Pedro Homem de Mello
Poemas 1964-1979
Este segundo volume de poemas de Pedro Homem de Mello, cobrindo os anos entre 1964 e 1979, completa a publicação da obra integral do autor. Sua poesia, singular e inconfundível, é caracterizada, como destacou José Régio, pela “sinceridade profunda do seu interesse pelo folclore vivo e do seu amor pelo povo” (“Povo! Povo! Eu te pertenço / Deste-me alturas de incenso”, eternizado por Amália Rodrigues). A poesia de Mello é centrada na contradição entre “corpo e alma” e explora o desejo (frequentemente homoerótico), contrapondo a efemeridade do prazer à permanência do remorso, da culpa e do pecado. David Mourão-Ferreira chamou-o de “um pagão com o hábito de ser católico”, associando seu universo poético à pintura de Leonardo: “Há em Pedro Homem de Mello muito de certos artistas do Renascimento, pagãos por natureza, mas presos à letra (e não ao espírito) da religião estabelecida”. Luíz Manuel Gaspar é o responsável pela edição, com um posfácio sobre os dois volumes escrito por Fernando Cabral Martins. Este é o tão aguardado retorno do poeta de Eu Hei-de Voltar um Dia, que escreveu: “E cumprindo uma promessa, / O Poeta que fui eu / Em cada verso regressa / Do país onde morreu?” LAE Assírio & Alvim
Ernest Hemingway
O Jardim do Paraíso
Ernest Hemingway (1899-1961), nascido em Oak Park, não longe onde Frank Lloyd Wright começou seus projetos, revolucionou a prosa de maneira semelhante à que o arquiteto fez com as suas “casas da pradaria”: redução ao essencial e eliminação de ornamentação. O Jardim do Paraíso é um romance póstumo, publicado pela primeira vez em 1986. Hemingway trabalhou nele por mais de uma década, sem nunca considerá-lo finalizado. David e Catherine Bourne, que parecem irmão e irmã, são um jovem casal americano. Durante a lua-de-mel no sul da França, se envolvem em uma série de jogos eróticos que brincam com essa semelhança, enquanto David, aspirante a escritor, se dedica à elaboração de um “romance africano”. Conhecem a bela Marita, e entre eles se estabelece um complexo relacionamento que se intensifica à medida que a escrita do livro avança lentamente para a conclusão. Esta é uma obra única no universo do autor, que explora com ousadia e elegância os temas do triângulo amoroso, da fluidez de gênero e da fusão do homem e mulher em uma mesma entidade. Tornou-se uma das referências para o artista português Julião Sarmento. LAE Livros do Brasil
Samanta Schweblin
O Bom Mal
Samanta Schweblin, nascida em Buenos Aires em 1978 e residente em Berlim desde 2012, é ganhadora de prêmios importantes, como o Juan Rulfo e Casa de las Américas. É autora de volumes de contos como Pássaros na Boca e Sete Casas Vazias, além do romance Distância de Segurança, que, assim como Kentukis, foi finalista do International Man Booker Prize. A revista Granta a incluiu na lista dos 22 melhores escritores de língua espanhola com menos de 35 anos. O título da coletânea de contos O Bom Mal revela muito sobre seu universo literário, que explora o ambíguo, a estranheza, a inquietação, o fantástico e até o terror. Como afirmou o crítico do Expresso, José Mário Silva, Samanta Schweblin “insiste em rasgar o tecido do quotidiano com as lâminas da estranheza e do desajuste”. Esses seis contos têm origem na vida real, inspirados em indivíduos, animais, eventos ou situações que Samanta conheceu ou presenciou. Sobre o relato William à Janela, ela afirma: “aconteceu verdadeiramente. Talvez seja o conto mais autobiográfico que escrevi, e talvez por isso seja melhor não dizer mais nada.” LAE Elsinore
Julian Barnes
Mudar de Ideias
