Minha juventude me afastou do fado, perdi a voz e cessei de interpretar

Minha juventude me afastou do fado, perdi a voz e cessei de interpretar

Embora tentasse disfarçar sua timidez, ele não conseguia – e nem precisava transformar isso. No palco, onde se revela, encanta. Camané é um fadista amplamente reconhecido, um dos artistas mais respeitados no Fado contemporâneo e atemporal. Sua segunda nomeação para o Grammy Latino é uma homenagem à memória daqueles que o inspiraram e orientaram. Ele afirma que traz essas influências na voz, oriundas do fado que começou a escutar na infância.

A entrega anual do Grammy Latino, em sua 26.ª edição, ocorrerá no dia 13 de novembro, em Las Vegas, Nevada, EUA. Este é um momento oportuno para discutir a vida do artista português que representa Lisboa – cidade que ele vê com uma “abertura enorme”, mas que também enfrenta o problema do racismo, algo que o “choca”.

Leia a entrevista completa aqui:

Quando começas a perceber a profundidade de uma música como o Fado?

Eu cantei pela primeira vez aos 8 anos, antes do 25 de Abril. Naquela época, parecia uma brincadeira; eu levava a sério os discos da Amália, do Carlos do Carmo e do Fernando Maurício que ouvia em casa. Embora sentisse que eram de alta qualidade, minha relação com a música era lúdica. Havia poetas populares que escreviam sobre temas que me diziam respeito, mas sem pressões. No fundo, estava moldando meus próprios fados.

O que significa “construir meus fados”?

Eu não podia cantar a dor e o amor que os adultos abordavam, mas essa era a essência do fado. Eu adorava a possibilidade de me expressar através das palavras, soavam bem para mim, então os poetas populares criavam letras que eu cantava em fados tradicionais, como o Mouraria, o Rosita ou o Isabel.

É essencial para o Camané adolescente ouvir outros estilos musicais?

Frank Sinatra, Jacques Brel, Charles Aznavour, The Beatles… Tive uma hepatite quando criança e passei muito tempo em casa. Comecei a ouvir discos que meu padrinho me tinha dado, mas minha adolescência me afastou do fado. Minha voz mudou, estava diferente, não conseguia cantar o que desejava, e acabei por parar de cantar. Durante esse período, explorei vários gêneros: jazz, rock, punk, heavy metal.

Quando você retorna ao fado?

Comecei a trabalhar no Arsenal do Alfeite, onde meu pai trabalhava, e a estudar à noite. Minha adolescência foi complicada, pois não sabia o que queria fazer. Essa ligação com a música aparece bem cedo: o fado. Passei pela fase em que crianças com boas vozes crescem e perdem o talento. Isso é normal, a voz muda muito nessa fase, mas aos 17 anos percebi que poderia voltar a cantar. Havia uma casa de fados na Cruz Quebrada, e comecei a frequentar aos fins de semana.

Foi nessa idade que você percebeu “agora sim, estou pronto”?

Sim, foi exatamente nesse período. Eu queria cantar com os músicos daquela casa, como António Bessa e Prof. Martinho D’Assunção. Depois, aos 20 anos, fui para a tropa e aquilo se tornou a desculpa perfeita para deixar o trabalho no Alfeite e seguir cantando aos fins de semana. Porém, o dono começou a dizer que os fados iriam acabar. Fui para casa e conversei com meu pai; já havia um convite para cantar no Fado Menor (o antigo Sr. Vinho), mas gostei de estar ali. Mais tarde, o dono me ligou para dizer que não fecharia, mas queria mudar os músicos para um grupo mais jovem; ele considerava os outros “velhotes”. Eu respondi: “então eu vou ficar com os velhotes”. E fui.

