesa da metade do século passado, da preparação dos noivos até a chuva de arroz.
“Casar” recria a decoração típica de uma casa de uma família tradicional, com uma parede repleta de registros familiares, sorrisos infantis, férias na praia e, naturalmente, casamentos.
Não é necessário se aprofundar muito nesta ampla casa para entender o que José Pacheco Pereira quer dizer sobre “observar padrões da sociedade”.
Na primeira parede, fotografias mostram um passado em sépia em que o essencial era que o noivo e a noiva fossem retratados ao lado de um aparelho de televisão. “Houve um tempo em que ter uma televisão em casa era um sinal de status social”, enfatiza José Pacheco Pereira, apontando para uma noiva que parece mais fascinada pelo aparelho do que pelo próprio noivo.
Por outro lado, esse amor relacionado aos casamentos parece não ter sido capturado pelos fotógrafos da época, já que os registros mostram casais excessivamente sérios para um momento que deveria ser… tão sublime.
“Não parece haver afetividade entre os noivos, nenhum indício de intimidade”, observa o curador da exposição.
Outro padrão evidente está nas crianças nas fotografias. “As crianças nunca sorriem, estão sempre com uma expressão séria, ao contrário das adolescentes radiantes”, destaca José Pacheco Pereira. Ele menciona ter se divertido explorando os quase seis quilômetros de acervo da Ephemera em busca desses registros da sociedade portuguesa, por meio de um ritual aparentemente tão comum.
Mas, é apenas aparentemente.
Noivas tristes, noivos bobos
Os retratos de casamento da exposição revelam que, por muito tempo, casar foi a alternativa mais segura e socialmente aceita para a emancipação da mulher portuguesa, especialmente durante o Estado Novo. Uma “alternativa” que nem sempre resultava em uma plena emancipação feminina, muito menos em felicidade.
“As noivas que sorriem nas fotografias podem não ter percebido que aquele seria o último momento de alegria em seu matrimônio”, reflete José Pacheco Pereira.
Noivas encantadas com maridos que se comportam como animais parecem fazer parte de uma longa tradição matrimonial europeia, talvez até mundial, como sugerem os bastidores de um clássico omnipresente nas cerimônias de casamento: a Marcha Nupcial, composta pelo músico alemão Felix Mendelssohn.
Mendelssohn escreveu a marcha em 1842 para uma adaptação de Sonho de Uma Noite de Verão de Shakespeare. “Ele recorreu a mitos greco-latinos sobre casamentos, incluindo O Asno de Ouro, de Lúcio Apuleio, no qual uma noiva se apaixona por um burro”, explica o curador, não sem antes adicionar de forma bem-humorada: “Portanto, pensem duas vezes”.
A exposição “Casar”, no entanto, não se resume a registros fotográficos; inclui também cardápios, publicações populares na segunda metade do século passado e vestidos de noiva, ao menos dois deles fora do “padrão nupcial” da época – como um modelo de verão com bordados florais, criado pela famosa estilista da época, Maria Emília de Oliveira.
Outro vestido que José Pacheco Pereira considera o mais “sexy” da exposição é um ousado modelo em mini-saia usado no casamento de Isabel e Pedro em Las Vegas, numa cerimônia que teve um anúncio iluminado em neon com os nomes dos noivos e um pequeno boneco de Elvis Presley decorando o bolo.
Entretanto, os registros luxuosos e sexy não fascinam José Pacheco Pereira tanto quanto a já mencionada fotografia do casal acompanhado pelos sogros – para ele, a imagem mais emblemática de uma exposição que é, ao mesmo tempo, divertida e enriquecedora, levando o curador a iniciar pesquisas para uma segunda iniciativa sobre o mesmo tema.
Portanto, uma espécie de “Casar 2.0“. Prova de que, em uma época em que o divórcio parece ser um trend, ainda é possível aprender por meio de um ritual aparentemente démodé como é o secular casamento.









