Todos os sábados, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Esta ideia surgiu de residências literárias realizadas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Apesar da distância que nos separa, a língua nos une, e decidimos construir pontes através de palavras. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título deste projeto a quatro mãos.
Afirma-se que existe um momento certo para tudo e talvez você conheça a melhor interpretação dessa expressão: enquanto você chegava, dois homens partiam para além do que nos ensinou a acreditar que existe. Você, a portuguesa que conhecia pela primeira vez aquele pedaço do Índico que raramente apareceu nas aulas de história, e eles, aqueles que encontravam o fim nos acasos trágicos da narrativa de um país que, entre a felicidade das coisas simples, se perde nas pequenas fricções. Eles, os falecidos da Joaquim Chissano, você, a portuguesa que se estabeleceu entre Julius Nyerere e a 24 de Julho.
Ainda a cidade não havia se revelado, as acácias não floriram naquele outubro de 2024 e você já tinha um endereço fixo. Faltaram os sorrisos e abraços típicos de boas-vindas, o que faria jus ao “maningue nice”. Com uma visão agora mais distante, éramos privilegiados em desfrutar de uma cidade tranquila, enquanto do outro lado se ouvia o hino da revolta. Duas Polanas, duas cidades: Polana Cimento e Polana Caniço. O silêncio exposto e a apoteose da angústia. Estou me apropriando dos títulos dos livros de Rui Nogar e Sangare Okapi. É assim que os livros me fascinam, desde que os descobri na adolescência.
Os livros foram o maior acaso da minha vida. Aqui estamos nós, trocando palavras quase todos os dias, como colegas de trabalho que depois se encontram em after works, na Rua de Bagamoyo ou na Rua do Alecrim. Então, lanchamos um Kebab ou badjias, repletas de especiarias do oriente. Não irei mencionar o frango à zambeziana, de que sei que você não se esquecerá, por motivos que deixo a seu critério contar.
No que diz respeito a chegar a esta cidade, você sabe que sou das madrugadas. Matola é realmente distante, mas Maputo sempre foi logo ali. E foi assim que, quando nos conhecemos, você já andava de havaianas e os pneus ardiam enquanto povoavam suas memórias.
Se eu lhe contasse que, quando criança, a festa de fim de ano era iluminada por um pneu em chamas e pelos estourar de fogos de artifício improvisados que custaram dedos de garotos que tanto quis que fossem meus amigos – eu era um nerd, não sabia fazer artesanato, nem queimar pneus na época natalina, tampouco subir mangueiras ou escalar paredes. Estranho, portanto, que a portuguesa que morava no lado formal da cidade, em um apartamento no Polana Shopping, vestida com calções e chinelos pipocas, com o calcanhar arrastando no chão, fosse mais aberta à contracultura e à transgressão. A entrada na Vila Algarve de que você menciona é um exemplo disso.
Num país onde se aprenderam os recolhimentos obrigatórios antes da pandemia, enraizados nos silêncios das memórias difíceis que tentamos deixar apodrecer, já se percebe por que foi preferido erguer um muro que isolasse o acesso ao anfiteatro dos horrores da PIDE. São muros que cercam, mas não podem esconder aquele esplendor arquitetônico que se recusa a desaparecer, unindo-se às árvores que prosperaram sobre os escombros de cimento.
Falando em recordações, compartilho a tristeza pela perda de companhias que partiram há muito. Veio você ressuscitá-los. Aqui já esteve Saramago, mas eu era criança. Eugénio Lisboa, Lídia Jorge, Glória de Sant’Anna e Zeca Afonso, todos passaram por aqui e eu, com certeza, não era parte de um plano, nem como filho, nem como cidadão de um país. Porque aqui, os filhos não são planejados; eles simplesmente aparecem. Sou o décimo segundo filho e não conheci a juventude dos meus pais. Antes, era o silêncio de um velho que sempre trazia jornais para casa e impunha leitura obrigatória das notícias, resolvendo quebra-cabeças, completando palavras soltas e respondendo adivinhas. A hora do telejornal era o pior momento da vida – eu mal podia imaginar que um dia teria que andar com uma catana pelas ruas em busca de 1.500 reclusos que fugiram da prisão de máxima segurança.
O telejornal, como disse, se tornava uma prova oral; eu tinha que memorizar tudo que acontecia, nomes, cargos, declarações. Confesso que a narração dos jornalistas era tão absurda que me deixava tonto. Aquela língua portuguesa não era a que eu falava, nem a que as pessoas do bairro usavam no dia a dia. Era repleta de palavras enroladas em um dicionário que não chegava às nossas escolas, tampouco às estantes de nossas casas. Por fim, minha trajetória se limitou à leitura. O jornal foi o meu primeiro livro.
O que mais aprecio nestas diversas variantes da língua portuguesa é a beleza de frases como vejo-te a língua à solta e de repente és um soneto à Afrodite Anadiómena, numa poética que provoca uma emoção palpável. E com a mesma beleza, chamamos my love as vans que transportam pessoas ou dizemos em épocas festivas, estou a pedir boas festas. Assim, quando eu for a Lisboa e você não estiver, enviarei uma mensagem dizendo: fui à sua casa e a encontrei enquanto não estava.

Ana Bárbara Pedrosa
Mudou-se para Lisboa em 2012 para estudar Literatura. Desde então, saiu apenas para o Brasil, onde, como boa portuguesa, sentiu saudades dia e noite. De regresso, escreveu Lisboa, chão sagrado, fazendo da cidade uma diva que engoliu suas personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, aventurou-se pelo Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo local, imergiu em Vizela e redigiu Amor estragado. Para quem está aqui, tem sotaque minhoto; para os de lá, parece engravatada.

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