Certamente você tem inúmeras histórias…

Desde pequeno, tive a sorte de conviver com grandes nomes do fado. Lembro de uma ocasião em Alcochete, onde conhecia todos. Pediram-me para cantar, fui até o guitarrista e pedi o fado José António (Quadras). Ele tocou, riu, satisfeito, e no final me deu um abraço. O guitarrista era, de fato, o compositor José António Sabrosa, e eu não sabia. Ouvi nomes como João Ferreira Rosa e João Braga, todos esses influenciaram meu fado. Meu estilo se desenvolveu a partir dessas referências, de ambientes nobres a populares.

Há uma sobriedade que te define. Quando te vemos, não há artifícios; um fato escuro e um palco discreto contrastam com as tendências atuais. Como você vê isso?

As pessoas têm referências diferentes, influências do que ouviram crescer. Algumas coisas que fazem sucesso não são o que eu busco, mas entendo as diferenças. Sou tímido, sempre fui, preciso de momentos de silêncio e respiração no palco para me libertar e me conectar com o público. Às vezes, leva dois ou três fados para eu me soltar – antes, levava dez.

Tive a sorte de ouvir os melhores, enquanto outros têm menos tempo de ligação ao fado e entraram mais tarde. Enfrentei um certo preconceito em relação ao fado na minha juventude, uma resistência enorme.

Carlos do Carmo e José Mário Branco são referências importantes na sua vida. O que você aprendeu com eles?

José Mário foi um dos primeiros a reconhecer a qualidade do fado. Sua geração mostrava-se contra o fado; não era apenas preconceito, mas uma visão distorcida. Sérgio Godinho e Fausto também começaram a criar conexões. Lembro de uma noite em que estava com José Mário e Manuela de Freitas, ouvindo João Ferreira Rosa até de manhã. José Mário entendeu a injustiça e me ajudou muito a compreender a interpretação e a emoção do poema.

Com Carlos do Carmo, fui ao Faia com meus pais quando tinha 10 anos, e ele pediu que eu cantasse. Eu só quis cantar se ele estivesse me ouvindo, e ele foi. Na fase em que parei de cantar, ele sempre perguntava por mim. Quando retornei, ele sempre esteve ao meu lado; saíamos, conversávamos, viajávamos juntos, era uma amizade muito próxima.

É importante o reconhecimento dos seus pares ou o que você recebe do público é o mais relevante?

Prefiro o reconhecimento do público, mas nunca abri mão do que acredito. Nunca busquei o sucesso fácil. Já pensei muitas vezes sobre como poderia ter mais fama se tivesse escolhido outro caminho, mas isso nunca foi uma prioridade. Minha música possui características específicas, e acredito nelas. Isso, para mim, é fundamental.

O que representa para você a nomeação para os Grammys Latinos?

É a segunda vez que sou nomeado para um Grammy Latino, e fico feliz que a música portuguesa esteja sendo reconhecida. É uma celebração de estar associado à língua portuguesa. É o mesmo prêmio para o qual fui nomeado em 2020. Embora também haja um artista chamado Janeiro, não estarei presente porque tenho um concerto no mesmo dia; da outra vez, também não pude comparecer por conta da Covid, e apenas escutei online, em casa, com Mário Laginha.

Esta entrevista é divulgada pouco antes da revelação do vencedor. Imagine que você ganhou. O que sentiria?

Agradeceria às pessoas por terem ouvido a música, por se interessarem pela música portuguesa na língua de Portugal. Agradeço imensamente, pois para isso acontecer, tiveram que realmente ouvir o disco. Estou feliz, mas não tenho muitas esperanças de ganhar. É verdade que ser nomeado duas vezes é algo inédito para um artista português, mas há muitos artistas de países de língua portuguesa envolvidos. Contudo, naquele dia, estarei com meus amigos, Ricardo Ribeiro e Zambujo, brincando uns com os outros.

Então, que música é essa que tanto nos aflige?

