Em 2016, ainda lidando com as consequências da crise econômica que afetou especialmente países do sul da Europa, como Portugal e Espanha, aconteceu a primeira edição da ARCOlisboa. Esta feira internacional de arte contemporânea foi inspirada na sua homônima em Madrid, que surgiu no início da década de 1980, durante o processo de democratização da Espanha. “A feira surgiu em um contexto de mudança em que o país deixava a ditadura e começava a reconhecer a arte contemporânea como um motor de desenvolvimento cultural”, afirma Maribél Lopez, diretora da ARCO.
Os desafios enfrentados há mais de 30 anos ecoam na chegada da ARCO a Lisboa. “Os galeristas portugueses eram, há muito, uma presença essencial nas edições da feira em Madrid, e foi deles a ideia de realizar o evento aqui”. Contudo, as condições para isso só se concretizaram uma década atrás, em um ano particularmente significativo para a arte contemporânea na cidade, já que, ao lado da ARCO, inaugurava o MAAT.
“Percebíamos que a cena artística portuguesa se tornava cada vez mais vibrante, com artistas como o saudoso Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis e Helena Almeida ganhando projeção internacional”, destaca Maribél Lopez, acrescentando que, com isso, “crescia também a importância das galerias e o interesse dos colecionadores internacionais”. Uma década depois, “a ARCOlisboa orgulha-se de fazer parte dessa dinâmica que a arte contemporânea em Portugal vem construindo”.
João Zinheiro, galerista da Kubik e presente desde a primeira edição da feira, enfatiza a relevância de um evento como o ARCO para o mercado de arte contemporânea português. “Um país precisa ter uma feira de arte para alcançar um público mais diversificado do que o que normalmente encontramos nas galerias. Mais do que uma feira, a ARCO tornou-se um polo cultural fundamental para promover a arte e os artistas”.
A ideia de que cada edição da ARCOlisboa é “uma grande exposição de arte contemporânea” motiva Rita Sousa Tavares desde o início. A coordenadora local da feira acredita que o evento incentiva “a adesão de vários setores da sociedade que não estavam mobilizados para a arte”. “Há dez anos, o ecossistema da arte contemporânea em Portugal era muito mais fechado, focado em um público específico”, observa. “Hoje, vemos muitas pessoas visitando a feira e participando das atividades paralelas. Recentemente, esse era um público que não tinha conexão alguma com esse universo”.
Dentro da nave da Cordoaria, Rita Sousa Tavares tem a responsabilidade de manter o equilíbrio entre colecionadores e outros visitantes, o legítimo interesse dos galeristas em vender, mas também em divulgar os artistas e o panorama artístico nacional e internacional. “Um dos meus principais focos tem sido proporcionar maior acesso, diversidade e inclusão à feira”, destaca. Um exemplo é a gratuidade do ingresso para jovens até 25 anos a partir das 17 horas, durante os primeiros dois dias do evento.
Mas surge a questão: o que fazer na ARCO se não tenho dinheiro para comprar? Para começar, se a feira é em si uma exposição de arte contemporânea, “ver, reconhecer e estar presente são motivos mais do que suficientes para vir à ARCO. E é fundamental cultivar o gosto pela arte”, enfatiza Rita Sousa Tavares. Nesta edição, estarão presentes 83 galerias de quase vinte países, representando mais de 470 artistas.
Além disso, para que todos se sintam acolhidos, a organização preparou “um novo espaço lounge, logo na entrada principal, criado pela Lisboa Design Week e projetado pela designer portuguesa Joana Astolfi, da qual nos orgulhamos muito”. Para celebrar os dez anos da ARCOlisboa, o MAAT apresenta uma grande exposição em homenagem ao “aniversário conjunto da feira e do museu vizinho”, enquanto no Torreão Nascente da Cordoaria a EGEAC/Lisboa Cultura prepara “uma outra, dedicada à obra do pintor Jorge Martins, que deverá ser inaugurada pouco antes da abertura da feira”. Salienta-se também “um projeto comissariado por Cosmin Costinas, que trará à ARCO a cerâmica e o têxtil”.
Como ressalta Maribél Lopez, a ARCO “contribuiu de maneira significativa” para a mudança na relação da cidade com a arte contemporânea na última década. “Novos museus abriram em Lisboa, como o MACAM e o novo CAM da Gulbenkian, além de um número crescente de artistas ganhando espaço nas galerias, com destaque para o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, que disponibiliza o espaço necessário para que muitos jovens artistas possam se mostrar. E novas galerias estão surgindo, como temos observado pelo desafio que enfrentamos para integrá-las aqui na feira”.
Uma delas é a Dialog, de Sónia Taborda, fundada em 2023 e estabelecida em Marvila desde o ano passado. “Estivemos como convidadas em Madrid e agora participaremos da feira de Lisboa, na seção para pequenas galerias, o que é fundamental para nós, que lidamos com um mercado pequeno e exigente”, observa a galerista, mencionando a importância da feira em democratizar o acesso à arte.
A questão do mercado restrito leva à pergunta à diretora da ARCO em relação à conjuntura internacional complicada dos últimos anos, marcada pela pandemia e pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. “Apesar das dificuldades trazidas por tempos delicados, o mercado da arte possui uma extraordinária resiliência”, reconhece Maribél Lopez. Independentemente das crises, “aqueles que amam a arte continuam a comprar, mesmo que gastem menos”. E, à medida que “a convivência com a arte se tornou mais comum, há também mais pessoas adquirindo obras. E, ao contrário do que muitos pensam, comprar uma obra de arte não é algo reservado apenas para milionários”.
Na realidade, como afirma Maribél Lopez, citando a artista espanhola Dora García, “a arte é para todos, mas apenas uma elite é capaz de reconhecê-la”. Ao longo dos anos, a ARCOlisboa tem trabalhado para que essa “elite” comprometida com a arte se torne cada vez maior, seja para adquirir obras ou simplesmente para desfrutar da experiência.







