Todos os dias, após as aulas, entre as 16h e as 20h, pequenos grupos de jovens sobem as escadas que conduzem ao primeiro andar da Biblioteca de Marvila em busca dos computadores, a principal atração do espaço-jovem.
Os jovens frequentam a biblioteca para se divertirem jogando nos computadores, algo que não podem fazer em casa, como faziam na época do Friv. Atualmente, os jogos mudaram e agora se divertem com Minecraft, League of Legends e outros que podem ser acessados através das teclas wasd do computador.
“Se eles não estiverem cá, isto não vale a pena estar aberto”, resume Luís Pereira, 28 anos, mediador na Biblioteca de Marvila desde junho de 2024.
A missão de Luís é acompanhar de perto as crianças e jovens que passam o seu tempo livre na biblioteca, carinhosamente referidos por ele como “miúdos”.
Luís já é uma figura familiar na comunidade, pois anteriormente trabalhou como facilitador no 4Crescente, um grupo comunitário que se tem desenvolvido na área de Marvila, o que lhe abriu portas para se unir à equipe da biblioteca. Com sua experiência nas ruas, Luís encontrou facilidade em seu trabalho, sabendo que não há muitas pessoas qualificadas nessa área. Ele menciona que já conheceu mediadores que desistiram por não serem da região e por não estarem familiarizados com a realidade dos bairros.
A coordenadora da biblioteca, Sofia Resende, sempre teve como prioridade a criação de um espaço dedicado aos jovens. “O Luís é uma pessoa do bairro e em todas as reuniões comunitárias ele enfatizava a importância de dinamizar atividades para os jovens, então o desafiei. É um grande desafio, pois a maioria dos jovens que frequentam a biblioteca são da comunidade cigana, que possui uma cultura muito particular”, explica Sofia.
O desejo de manter um espaço para os “miúdos” do bairro não é tarefa fácil. A dinamização das atividades tem sido desafiadora, mas Luís sente que seu trabalho tem dado resultados e a coordenadora concorda, diferenciando o período “antes e depois do Luís”.
Luís acredita que os bons resultados vêm da confiança que estabeleceu entre os jovens e o espaço, desde que se tornou mediador. “Sinto-me bem quando vejo que os miúdos estão se comportando bem”, afirma.
Convocando os miúdos para mudar o futuro
A maioria dos jovens envolvidos na iniciativa é composta por rapazes de 13 a 18 anos, residentes nas proximidades da biblioteca. Há também um grupo menor de crianças mais novas, entre 9 e 12 anos, que também recebem atenção do mediador.
Compreendendo que uma biblioteca não se resume a livros, Luís tem promovido diversas atividades com foco nos interesses dos jovens, como sessões de cinema e a utilização de jogos como ferramentas lúdicas e educativas, em colaboração com associações como a Associação Elemento.
Um dos projetos de 2025 culminou em uma apresentação no auditório da biblioteca, onde os jovens puderam criar sua “Biblioteca de Marvila dos sonhos” usando Minecraft, um jogo amplamente utilizado em contextos educativos.
Essas iniciativas têm ajudado a aproximar a biblioteca dos “miúdos”, proporcionando oportunidades para que os jovens participem na tomada de decisões sobre o espaço, como no Orçamento Participativo, demonstrando que a biblioteca também lhes pertence. Entre as propostas apresentadas estavam pedidos por “consolas e mais computadores” e até ideias mais ousadas, como a construção de uma piscina.
“É para a Câmara perceber que a biblioteca é deles, também, dos jovens do bairro. Não vamos abrir uma biblioteca e depois esquecê-la. O Estado ignora os bairros, ignora a biblioteca, assim como aconteceu com outras bibliotecas em bairros sociais, onde a população local não se sente bem-vinda”, explica Luís.
Olhar para o futuro envolve não apenas a infraestrutura da biblioteca, mas também o progresso dos jovens. Luís está atento a isso, como frisa Sofia: “Ele é uma boa influência, sempre incentivando, dizendo, tu tens de estudar, tens de completar pelo menos até ao 12º ano, precisas de ajuda para fazer o currículo? Eu te ajudo”.
Superar as barreiras invisíveis
Embora o trabalho de Luís tenha contribuído para quebrar algumas barreiras entre os jovens e a biblioteca, outras barreiras permanecem. A principal, que pode ser desconhecida para quem não é da área, é uma antiga resistência entre comunidades.
“As barreiras invisíveis são fronteiras que não se veem, mas sempre estiveram presentes. Há 30 anos, o meu bairro, os Nameques, não se misturava com o Marquês de Abrantes. Hoje é um pouco mais fácil, mas ainda existe resistência”, reflete Luís.
Mesmo que essa realidade não seja expressa abertamente, Luís acredita que essa mentalidade ainda predomina, dificultando o acesso à biblioteca por moradores de outros bairros. Essa é uma dificuldade identificada por Sofia, e é um problema profundo que remonta à construção inadequada dos bairros sociais na década de 1990, marcado por políticas públicas falhas.
De acordo com Luís, o modelo de reunir moradores de bairros distintos em um único local já falhou em outros países. No entanto, a expectativa de que funcionaria em Portugal foi uma crença mantida por muitos.
Para Luís, a solução envolve referências na comunidade que incentivem o diálogo com os jovens, buscando derrubar as barreiras invisíveis. Nesse contexto, a música desempenha um papel significativo, abordando questões sociais locais sem promover gêneros como o drill, que glamoriza a violência.
“As músicas muitas vezes tratam de drogas e violência. O drill acaba alimentando rivalidades desnecessárias. Temos que mostrar aos jovens que não é necessário replicar a vida do outro”, destaca.
Luís entende que cabe a quem trabalha com os jovens na comunidade mudar essa narrativa. “Essa é uma missão nossa, minha, da Sofia, do Varela e da associação AfriCandé, que tenta reduzir as distâncias entre os bairros”, completa.
O futuro é uma preocupação constante para Luís, que sabe que a mudança depende de ações governamentais. “Acredito que meu trabalho é importante agora, mas daqui a 20 anos, se não houver suporte familiar ou uma verdadeira reestruturação social, ainda haverá jovens vivendo em situações precárias, e essa realidade me preocupa.”