A melancolia, a tristeza, a alegria que acaba por se tornar tristeza são sentimentos presentes em todas as músicas. Se escutarmos blues, jazz ou Bob Dylan, percebemos uma imensa tristeza melancólica; isso também ocorre no samba e na bossa nova. Em “A vida é um moinho”, de Cartola, ele narra a história de uma jovem que se apaixona, mas que acaba perdendo tudo e ficando triste, uma projeção negativa. No fundo, ele escreveu isso para sua filha, que estava prestes a viver uma relação que ele não acreditava. O que caracteriza as músicas é o ritmo, o tempo, a respiração. No fado, a emoção é mais contida, pois a tristeza é ainda mais evidente por causa do ritmo.

Como você vê sua Lisboa?

Muitos anos se passaram. Hoje, Lisboa é mais diversa. Na minha infância, era mais provinciana, mas também mais portuguesa, pois havia menos pessoas de fora. A cidade tem suas melhorias, mas percebo que Lisboa possui uma abertura enorme – o mundo aqui está presente, é preciso aproveitar isso sem saudosismos. Temos uma cidade fantástica, mas ainda convivemos com preconceitos; o racismo me choca profundamente, é vergonhoso. Todos nós precisamos uns dos outros. Somos um povo especial e, talvez, necessitemos de mais pessoas para nos apoiarem.

Como você vê a intervenção dos artistas em questões sociais e políticas? É uma obrigação?

Sempre mantive uma relação com a política e questões sociais. Neste momento da minha vida, não gosto de me envolver em posturas políticas ou campanhas. Já fiz isso no passado, mas não quero mais. No que diz respeito ao ativismo social, apoio muitas vezes; por exemplo, participei recentemente de eventos em apoio à Ucrânia. Isso não é uma obrigação, mas uma questão de consciência, e os artistas precisam tê-la.

O que ainda não sabemos sobre o Camané?

Acho que vocês conhecem tudo. Continuo sendo uma pessoa tímida, um pouco reservada, mas quando canto, consigo, aos poucos, me libertar e me entregar à música, à história e ao texto; consigo superar a insegurança e os medos.

Gosto de ir à academia e nadar com os meus filhos. Agora, meu hobby é estar com eles, levá-los de manhã (estou aqui bem cansado!), mas antes jogava futebol com amigos; ainda gosto de cinema e, principalmente, de teatro.

Ser pai é o maior desafio da sua vida? Você é o que imaginou como pai?

Tem sido uma experiência fantástica. Muitas coisas aconteceram na minha vida, e sempre tive muito trabalho cantando. Antes de 1997, eram as Casas de Fado e algumas saídas eventuais. O tempo passou e eu não era pai até conhecer a Mariana; a diferença de idade possibilitou isso. Aos 52 anos, fui pai pela primeira vez, e a partir daí foi uma jornada incrível, uma experiência que muda a maneira como vejo tudo na vida; eu ganhei muito com isso.

O que você toca para eles e o que eles pedem?

Eles escutam boa música. Às vezes, se empolgam com as músicas de desenhos animados, mas lembro do António, aqui sentado à mesa, cantando “Lígia” de Jobim. Ele gostou da canção e a cantou perfeitamente. Entrou para a Academia de Amadores de Música aos 3 anos, e Joaquim também começou agora. O António, por sua vez, foi escolhido para piano, e vamos ver o que acontece com o Joaquim na hora certa.

Como você imagina seu futuro pessoal e artístico?

Vou continuar fazendo o que sempre fiz. Uma guitarra, uma viola, subindo ao palco e contando as pequenas histórias do “fadinho”; essa ideia de que o “fadinho” é algo pequeno é absurda. Esse é o fadinho que amo, que fala sobre sentimentos, emoções, melancolia – não precisa ser encarado como algo triste. Aliás, isso também é uma visão preconceituosa. Alegria e tristeza coexistem, e a vida toda teremos razões para falar delas. Nossa música não causa mal algum, as pessoas ouvem uma música triste e ficam alegres. Na ópera, todos morrem no final, um drama imenso, mas como é ópera, é aceito.

Qual é a palavra que define o fadista Camané?

Sorte. Emocionar as pessoas é uma bênção que eu tenho.

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