Já observou as flamboyants que estão a surgir em Lisboa? Os moradores da Rua das Alegrías estão a transformar as calçadas.

Já observou as flamboyants que estão a surgir em Lisboa? Os moradores da Rua das Alegrías estão a transformar as calçadas.

O que começou com uma ideia simples de um arquiteto vizinho, Mateus Lorena, transformou-se num movimento “orgânico” que está a revitalizar a Rua dos Prazeres, na Misericórdia: há oito meses, buganvílias brancas começaram a escalar as fachadas, nomeadas em homenagem aos vizinhos. Atualmente, existem cinco, cuidadas por mãos comunitárias.

Na proximidade, o Pátio dos Prazeres foi premiado como o mais florido de Lisboa há várias décadas. No entanto, nesta rua, entre obras contínuas e a poeira urbana, o verde foi escasso. Isso mudou quando Mateus Lorena, o arquiteto vizinho, plantou uma buganvília branca junto à calçada.

Os vizinhos rapidamente o seguiram. Meses depois, as buganvílias cresceram exponencialmente. “Seria maravilhoso ter a rua cheia de buganvílias brancas”, conta Bárbara Bárcia, a impulsionadora deste movimento de cidadãos que agora ganha vida na Rua dos Prazeres, uma entusiasta de flores.

Bárbara distribuiu folhetos em toda a rua, realizando conversas informais e convidando os moradores a participar. “De repente, temos uma rua que há um ano não tinha nada e agora tem seis buganvílias brancas”.

Mas por que buganvílias brancas?

As plantas que resistem

A buganvília é uma trepadeira que não requer raízes profundas nem muito espaço, sendo ideal para os estreitos passeios lisboetas. Nuno Prates, jardineiro de Lisboa e líder de movimentos de participação cívica em espaços verdes, afirma que, uma vez plantada, a buganvília tem “uma certa rapidez em criar raízes e se fixar”. Além disso, ela se recupera rapidamente se for danificada.

Uma planta à prova de vandalismo e do caos que pode ser a cidade.

Cada buganvília ganhou um nome: a do Mateus é a primeira, por causa do arquiteto; depois veio a Maria, em homenagem à filha de Bárbara; em seguida, Luísa, a condessa vizinha; depois Beatriz; e a Glória, que se juntará em breve. Portanto, ao ouvir os vizinhos da Rua dos Prazeres dizendo que “a Luísa precisa de ser regada”, saiba que provavelmente falam da trepadeira alta e verde junto ao passeio, não de uma metáfora para um dia triste de uma vizinha.

O impacto vai muito além da estética da rua. Os vizinhos relatam que as flores estão fortalecendo os laços comunitários, em prédios onde poucos se conheciam, agora com flores que levam seus nomes, servindo como um pretexto para iniciar conversas. “Minha vizinha da frente me conhece há 20 anos e não sabia meu nome”, compartilha Bárbara.

Uma batalha entre junta, câmara e cidadãos

Na Misericórdia, onde as ruas estreitas compõem a memória de Lisboa, a Junta de Freguesia respondeu ao chamado por uma cidade mais verde com o plantio de buganvílias que florescem junto às fachadas. Nos últimos anos, as buganvílias foram introduzidas na Rua da Rosa, na Travessa da Água da Flor, na Travessa da Boa Hora e em diversas outras ruas. No entanto, faltam recursos para cuidar de todas essas plantas. Assim, a Junta de Freguesia da Misericórdia acabou de contratar uma empresa para esse propósito, após um concurso público.

Contudo, alertam: “se o crescimento das buganvílias se tornar excessivo, a responsabilidade pela manutenção pode passar para a Câmara Municipal”. E, nesse caso, a situação muda.

Nem sempre a convivência com as buganvílias na cidade é uma história feliz. O jardineiro Nuno Prates recorda que há plantas que são removidas quando prejudicam o espaço público ou dificultam a acessibilidade nas calçadas.

Nuno planta trepadeiras como buganvílias, especialmente pela “resistência ao vandalismo”. “Não exatamente ao clima, mas ao vandalismo. É crucial escolher uma espécie que se estabeleça rapidamente. E se for danificada, recupera-se com a mesma rapidez.”

No entanto, muitas vezes são removidas do espaço, como tem ocorrido frequentemente.

Na freguesia de Campo de Ourique, houve recentemente um confronto entre uma florista e as autoridades locais. No início do ano, a florista recebeu uma notificação para retirar uma buganvília que já fazia parte da fachada do estabelecimento desde antes de sua chegada. “Cuidávamos dela com carinho, e ela crescia forte e saudável”, afirma Ana Carolina Rocha, responsável pela loja. Após a notificação, enquanto os clientes esperavam para comprar flores, os trabalhadores da câmara cortaram os ramos da planta.

Meses depois, receberam outra notificação visando uma ficus e uma trepadeira, e para salvá-las, tiveram que realocá-las em vasos pequenos.

Contatada pela Mensagem, a junta de freguesia explicou que “plantar espécies inadequadas nos locais errados pode comprometer toda a infraestrutura subterrânea, como os ramais de esgoto, que estão próximos das fachadas dos edifícios, além de demais ramais de eletricidade, água ou gás.”

A força cidadã enfrenta a burocracia, enquanto as autoridades tentam gerenciar o que consideram perigos. Porém, em um tempo de prédios altos e solidão, as buganvílias resgatam o que Lisboa tem de melhor: a vizinhança íntima e o cuidado coletivo pelo espaço público.

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