Na crónica anterior, abordei a relevância das casas de fado na profissionalização dos artistas, mas não mencionei nomes. Agora, gostaria de destacar o Retiro da Severa, que foi inaugurado em 1933 no Parque Eduardo VII e, três anos depois, transferido para a mesma rua onde a PIDE se estabeleceria, na António Maria Cardoso.
O Retiro se destacava em relação a muitos outros locais, não só por ser considerado “o mais vistoso Salão de Fados de Lisboa”, conforme um cartaz publicitário da época, mas também porque transmitia seu espetáculo via rádio. Embora se diga que, durante a Segunda Guerra Mundial, muitos portugueses ouviam o noticiário da BBC pelo rádio, é importante notar que apenas menos de 15% das casas portuguesas contavam com um aparelho, quase todas na capital. Por isso, o Retiro da Severa tinha motivos para se orgulhar de transmitir “pela T.S.F.”.
Em Lisboa, estavam instaladas as três rádios que seriam fundamentais para a divulgação do fado nas décadas de 30 e 40: a Emissora Nacional, o Rádio Clube Português e a Rádio Renascença. Com a música ocupando o espaço principal da programação e o fado sendo a canção mais apreciada, as diferentes estações frequentemente transmitiam aos ouvintes reunidos em torno de aparelhos de rádio – seja em casa, em cafés ou em locais públicos – espetáculos ao vivo de casas de fado, teatros e outras salas.
A crescente importância dos discos e o aprimoramento das gravações pelas editoras, que assinavam contratos de exclusividade com as principais estrelas, também possibilitaram uma ampla difusão dos repertórios fadistas. Isso gerou críticas dos detratores do fado, que já mencionei em crónicas anteriores, que reclamavam da presença excessiva do fado nas rádios e da monotonia resultante, um dos quais (Luiz Moita) ao microfone da própria estação estatal.
No entanto, essas reclamações não mudaram a situação; na verdade, reforçaram-na. A Emissora Nacional, liderada por Henrique Galvão, foi a primeira a convidar, em 1938, a renomada fadista Maria Teresa de Noronha para cantar quinzenalmente em seus estúdios, no programa apresentado por D. João da Câmara, apresentando quatro fados a cada sessão. As outras rádios, mesmo as menores, acabaram por imitar essa iniciativa, chamando fadistas que eram, talvez, menos burgueses, mas populares.
Além disso, no começo da década de 40, criou-se na estação pública o programa “Serão para trabalhadores”, uma iniciativa de António Ferro em colaboração com a FNAT (hoje INATEL), que consistia em um espetáculo quase totalmente preenchido por fados. Inicialmente transmitido em Lisboa, com a presença de funcionários públicos, ele se tornou itinerante, cobrindo várias cidades do País.
Aqueles que consideravam o fado a “Canção dos Vencidos” não encontraram na rádio um aliado. Apesar de, após a Revolução de 1974, o fado ter ficado afastado dos meios de comunicação, ainda hoje as estações de rádio oferecem regularmente programas dedicados à canção nacional – como “Alma Lusa”, “Memórias do Fado” e “Fado Cravo”. Em 2009, foi lançada a Rádio Amália, uma estação que transmite fados dia e noite.









