Não é fácil soletrar o seu nome, mas não teria sido por essa dificuldade de o dizer, seja em que língua for, que Clitemenestra nunca tenha merecido uma tragédia em seu nome, como as filhas Ifigênia e Electra, ou desencadeado (pelo menos diretamente) uma guerra tão famosa e determinante como a bela irmã, Helena. Embora sem seu nome inscrito pelos grandes dramaturgos da Antiguidade nas capas dos livros, Clitemenestra é uma personagem central nas duas primeiras peças da Oresteia de Ésquilo, ou não fosse ela imortalizada na cultura ocidental (com tudo o que essa visão tem de patriarcal) como a mulher infiel que matou Agamêmnon, o rei e comandante das tropas gregas que venceu a guerra de Troia.
Sendo Clitemenestra muito mais complexa, e até mais controversa do que isto, importa incidir nova luz sobre aquela que é das personagens femininas mais marcantes da tradição trágica ocidental. Afinal, a esposa que trai e mata o marido foi também uma mãe que assistiu impotente ao sacrifício por vontade divina da sua própria filha, Ifigênia, às mãos do pai.
Por isso, nas próximas noites, no palco mais antigo do país – o Teatro Romano de Lisboa -, as atrizes e cantoras Ana Marta Kaufmann, Patrícia Modesto e Sofia Leão, dirigidas por Claudio Hochman, dão corpo ao mito e vestem a máscara destas e de várias dezenas de personagens que o teatro clássico imortalizou. Tudo para contar a história de Clitemenestra sem retirar pinga de tragédia a esta vida atribulada e sofrida, mas infundindo-lhe uma irresistível dose de humor e música a cappella.
“O nosso desafio foi contar em pouco mais de uma hora a história de Clitemenestra, desde o nascimento até à morte às mãos de Orestes, seu próprio filho”, compartilha o encenador. Para construir a dramaturgia do espetáculo, Hochman baseou-se, sobretudo, em Ifigênia [em Áulis] de Eurípides, Agamêmnon e Coéforas de Ésquilo, embora a personagem e as suas múltiplas e contraditórias visões estejam presentes em vários outros textos, destacando-se, a exemplo, a Odisseia, de Homero, ou a peça Electra, de Sófocles.
Contando com três atrizes cantoras, “não só muito diferentes fisicamente, mas com formações distintas – uma da área da ópera, outra do teatro musical e outra ainda da música contemporânea – que, em conjunto com Afonso Cardoso, encontraram as melodias certas para os textos do coro” essenciais ao desenrolar da ação, Clitemenestra é um verdadeiro desfile de grandes personagens da dramaturgia clássica. Com máscaras assinadas por Carlota Blanc, as intérpretes compõem largas dezenas de personagens que fazem parte do imaginário da cultura ocidental sem que o espectador jamais perca o fio à meada.
E sobre Clitemenestra, acredita Claudio Hochman que este espetáculo não pretende defini-la perante o público. “Aquilo que quero é apenas contar a história. Contudo, diria apenas que Clitemenestra é uma mulher que não chora, que quando tem de amar, ama e quando tem de matar, mata.”
Como já vem sendo habitual nos últimos anos, durante o mês de julho, o teatro regressa ao Teatro Romano, situado no bairro da Sé. Sempre com o intuito de divulgar o teatro clássico, Clitemenestra insere-se na programação do Museu de Lisboa – Teatro Romano, estando em cena de quarta a sábado às 21 horas até o final do mês.









