A polícia possui indícios robustos que ligam o desaparecimento de Joanna Nelson ao homicídio de outra mulher, acontecido meses antes. Na delegacia, sob a pressão do tempo, o coordenador da investigação, John Culin, comunica à jovem inspetora Ruth Palmer que será responsabilidade dela conduzir sozinha o interrogatório de Cameron Andrews, um empresário que, segundo suas próprias palavras, auxilia outros empresários “a alcançar a excelência operacional aprimorando sua vantagem competitiva”.
Durante o interrogatório, Culin se posicionará vigiando as câmaras de vídeo da sala. Enquanto isso, Ruth precisará demonstrar astúcia suficiente para provar que o homem à sua frente é o culpado. Contudo, a calma fria de Cameron começa a dissipar até as mais evidentes suspeitas da investigação.
O respeitável e carismático empresário — o mesmo que não falha um almoço de domingo com sua mãe — é, aparentemente, o sequestrador de Joanna Nelson e presumido assassino de Clara Marshall? O que as câmaras de vídeo registram e que Ruth não consegue ver poderá ajudar a desvendar o mistério?
Estreada em 2023 no Festival Fringe, em Edimburgo, “Um Interrogatório” confirma Jamie Armitage como uma das personalidades mais instigantes do atual teatro britânico. O encenador Nuno Gonçalo Rodrigues observa que, neste thriller policial, “o autor insere quase uma quarta personagem na cena: o vídeo”. “Armitage determina no próprio texto como as várias câmaras devem ser dispostas, permitindo ao público acompanhar os gestos, os movimentos e as nuances de Ruth e Cameron na sala de interrogatórios.” Esse dispositivo torna-se essencial para proporcionar ao espectador um lado oculto do interrogatório, que nem a inspetora nem o interrogado conseguem acessar.
“Tenho sempre tido algum apreço pelo uso do vídeo no teatro”, confessa o encenador, “mas frequentemente hesitei em utilizá-lo, pois muitas vezes percebo que seu emprego é pouco mais do que um adereço de cenário.” Aqui, a utilização é engenhosamente diferente. “Foi isso que mais me atraiu nesta peça aparentemente simples e cirúrgica, mas repleta de elementos a serem descobertos.”
Outro aspecto particularmente interessante, aponta Nuno Gonçalo Rodrigues, é que “o autor não centraliza o foco em descobrir se estamos diante do culpado ou não”. Na verdade, Armitage parece questionar se “o mecanismo do interrogatório policial serve mais para produzir uma verdade do que para realmente encontrá-la.” É o clássico jogo do gato e do rato, com Ruth e Cameron se testando para ver “quem tem a capacidade de manipular o outro e assim construir uma verdade que pareça plausível aos nossos olhos”.
Um dos elementos mais fascinantes da peça é a personagem de Ruth, uma mulher em um universo masculino. “Ambos os personagens masculinos parecem buscar manipulá-la”, ressalta o encenador. Cameron, de maneira objetiva por sua função, mas também seu superior hierárquico, que a vê como a isca perfeita para resolver o caso.
Para sobreviver a um jogo ao qual não pode se esquivar, a jovem inspetora precisará usar como arma “o descrédito e a fragilidade que lhe parecem apontar apenas por ser mulher”. Na sala de interrogatório, mas também fora dela, Ruth terá que demonstrar que a visão masculina sobre sua aparência como uma jovem obstinada, mas inexperiente, sobre a relação amorosa frustrada evidenciada pelo anel em seu dedo, ou sobre sua confissão imprudente acerca das expectativas que o pai tinha sobre seu futuro, podem se revelar determinantes para que a presa fácil se transforme em uma predadora implacável.
As respostas a essas questões podem ser descobertas até 23 de maio, no Teatro Paulo Claro, ao Poço do Bispo.









