O 25 de Abril tem sido frequentemente retratado no cinema português, mas nunca em estilo musical. A ideia de usar a música como fio condutor surgiu porque já haviam sido abordados os momentos e personagens-chave do 25 de Abril. Sentia que ainda não se tinha falado sobre a música de intervenção portuguesa e os grandes cantautores, que considero os grandes compositores e letristas da música portuguesa do século XX. Esses músicos não apenas se dedicam à música, mas também posicionam-se em relação ao mundo, ao país e à política. Muitas vezes, é mais eficaz mudar ou educar as pessoas através da arte do que com debates políticos. Queria envolver os cantautores e suas músicas, mas não queria que eles cantassem no cinema. Preferi que as pessoas anônimas, que ainda não foram mencionadas em outros trabalhos sobre o 25 de Abril, interpretassem essas canções.
No filme, temos apenas uma figura que pode ser considerada famosa, a Celeste Queiroz. Ela é, na verdade, uma anônima, uma representante de todos os anônimos. Essa intenção foi deliberada; queria compreender como essas pessoas experimentaram o período antes, durante e após o 25 de Abril. Fui elaborando essa ideia ao longo dos anos, até que comecei a trabalhar em um roteiro que parece bastante pedagógico. Desejava que o filme fosse fraternal e igualitário. Quando as pessoas perguntam quem são os atores principais, respondo que todos são. E quem são os secundários? Todos também. Cada um de nós é principal e secundário na vida do outro. Neste filme, exploro muitos mundos, visões, maneiras de ser e anônimos, e é através deles que ouvimos as canções, que existem nas suas vidas. As músicas não aparecem como números musicais típicos dos filmes musicais, mas surgem de momentos íntimos das personagens.
O roteiro já estava escrito com as músicas definidas. Confesso que não era um grande conhecedor da música de intervenção portuguesa. Analisei as discografias dos cantautores e passei semanas ouvindo suas músicas no YouTube. Eram tantas… Gostei de várias. Percebi que não podia começar a escrever o roteiro pelas músicas, pois acabaria me perdendo. Então, decidi o contrário: primeiro defini as histórias que queria contar e, depois, encontrei a música para cada uma delas. Era muito importante incluir a maioria dos cantautores portugueses e, para isso, não podia usar mais de uma canção por artista. O único que tem duas canções é Zeca Afonso, pois o tema Grândola, Vila Morena surge em um contexto separado. Entretanto, observei algo triste: há poucas mulheres cantautoras; há intérpretes, mas compositoras não. Fico contente em poder incluir Ermelinda Duarte, com a canção Somos Livres.
A Lúcia acompanhou essencialmente as vozes. Também conversei com seus pais, Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo, sobre o projeto, visando que validassem minha ideia. Perguntei se a junção das histórias com aquelas canções fazia sentido. Estava aberto a ouvir suas sugestões, caso não concordassem. O Fred entrou como um mágico: disse que queria aquelas canções e gostaria que fosse ele a adaptá-las, trabalhando todo o lado instrumental que o filme necessitava. Queria que ele trouxesse um toque pessoal, mais contemporâneo. Não era uma questão de modernizar as canções, pois tínhamos um acordo com os herdeiros e autores que obrigava a respeitar completamente a melodia. Ele trouxe uma transfiguração do tempo atual.
A escolha dos temas musicais foi complexa. Muitas vezes escrevo com base em ideias ou desejos. Neste caso, segui princípios: criar um roteiro que falasse das pessoas que não estão representadas, garantir que todos os atores fossem protagonistas e que a maior quantidade possível de cantautores fosse apresentada, cada um com uma canção. Foram princípios quase políticos que moldaram o filme, em um jogo de consciência política, de querer fazer algo que ainda não foi feito, de abordar coisas que raramente são ditas na ficção portuguesa por medo, incluindo canções que estão ausentes nessa narrativa.
O elenco do filme é extenso, com 50 personagens, uma coincidência feliz, pois celebramos os 50 anos do 25 de Abril. O processo foi complexo; nem sempre é evidente que deve ser um ator de teatro musical a interpretar os momentos musicais. Identifiquei duas pessoas essenciais: Lúcia Moniz, para um momento específico do filme, e Diogo Branco, que abre o filme e é neto de José Mário Branco. Realizei um casting e Lúcia estava presente para me ajudar. Queria que os momentos musicais fossem um equilíbrio entre o cantado e o vivido, com a voz sendo captada ao vivo durante as filmagens, sem dobragens em estúdio. Conseguimos que todas as canções do filme fossem cantadas em tempo real.
Decidi fazer o filme em preto e branco, reservando a cor para os momentos musicais. Acredito que a realidade portuguesa antes do 25 de Abril era muito monocromática. Queria transmitir essa ideia triste de um Portugal lidando com a vida sob o peso da ditadura e da realidade cotidiana. A cor, de certa forma, simboliza algo positivo e precisava estar mais próxima das canções. A música traz vida, esperança, nos conquista; é talvez a arte mais enigmática, pois podemos ouvi-la sem precisarmos vê-la, ao contrário de outras formas de arte. A cor irrompe quando as pessoas cantam, como um sol que as ilumina.
Existem muitas histórias a serem exploradas, mas creio que toco nos aspectos que devem ser abordados. A ficção, ao representar o passado, tende a simplificar os personagens; por exemplo, o mau é sempre mau. No que se refere ao Portugal silenciado, há uma narrativa simplista que pinta os pobres como sempre bons e os ricos como sempre maus. No filme, não misturo realidades, mas comportamentos, revelando a complexidade entre o bem e o mal, onde as personagens possuem dualidade. Ao escrever o roteiro, o que mais gostei foi desmontar essas personas, para que não se tornassem óbvias.
Parece irônico que, tantos anos após a ditadura e a revolução, voltemos a sentir que a liberdade está ameaçada. Como seres humanos, não evoluímos no mesmo ritmo da evolução tecnológica. Concordo que as pessoas rapidamente esquecem os acontecimentos. Em 2024, um milhão de portugueses elegeram 50 deputados do Chega, o que é irônico numa data que celebra os 50 anos do 25 de Abril. Nos últimos 200 anos, o desenvolvimento tecnológico avançou mais rápido do que o ser humano pode absorver. As redes sociais tornaram-se um enorme big brother, dando voz ao que antes estava na sombra. O cinema, a literatura, o teatro e as artes são cruciais para enfrentar esses fenômenos, mas ainda falamos muito sobre questões sociais e pouco sobre política. Há um receio em abordar o tema político, especialmente porque muitos são financiados pelo Estado. É crucial lembrar que o Estado não é apenas quem está no poder; somos todos nós e devemos essa coragem a todos para falar.