“Alguns de nós temos convicções firmes fracamente sustentadas, outros têm opiniões fracas fortemente sustentadas. Sempre presumi que liberais como eu têm opiniões moderadas moderadamente sustentadas. Mas não sei se isso ainda é verdade. Quando pedem minha opinião sobre algum assunto público, a tentação é responder: ‘Bom, na República Benigna de Barnes…’ Neste breve conjunto de ensaios e palestras, que abordam Memórias, Palavras, Política, Livros, Idade e Tempo, nunca realmente saímos dessa “República Benigna de Barnes”, onde o autor, através de histórias de sua vida e de outros, revela o que permaneceu inalterado em suas ideias (sobretudo no uso rigoroso das palavras e nos valores sociais e civilizacionais aos quais a política deveria corresponder), ou em que houve mudança de opinião (especialmente devido à memória dinâmica e instável, e na apreciação de determinados escritores). Concluímos a leitura deste livrinho leve e divertido com uma percepção positiva sobre o autor. Os textos geram empatia e proximidade, onde apenas uma voz se pronuncia, mas a ilusão da conversa acontece. RG Quetzal
Paulo José Miranda
Máquinas de Ficção
Paulo José Miranda evoca a tradição de “textos acerca de textos”, citando Pseudo-Dionísio, que se fez passar por Dionísio o Aeropagita, um ateniense que se converteu ao cristianismo após ouvir São Paulo. Pseudo-Dionísio não apenas inventou um autor que teria vivido 400 anos antes dele, mencionando livros que nunca existiram. Além disso, “parece usar as citações de livros que não escreveu para construir aqueles que escreveu”. Paulo José Miranda afirma: “A pós-modernidade surgiu entre os séculos V e VI no Oriente Médio.” Assim, Máquinas de Ficção é uma coleção peculiar de textos sobre outros textos. Originalmente publicados no jornal Hoje Macau, eles provocam o leitor a explorar críticas a livros que nunca foram escritos — “mas que talvez devessem existir”. Cada texto é uma porta para um universo literário alternativo, onde a crítica se torna criação. Mantendo o jogo com o leitor, Paulo José Miranda cita um excerto de um suposto ensaio de Hélder Macedo, autor que admira: “No universo não há lado de fora e lado de dentro, tudo é lado de dentro. Assim acontece no romance. (…) Assim como no universo, no romance tudo é intertextualidade.” LAE Caminho
Fernanda Cachão
O Estado Novo em 101 Objetos
A jornalista Fernanda Cachão apresenta uma obra resultante de cinco anos de pesquisa, reunindo uma seleção de 101 objetos que refletem a vida antes do 25 de abril de 1974. Esta iconografia ilustra, de maneira mais eficaz que palavras, a ideologia que dominou Portugal por 48 anos com firmeza e precisão. Para as novas gerações, pode ser uma surpresa perceber que, outrora, era necessário licença para usar um isqueiro, ou autorização do marido para sair do país. O livro pode ser lido de maneira aleatória, despertando a curiosidade para entender aspectos do regime e seu contexto pessoal e público. Assim, aprendemos ou relembramos curiosidades, como os apelidos de Salazar: “o Botas”, por ter sido fotografado com as solas das botas desgastadas, e “o Esteves”, devido às frequentes notícias que informavam “esteve ontem em visita o Sr. Presidente do Conselho…”. Em suma, é um compêndio ilustrado do que não deve ser esquecido. TCP Lua de Papel
Inês Lampreia
No tempo dos super-heróis
Este é o segundo livro de Inês Lampreia, que, nos últimos anos, publicou textos de crônica, ficção e prosa poética. No tempo dos super-heróis reúne 12 contos, sendo que o título é retirado de um deles. No posfácio, o poeta e ensaísta João Rasteiro menciona: “Mais do que uma escrita feminista, é uma escrita feminina, comprometida com a luta por uma sociedade mais justa.” Com mulheres como protagonistas, mas sem reivindicar causas, a autora aborda questões subentendidas nas histórias, que vão dos tempos de nossas avós e bisavós até hoje. Cada conto é autônomo, mas à medida que lemos, percebemos as conexões que unidos criam um retrato de Portugal no último século. Inês Lampreia utiliza uma escrita simples e “da terra” semelhante às histórias que narra. Ela evoca vidas difíceis, seja na pobreza ou na solidão, nas duras realidades dos campos alentejanos ou na alienação da vida em Lisboa. Aquela avó que refugia-se nas nuvens e a mãe que busca o canto dos rouxinóis revelam uma perda de poesia na contemporaneidade. GL Urutau
