Aquilino Ribeiro
O Romance de Camilo
Publicado originalmente em 1957 numa edição cuidadosa com ilustrações de Júlio Pomar, O Romance de Camilo representa o ponto culminante da conhecida obra literária de Aquilino Ribeiro (1885-1963). O autor insere-se na linha literária do seu predecessor do século XIX, com quem partilha, segundo José Cândido de Oliveira Martins, várias afinidades: “na atração por uma paisagem geográfica e humana enraizada num Portugal profundo; passando pela correspondente captação da idiossincrasia nacional; e terminando no uso de um riquíssimo português vernacular.” Neste livro, Aquilino delineia uma biografia que é, “assumidamente, uma construção interpretativa e romanceada” com o objetivo de “escavar no homem até encontrar o escritor.” A obra oscila entre a admiração e “certa refiguração desmistificadora”: “Eu escrevo-o com Camilo morto, de cuja vida me coloco em espetador imperturbável, embora admirando-o, assombrado da obra que nos legou.” É uma honra celebrá-la na reedição que assinala o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, caracterizado por Aquilino como “um homem cuja existência decorreu, por via de regra, fora da ordem comum. (…) A sua alma é um meteoro. (…) Tudo concebe e realiza a correr. (…) Vê o mundo passar a galope. Cada dia é um golfo.” LAE Bertrand Editora

Thomas Mann
O Cisne Negro
Prémio Nobel de Literatura em 1929, Thomas Mann (1875-1950) é frequentemente considerado o mais importante escritor alemão do século XX. Em suas novelas, ele se revela como um profundo analista de uma época à beira de uma crise cultural e expõe os principais problemas políticos e morais contemporâneos. A preocupação persistente do autor é a responsabilidade do artista em relação à sociedade. Mann evoluiu do conservadorismo para um humanismo social que é incompatível com o nazismo, sendo forçado ao exílio em 1933. Em 1944, ele se torna cidadão norte-americano. Após a morte de seu filho Klaus e de seu irmão Heinrich, e o início das perseguições macartistas nos EUA, que atingiram sua filha Erika, ele se estabelece definitivamente na Suíça. O Cisne Negro, sua última novela longa, retoma um tema central em sua obra: o desejo de reviver a infância como uma forma de escapar do tempo, do envelhecimento e da degradação, através da paixão e da estética. A história gira em torno de uma viúva que se apaixona por um americano de 24 anos (“a imagem da força juvenil”), que é a personificação de seu filho. Ela vê nele “um instrumento da natureza para operar o seu milagre sobre a minha alma” e acredita que a alma governa o corpo, fazendo dele “novamente brotar a fonte.” Contudo, é o cisne que se aproxima com seu “bico vermelho de sangue” e “o bater negro das suas asas.” LAE Relógio D’Água

Contos do Chá
No conto intitulado Chá, ambientado na Londres do final do século XIX, um jovem encontra dificuldades em procurar uma noiva, pois detesta “todo o sistema do chá da tarde” e os “milhares de mulheres (…) sentadas por trás de delicadas chávenas de porcelana e serviços de prata, com vozes tilintando agradavelmente numa cascata de perguntas solícitas.” Para além da proverbial ironia de Saki (pseudônimo de H.H. Munro), o tema do chá inspira a arte de outros 12 contistas, incluindo a habilidade de Katherine Mansfield em observar a intimidade feminina, o gosto pela literatura gótica e fantástica de Sheridan Le Fanu, ou a capacidade de Tchékhov em revelar a vida emocional das personagens. A seleção dos textos é de Alberto Manguel, que escreve no prefácio: “Há três bebidas que são, desde tempos imemoriais, imagens ou metáforas comuns de coisas essenciais em quase todas as nossas culturas. A água, um dos quatro elementos primordiais, é a imagem universal do tempo: o rio no qual, segundo Heraclito, nunca podemos entrar duas vezes. O vinho, da cor do mar de Homero e do sangue de Cristo, é uma representação da própria vida. E a terceira bebida especial é o chá, um líquido dourado que combina as qualidades das anteriores com propriedades de gentil regeneração secreta e de magia poderosa e inefável.” LAE Tinta-da-china

