Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo, uma ideia originada nas residências literárias de Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Apesar da distância que os separa, a língua os une e decidiram construir pontes por meio de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título dessa série a quatro mãos.
Como se vestem os príncipes? Com mais perguntas do que certezas recebi o teu exagero. Não com espanto, mas com a preocupação de retribuir adequadamente à nobreza da minha presença em Portugal. Você sabe ser estrondosa, bárbara, ao impor aos outros o que pensa que devem ser.
Escrevo-te do Porto, recém alimentado pela Francesinha Casanova que me deixou uma parede de betão no estômago e uma alegria que guardarei na saudade até à próxima vez.
“Bem-vindo” em changana é “Hoyo-hoyo”. É tão belo, não é? Mais ainda quando dito de braços abertos e sorriso à mostra, com olhos ávidos de querer saber a razão da visita. Mas cuidado, o visitante pode estar cansado, com a boca seca e o estômago vazio. O Pedro, sabendo disso, logo me fez beber e comer algo; até preparou ervilhas que só não são melhores que as da minha avó, pois os falecidos devem ser sempre superiores.
A verdade é que, após o “bem-vindo”, nosso povo oferece um copo d’água – como se fosse chá ou alimento – e uma cadeira para te sentares. Chamam os outros para compartilharem a alegria da visita, a bênção de ter sido escolhido e lembrado. Não importa se você é estranho; quem pisa em nosso chão se torna família.
Com o corpo alimentado e o espírito aquecido, começa a saudação ritual, que é mais do que isso. É compartilhar vidas e experiências; falas da viagem, daqueles que permaneceram e, finalmente, dizes o porquê da visita. Advertindo-te, não visite ninguém fora do espaço urbano de Maputo com pressa, pois ali o tempo tem seu próprio ritmo, como diria Mia Couto.
Agora, você deve entender por que me custa caminhar apressado, sabendo que tudo que deve acontecer em um dia, acontecerá, embora almeje as palavras de Geraldo Vandré: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Deixa-me contar algo que não te revelaria em nossos encontros.
Ao deixar Maputo, uma mulher de sorriso astuto me questionou ao me ver com malas prontas:
“Vais para ficar de vez?”
Amo a forma como minha gente expressa ideias, com um peso semântico que revela a profundidade das coisas. Ir de vez é mais do que partir; ficar de vez é cortar laços, deixar de pertencer a um lugar. Mas ao chegar, ficar de vez é eternamente conectar-se ao novo espaço. Isso me fez refletir durante toda a viagem.
Percebi que a expressão que “viralizou” entre os jovens de Maputo — a busca pela chave para destrancar as “portas” de saída do país — carrega um significado intenso. Essa vontade de partir agora me parece estranha. Ao pensar que desejam partir para ficar de vez, a pergunta sobre o porquê de alguém deixar sua terra natal me intriga mais agora.
A mulher que me causou essa reflexão possuía um sorriso que destoava da seriedade da pergunta, aliviando a angustiante realidade de um país que é uma promessa eterna. Quando descobriu que eu era escritor — como se isso fosse um segredo — e após eu lhe prometer, inspirado em Sauti Sol: live and die in Africa, ela abriu ainda mais o sorriso e exclamou:
“Deves voltar, temos eleições.”
Pensei, então, que existe um futuro onde as pessoas podem se fazer ouvir e influenciar decisões. É verdade que, em Moçambique, tudo é incerto. Há eleições, mas os vencedores são uma questão de sorte; é um jogo de sorteio. Não sei se essa é a paz sem vencedores nem vencidos que pediu Sophia de Mello Breyner Andresen, mas pelo menos há eleições, e eu preciso voltar.
Aquela mulher tem seus motivos para permanecer, mas o Sérgio não. Será que te falei do Sérgio? Conheci-o durante a longa viagem do Sul ao Norte. Ele vai ficar de vez em Portugal, se a polícia da migração deixá-lo entrar. Que tragédia seria falhar já dentro do território português, na fronteira interna.
Você deveria ter visto a emoção e a solenidade de sua viagem. Ao contrário da mulher, ele não sorria; sua expressão refletia sonho e desgaste: seis anos de seus 29 dedicado a planejar a partida, buscando o pin até encontrá-lo. Não perguntei qual era, pois as passwords não se compartilham. Vive e verás.
Dizem que em Portugal as pessoas são mais descontraídas. Pode ser. Israel, um rapaz tranquilo e camarada, está sempre criando histórias, vendo cubanos lutando em Benguela, reescrevendo realidades. Nunca viu um presidente ou um candidato agredido, mas eu venho de um país onde figuras simbólicas morreram em circunstâncias que ainda parecem épicas. Há um clima de medo em Portugal, não é?
Nunca pensei que fosse um príncipe, mas agora me preocupo em me vestir como tal. Fato e gravata? Já tenho; tentei usar isso quando o embaixador Jorge Monteiro nos convidou para me apresentar ao Tatanka. Fui de calças e casaco pretos, uma camisa azul e… esqueci a gravata. Não me lembro por quê. Preparei uma cinza com riscas, mas algo deu errado. Ah, lembrei! Não sabia fazer o nó. Que vergonha! Porém, talvez tenha sido sorte, pois lá ninguém estava preso a gravatas.
Agora me diga, se você entrasse na residência de um embaixador, o que imagina encontrar? Eu encontrei o próprio, sentado sozinho em uma poltrona ouvindo música dos The Black Mamba. Conversamos sobre a vida — a minha, pois ele quis saber — e um pouco sobre você e o que escrevemos juntos. Até que Tatanka chegou, vestindo uma camisa de capulana de Nampula.
Como se vestem os príncipes? Bom, deixemos isso no romance. Não é nada principesco, mas é um começo, até a polícia da migração demonstrou interesse. Quem sabe, em julho, ao invés de apresentar meu passaporte ao agente da imigração, ofereço um autógrafo, após passar com as reverências que alguém que viaja longas distâncias merece?









