O espaço da sala de espetáculos exibe uma imponência digna de uma basílica, algo que não surpreende, visto que o Teatro Ibérico está situado na antiga Igreja do Convento de Xabregas, restaurada das suas ruínas após o terramoto a mando do Marquês de Pombal. Contudo, a peça que está em ensaio para estrear no dia 18 de setembro não aborda a vida aristocrática, mas o cotidiano rigoroso de algumas comunidades do Beato.
Bairro Profano, título do espetáculo, foi criado por Rita Costa e Catarina Caetano, em estreita colaboração com associações de moradores de diversos bairros sociais desta parte oriental da cidade: Geração com Futuro, Viver Melhor no Beato e o Grupo Recreativo e Cultural Os Onze Unidos.
Uma colaboração que acompanhou toda a realização da ideia, desde a dramaturgia à construção do cenário e à interpretação das atrizes Mariana Correia e Catarina Caetano. Este processo foi continuamente enriquecido pela partilha de experiências sobre o bairro social atual e recordações de infâncias passadas em barracas na Curraleira ou no Casal do Pinto.
“Ninguém lhe diz como deve lá morar”
A diretora artística Rita Costa, residente em Xabregas, partilha seu “objetivo de aproximar esta estrutura das pessoas que habitam o Beato, enfatizando que suas histórias são relevantes”.
Um exemplo disto é João Raimundo, da Associação Geração com Futuro, que cresceu na antiga Quinta da Curraleira e atualmente reside no Bairro dos Alfinetes, em Marvila. Aos 56 anos, expressa uma certa nostalgia por uma infância cheia de liberdade, “onde brincava frequentemente na rua, participava de jogos e explorava as imediações de grandes fábricas, como a Sociedade Nacional de Sabões, na Rua de Marvila.”
Mas por que este sentimento se mantém, mesmo com a transição de barracas para um apartamento, a uma casa com dignidade? João Raimundo compreende a curiosidade e se prontifica a esclarecer: “A Câmara Municipal de Lisboa não se preocupou em manter as comunidades e destruiu vínculos de vizinhança que existiam há anos.”
Este novo isolamento é ainda mais pronunciado entre os mais velhos. João observa que “não houve cuidado em acomodar essas pessoas nos andares mais baixos e, geralmente, os elevadores não têm manutenção regular. Muitas vezes, estão inativos, o que condena esses moradores, com dificuldades de mobilidade, a não saírem de casa por semanas, às vezes meses.”
Esse quadro também se reflete no Bairro Carlos Botelho, conhecido como “bairro branco”, onde Filipa Valente, da Associação Viver Melhor no Beato, que contribuiu para a produção do espetáculo, destaca: “A CML entrega as chaves, mas não se preocupa em manter as comunidades. Há pessoas que ficam completamente isoladas e, muitas vezes, simplesmente se deixam consumir pela tristeza.”
O texto de Bairro Profano captura essas narrativas e preocupações. Confronta-nos com a aparente contradição entre a saudade de um tempo em barracas, quando uma das personagens menciona: “Antigamente está longe… as memórias e os segredos são meus.” Também narra experiências verídicas de moradores que não sabem como lidar com as casas que receberam, como o homem que decidiu acomodar seu burro dentro da casa, tratando-o como um animal de estimação comum, levantando o piso para fazer uma fogueira na sala. E, em um andaime que compõe o cenário, uma personagem se lamenta:
“A malta recebeu uma casa, mas ninguém lhe diz como deve lá morar.”
A cultura ao serviço do avesso do postal que é Lisboa
No Bairro dos Ourives, em Madredeus, Beatriz Mestre, do Grupo Recreativo e Cultural os Onze Unidos, que trabalha com idosos como coordenadora de ginástica, confirma esse desenraizamento, agravado pela saída das famílias, forçadas a deixar a área de Lisboa devido à crise habitacional.
“Não há preocupação com a coesão familiar ou com a construção de relações de vizinhança. O que acontece é que as casas são entregues às pessoas, sem qualquer esforço para apresentar os novos moradores aos que já estão lá. Essa situação gera desconfiança e medo, provocando tensões desnecessárias.”
Beatriz, que emigraram da África quando criança, após o 25 de Abril, valoriza muito a vitalidade da vida comunitária: “Cresci em um bairro semelhante, em Alcântara, e o carinho com que fui recebida foi crucial no meu desenvolvimento.”
Rita Costa expressa a “urgência de dar voz às comunidades enquanto rediscutimos o nosso entorno e a própria cidade.” O “Bairro Profano” do título representa o oposto da imagem de cartão-postal que Lisboa tenta projetar ao mundo: novos e bonitos bairros, urbanizações de luxo, espaços cosmopolitas com ofertas variadas, mas muitas vezes fora do alcance para a maioria. Ao lado dessa visão idealizada, existe uma realidade feita de vidas segregadas, escondidas e vulneráveis.
No início de sua pesquisa, a encenadora buscou os clubes e associações de moradores, “onde os locais se reúnem e têm uma vida comunitária ativa”. Ela foi acolhida com “grande amabilidade e disposição para compartilhar histórias.” Uma realidade que, aliás, conhece bem, já que tem promovido aulas de teatro comunitário em Xabregas, onde os moradores do Beato aprendem conceitos básicos de teatro e expressão corporal.”
O objetivo primordial é fortalecer a ligação entre este espaço, suas atividades, o território e, consequentemente, seus habitantes.
Para Rita Costa, “é fundamental que essas pessoas sintam que o teatro e a cultura também pertencem a elas e são sobre elas.”
“O que acontece é que muitas vezes nem sequer vêm aos espetáculos devido a dificuldades de acesso: a linha de ônibus que os traria aqui encerra muito cedo, perpetuando o isolamento ao qual estão destinados.”
Beatriz Mestre
Com apoios institucionais da Câmara Municipal de Lisboa e da Direção Geral das Artes (e logística do Exército da Salvação), Bairro Profano estreará no dia 18 de setembro e irá até 28 do mesmo mês, de quinta a domingo, às 21 horas, exceto nos domingos, 21 e 28, com sessões às 17 horas.
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