Jorge Ferreira de Vasconcelos
Comédia Ulysippo
As três comédias em prosa Eufrosina, Aulegrafia e Ulysippo constituem a parte mais significativa da obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos. Segundo Óscar Lopes e António José Saraiva, o autor logra captar nelas “a linguagem viva aos seus diversos níveis – desde a rua à corte – e, depurando-a e condimentando-a com a ajuda da erudição humanística, forjar um estilo literário novo simultaneamente moderno e castiço, popular e culto.” No dia 12 de fevereiro são lançadas as versões cênicas e estudos introdutórios de Silvina Pereira dessas três comédias. A atriz, encenadora e dramaturgista, fundadora e diretora artística do Teatro Maizum, escreve: “Nas comédias de Vasconcelos, Eros brinca com o mundo. Eros, esse deus poderoso que, ao sabor da sua fantasia, pode desferir golpes cruéis, na Eufrosina é puro amor, na Aulegrafia é discórdia e, por fim, na Ulysippo é comércio. Sob a égide de Mercúrio, deus do Comércio, das mercadorias etrafica, Lisboa e as suas gentes atuam no grande palco do mundo que é a cidade quinhentista, fervilhante de ação, de esplendor e de miséria.” O grande criador português apresenta uma magnífica galeria de figuras que “com mestria notável nos apresenta a vida como uma grande farsa, dando-nos uma visão de conjunto sobre a monumental comédia humana que é a vida dos portugueses no século XVI.” LAE Teatro Maizum
Annie Dillard
Peregrinação em Tinker Creek
“Que o mundo lá fora é duro e arriscado não constitui uma surpresa. Cada ser vivo é um sobrevivente numa espécie de vasto bivaque de campanha.” É, precisamente, sobre o “mundo lá fora” que este livro nos fala. Annie Dillard começou a escrevê-lo ainda jovem, aos 27 anos, com “sua eloquência exaltada e ousadia metafísica.” A autora buscou observar a natureza – na expressão de Emerson – com “um globo ocular transparente”: “É tudo uma questão de manter os olhos abertos. A natureza é como aqueles desenhos de uma árvore que são enigmas para as crianças.” O resultado é uma obra premiada com o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção em 1975 e frequentemente comparada a Walden, de Henry David Thoreau. Narra um ano de caminhadas solitárias de Annie Dillard às margens de um regato na Virgínia. Ao sabor das estações, descobrimos uma vida fervilhante e sublime, muitas vezes menosprezada: a natureza em todo o seu esplendor, complexidade e violência. Eudora Welty considerou-a uma “meditação extraordinária sobre nossa capacidade de observar.” Annie Dillard permanece fiel à convicção de que na natureza “a beleza e a graça acontecem mesmo que não as desejemos nem sintamos. O mínimo que podemos fazer é tentar estar presentes.” LAE Antígona

