Um avião militar americano cai em um vale. Um agricultor local, Rúben Gomes, encontra o piloto ferido, Marco Mendonça, e, apesar de suas hesitações, o acolhe em um abrigo para gado. Sem saber como proceder, ele busca ajuda de um negociante, Simon Frankel, que exige que qualquer decisão sobre o forasteiro seja aprovada pelo conselho da região, liderado por um militar conhecido como o Capitão, Américo Silva.
Enquanto Sara, esposa de Rúben, e Eva, sua filha, tentam cuidar do piloto ferido – com Eva alimentando a ilusão do “sonho americano” –, os homens veem o piloto como a personificação do inimigo. Com a chegada do Capitão e de um jovem tradutor, Nuno Gonçalo Rodrigues, a situação do piloto, já crítica, se complica ainda mais.
O escocês David Greig é um autor frequente no repertório dos Artistas Unidos desde o sucesso de Cantigas de Uma Noite de Verão, em 2010. Ao longo dos anos, a companhia já apresentou Os acontecimentos, Frágil, Lua Amarela e Europa, mas a decisão de trazer O Piloto Americano para o palco foi acidental, como explica António Simão. “Nos últimos anos do quadriênio que termina em 2028, decidimos explorar a ficção científica, tanto no teatro quanto na literatura. Uma proposta era a adaptação de Solaris, de Stanisław Lem. Contudo, não conseguimos liberar os direitos autorais. Foi então que lembrei de um livrinho que tinha em casa, com a peça The American Pilot, de 2005. E não poderia ser mais atual”, conclui o encenador, referindo-se às recentes ações da política externa dos Estados Unidos.
Embora O Piloto Americano tenha estreado quase dois anos após a segunda invasão do Iraque, após a do Afeganistão, resultado da chamada “Guerra ao Terror” que se seguiu ao 11 de setembro, Greig não especifica geograficamente onde a ação ocorre, como se essa ambiguidade refletisse a possibilidade para a potência que, desde o fim da Guerra Fria, se autodenominou “polícia do mundo”. “Na verdade”, reconhece Simão, “pode acontecer em qualquer lugar, dos Balcãs ao Oriente Médio”. O que a peça revela é que o avião americano cai em um país em guerra civil, com o piloto sendo capturado por rebeldes que se opõem ao governo local apoiado pelos Estados Unidos.
A relação que cada personagem estabelece com o forasteiro é crucial para o desenrolar da trama. Para o bom agricultor e sua esposa, aquele ser humano que não compreendem deve ser tratado com dignidade; para o negociante, é preciso “amaciar” o piloto e, de preferência, descobrir uma forma de lucrar com ele – “uma postura bem americana”, observa Simão com humor. Há também Eva, que vê o piloto como a representação de um mundo completamente diferente do seu, um sonho de escapismo; o Capitão, um homem moldado pela guerra que não esquece que foram as bombas americanas que mataram sua família; e o tradutor, um jovem preso em um conflito interno complicado por ter vivido brevemente nos Estados Unidos, comprometido com uma visão marxista-leninista da ação política.
Por fim, o piloto americano, sempre em inglês, tenta sensibilizar aqueles ao seu redor, que não o entendem, sobre a “importância” de poupar sua vida. Embora debilitado pelos ferimentos, sua postura é arrogante em relação aos nativos, e não hesita em lembrar “meus caras estarão me procurando”, implicando que quem o maltratar acabará pagando com a própria vida. Para o papel, Simão escolheu Marco Mendonça, embora o texto descreva o piloto como um homem com pele da “cor da areia (…) e seus olhos tão azuis como o céu de onde caiu”. “Em vez do homem branco e loiro do Tennessee, provavelmente racista e fascista, o nosso piloto americano é um descendente de colonizados que agora é um colonizador”, conclui Simão.
Com a forma de uma “peça didática brechtiana”, O Piloto Americano revela-se “uma parábola irônica, e nada simplista”, sobre como o resto do mundo percebe a superpotência global. Na figura do aviador caído do céu, encontramos uma América odiada por sua arbitrariedade e poder, mas também uma América que alimenta o sonho de uma vida melhor.