Afonso Cruz
O vício dos livros II
“Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.” Assim inicia Afonso Cruz O vício dos livros II. Após lançar O vício dos livros em abril de 2021, o autor retorna com mais histórias, reflexões e curiosidades para quem não consegue viver sem literatura. Com um foco no leitor e na questão constante de como incentivar hábitos de leitura, este volume reúne cerca de 40 textos, alguns autobiográficos, sobre o processo da escrita e a capacidade da poesia de dar vida a tudo o que é objeto de sua arte, apresentando histórias de escritores como Eduíno de Jesus, Lídia Jorge, Marguerite Duras, Rainer Maria Rilke e Raul Brandão, entre outros. A paixão pelos livros permeia todos os textos, evidente também nas ilustrações de artistas como Diego Rivera, Matisse, Picasso, escolhidas para a edição. Afonso Cruz observa que “os livros só alcançam sucesso através do murmúrio”. Aceite, portanto, nosso murmúrio. SS Companhia das Letras
Louisa Yousfi
Em Nome do Bárbaro
“Mas o que será que perde o bárbaro que a civilização arrastou na sua corrida para o progresso humano, alimentando-o generosamente com as riquezas culturais das quais se orgulham os impérios (…)?”. Esta é a questão central que Louisa Yousfi, jornalista, crítica literária e autora, tenta responder em um manifesto estético e político sobre a condição dos descendentes da imigração pós-colonial. Filha de imigrantes argelinos na França e uma das vozes centrais do pensamento decolonial, ela expõe a precariedade e a brutalidade das políticas de integração, mostrando como a assimilação pode significar a perda de identidade, língua, religião e cultura. Elogiado por figuras como Françoise Vergès e Annie Ernaux, este ensaio revela a complexidade da condição pós-colonial: “bárbaros” no seio do Império, que habitam seus subúrbios, falam sua língua e dominam seus códigos, mas têm sérias questões a resolver com ele. É em nome deles que se pronuncia, daqueles que ousam “encarar nosso sol da Barbárie de frente”, como escreveu o autor argelino Mohammed Dib. Um impressionante mergulho na alteridade radical, desmistificando, sem concessões, as narrativas ocidentais e suas falhas morais. LAE Orfeu Negro
Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa
As Cartas do Boom
No romance Adão no Éden, Carlos Fuentes escreve: “(…) a mímica é inevitável na literatura e, ao final, escolher bem os mentores é uma demonstração de talento.” Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa são os quatro principais romancistas do “Boom Latino Americano”. As cartas trocadas entre eles revelam as correspondências valiosas que se estabeleceram entre suas obras no auge deste quarteto. Os editores do volume afirmam que as cartas documentam “um momento em que os criadores pareciam ter começado a escrever menos sozinhos para ‘tocar’ em conjunto, como parte integral de uma mesma literatura”. Cada um deles tinha plena consciência do que os outros estavam criando, como confessa o escritor mexicano: “(…) sei que cada um de nós está muito consciente do que os outros estão a fazer”. Este intercâmbio oferece um acesso sem precedentes às suas relações pessoais e coletivas, revelando de forma privilegiada a literatura e a política latino-americana no contexto histórico entre 1959 e 1975. Também testemunha a amizade sincera e o respeito que os unia, que contradiz a máxima de Carlos Fuentes, expressa no citado romance: “Leia os escritores, mas não os conheça pessoalmente.” LAE Dom Quixote