Héctor Abad Faciolince
A Nossa Hora
Como é a vida depois de um acaso que nos salva, mas condena à morte quem se senta ao nosso lado? A pergunta surge repetidamente na mente de Héctor Abad Faciolince, após ter sobrevivido ao ataque de um míssil russo a um restaurante onde se encontrava, que provocou a morte de 13 pessoas. Em 2019, o escritor recebeu uma carta da editora Anabell Sotelo Ramires, manifestando interesse em publicar Somos o Esquecimento que Seremos em ucraniano. Assim começou sua relação com o país que, entretanto, entrou em guerra. A obra acabou sendo eleita o melhor livro estrangeiro traduzido para ucraniano em 2021. Em 2023, Faciolince, Maryna Marchuk, sócia de Anabell, e Sergio Jaramillo, ex-comissário de paz e fundador do movimento “Aguenta, Ucrânia!”, partem para Kiev para participar da Feira do Livro do Arsenal. À sua espera estavam a repórter de guerra Catalina Gómez e a escritora Victoria Amélina, que se dedicou a documentar e denunciar os crimes de guerra. Enquanto Maryna decide restringir sua viagem apenas à capital ucraniana, os demais, guiados pelo mediador Dima, vão até a linha de frente, especificamente a Kramatorsk, onde ocorreram os piores eventos. A Nossa Hora é o relato dessa viagem e uma profunda reflexão sobre o poder do acaso e a transitoriedade da vida. SS Alfaguara
Charlotte Van den Broeck
Projetos Arriscados
“Quando vale a pena morrer por um fracasso? Quando é que um engano se torna maior do que a vida, tão descomunal que a vida se torna um fracasso? Onde fica a linha que separa o criador da sua obra?” Projetos Arriscados mistura ensaio, biografia e narrativa de viagens. Partindo do projeto da piscina municipal de Turnhout, pequena localidade belga de origem da autora, configura um itinerário fascinante pela história desconhecida de 13 obras de arquitetura e o trágico destino de seus criadores: criações falhadas, disfuncionais, incompreendidas, mal recebidas, fracassos arquitetônicos que se tornaram fatais para seus autores e os levaram a cometer suicídio. Construídos em épocas e lugares distintos, todos eles compartilham o drama pessoal que desempenharam na vida daqueles que os projetaram. A poeta belga Charlotte Van den Broeck, com este livro estreando na prosa, esclarece suas intenções: “Durante três anos, visitei estes ‘lugares malditos’. Meu objetivo era reabilitar estes arquitetos caídos, encontrar suas faces perdidas, contrariar a inutilidade do seu desespero, o caráter absoluto do seu suicídio. Em momentos de megalomania, cheguei a pensar que talvez conseguisse recuar no tempo e impedi-los.” LAE Elsinore

Carolina Fulcher
Morte Aparente
Nascido em 1998, prematuro, RN é um homem de comportamentos obsessivos, com o hábito sombrio de assistir a funerais alheios em streaming. “No início, lia os obituários no jornal enquanto saboreava sua meia de leite e anotava na agenda aqueles que lhe pareciam mais promissores.” “Lia cada palavra com atenção porque, invariavelmente, quanto mais enternecedora fosse a nota, mais fragmentos de gente estariam rodeando o caixão.” Enfrentando solidão e isolamento, com sonhos recorrentes, que pareciam epílogos do ritual fúnebre, ele busca ajuda de uma psicóloga, onde começa a se abrir e descobrir mais sobre si mesmo e sobre o impacto de ter nascido prematuramente e ter sido afastado da mãe nos primeiros dias de vida. Em certo momento, começa a notar a presença de uma figura misteriosa nos funerais que assiste e que também acredita não ter ligação com os mortos. Na segunda parte deste romance, dividido em Ele, Ela e Morte Aparente, conhecemos a mulher que, após ter sido abandonada pela mãe aos cinco anos, já adulta, se senta no último banco da capela para exorcizar seu caos interior e que acaba desempenhando um papel crucial na resolução das inquietações deste homem. Carolina Fulcher, nascida em Lisboa em 1989, filha de pais brasileiros, faz aqui sua estreia no romance. SS Penguin

Elisabete Gama
Augusto Vieira da Silva – O engenheiro Olisipógrafo
A historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, que assina o prefácio da presente edição, considera que Augusto Vieira da Silva (1869-1951), discípulo de Júlio de Castilho e indiscutível fundador da olisipografia, “guindou esse peculiar território da história de Lisboa a um desempenho científico, baseado em levantamentos arqueológicos, topográficos e iconográficos que, ao invés de encararem a cidade como um todo, promovem a analítica dos seus extratos e palimpsestos.” Esta investigação biográfica, seguindo uma orientação cronológica, considera múltiplas vertentes: “o homem, a genealogia, as relações de parentesco, a formação e o património, o engenheiro, o profissional militar e civil, mas sobretudo o olisipógrafo que ‘nasceu’ com o engenheiro, ambos em torno do mesmo objeto de estudo – Lisboa.” Grande estudioso da cidade, Augusto Vieira da Silva deixou uma vasta e variada obra escrita, rigorosa nas metodologias aplicadas e de natureza científica. Integrada na coleção Olisipógrafos – Os Cronistas de Lisboa, esta obra procura “dar a conhecer um pouco das dinâmicas de trabalho do Engenheiro Olisipógrafo no processo de construção do conhecimento da História e da Memória de Lisboa.” LAE Imprensa Nacional











