Com a imagem refletida do próximo na alma

Com a imagem refletida do próximo na alma


Pedro é quem inicia. A poucos metros dela, a partir de uma aresta do quadrado suspenso que compõe a cena, avisa que chegou ao fim, que não se pode continuar “a adiar eternamente” a decisão de terminar. Gradualmente, o discurso torna-se mais agressivo, “assassino”, como descreveria o encenador Nuno Gonçalo Rodrigues, que considera Final do Amor “uma peça fria e assassina”.

O texto de Pascal Rambert chegou até ele por iniciativa da atriz Inês Pereira. “E ainda bem que foi assim. Sinto um enorme alívio por ter sido ela a sugerir e não eu!”, confessa, referindo-se ao estado de devastação emocional em que tanto a atriz quanto Pedro Caeiro terminam cada ensaio e, presumivelmente, cada récita.

Depois de ele destruir sem dó a memória de um amor que já não existe, Inês responde. E não é nada meiga, especialmente quando recorre a uma trindade de palavras “feias” para anunciar que elas retratam o “teu retrato no meu coração”. Aqui, “já estamos numa montanha-russa, os atores estão emocionalmente despidos, expostos diante da plateia, e devido ao dispositivo cênico [o quadrado suspenso] não têm onde se agarrar. É devastador”.

Surge, então, o momento de questionar se haverá razão do lado de algum deles? E quem vence essa espécie de duelo final no “final do amor”? “Durante quase uma hora, uma pessoa diz atrocidades à outra, que não tem nada que a proteja, nem uma parede a qual se encostar ou uma cadeira para repousar o braço. Depois, isso se inverte. Assim, pelo que tem sido observado por quem assistiu aos ensaios, parece ser impossível tomar partido por um ou por outro.”

Embora exista essa “impossibilidade de nos posicionarmos, ora porque pensamos que ele tem razão e ela errada, ora porque logo percebemos que ele é bruto e ela uma vítima”, Inês e Pedro são personagens que refletem aquilo que o encenador define como “demasiada humanidade”. Diante do desnecessário e da brutalidade, eles são, como muitos outros, um casal em guerra, e como ele a lembra, deixando claro que quando o amor dá lugar ao ódio, “a guerra não é uma coisa engraçada”.

Final do Amor (Clôture de l’amour, no original), estreada com grande alvoroço no Festival de Avignon em 2011, foi, assim como quase todas as peças de Pascal Rambert, escrita especialmente para os atores Stanislas Nordey e Audrey Bonnet. A relação do dramaturgo e encenador francês com “seus” atores envolve uma escrita direcionada a intérpretes específicos, incluindo nomes como Emmanuelle Béart e Marina Hands, assim como os atores portugueses Beatriz Batarda e Rui Mendes, que protagonizaram, em 2018, Teatro, peça encenada por Rambert no Teatro Nacional D. Maria II.

O texto, que os Artistas Unidos levam agora aos palcos, foi o responsável pela consagração internacional de Rambert, tendo sido encenado em mais de dez países, dos Estados Unidos à China. Em Portugal, conhecemos duas versões: a de Victor de Oliveira, traduzida e interpretada por ele mesmo e por Gracinda Nave, em 2016; e a de Ivica Buljan, com Pia Zemljić e Marko Mandić, apresentada no Festival de Almada em 2018.

A tradução de Victor de Oliveira (publicada nos Livrinhos de Teatro) é a base da versão atual. “Tentando manter ao máximo a tradução, fiz uma versão cênica que traduz muito da forma obsessiva com que me envolvi neste trabalho”, conta Nuno Gonçalo Rodrigues. “O objetivo foi, sobretudo, preservar uma certa ambiguidade, muito presente na versão original em francês, que nem sempre é possível em português. Acredito que o espetáculo precisava disso, ainda mais sabendo que o texto foi escrito para atores específicos e que Inês e Pedro estão lidando com essa desvantagem.”.

Assim, o encenador ressalta “o intenso trabalho de adaptação ao corpo e à voz de quem agora diz aquelas palavras, a tradução de Victor, pensando que, assim como a peça original foi escrita para determinados atores, a tradução também foi feita para ser falada, neste caso, pelo próprio Victor e por Gracinda”.

Outro aspecto que Nuno Gonçalo Rodrigues deu especial atenção foi à dualidade presente no texto, que oscila “entre uma certa poesia, um registro mais erudito e intelectual, e a maior banalidade, o corriqueiro e múltiplos estrangeirismos”. Um dos exemplos que ele menciona com frequência é a invocação do mito de Orfeu e Eurídice surgir “de repente, entre um welcome, welcome ao meu mundo“.

Com dois atores “absolutamente incansáveis”, que fazem do texto algo autenticamente seu, Final do Amor se prepara para cativar plateias a partir do dia 9 no Teatro Meridional, permanecendo em cena até 25 de maio.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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