O aumento acelerado dos preços poderá voltar a acontecer, mas um analista argumenta que o atual cenário macroeconómico pode oferecer vantagens similares ao fim da década de 90, quando ocorreu a bolha das dot-com.
Portugal e o mundo recém se afastaram da elevada inflação, mas já surgem sinais de alerta para seu possível retorno. “Acreditamos que o principal risco macroeconómico atualmente não refletido nos preços de mercado é a possibilidade de a inflação retornar a níveis estruturalmente mais altos do que os atuais”, afirma Giordano Lombardo, CEO da Plenisfer Investments SGR, integrante da Generali Investments.
“Esse fenômeno pode ser impulsionado pelo aumento do protecionismo e da desglobalização; pelo envelhecimento da população e suas repercussões nos mercados de trabalho; e pela pressão política para redistribuir a parte do rendimento nacional destinada ao trabalho, após décadas de declínio”, analisa o especialista.
De acordo com Lombardo, as “poderosas políticas de estímulo monetário e orçamental adotadas após a pandemia, as tensões nos mercados de commodities geradas pela guerra na Ucrânia e, mais recentemente, as políticas de Trump” criaram um “novo ambiente macroeconómico”, que difere profundamente do que prevaleceu nas últimas três décadas. Essa combinação de fatores “provavelmente encerrou o regime de baixa inflação, baixas taxas de juro e crescimento global liderado pelos Estados Unidos”, embora o analista reconheça que “avanços na produtividade impulsionados pela revolução da Inteligência Artificial” possam ter um “efeito deflacionista”.
O CEO acredita que as políticas monetárias e fiscais “expansionistas” devam continuar até 2025 nos Estados Unidos, Europa e Ásia; observa que “os riscos de conflitos armados resultantes do exercício unilateral de poder por grandes potências ainda são elevados”; e destaca que “a desvalorização do dólar norte-americano em relação aos metais preciosos e principais moedas continua, como consequência das políticas orçamentais e comerciais dos Estados Unidos”.
O quadro para os investidores não é otimista, já que “as valorizações de ações e os spreads de crédito estão muito ‘apertados’”, os rendimentos das obrigações soberanas “permanecem em risco devido a débitos orçamentais elevados, especialmente nos Estados Unidos, além de outros países como França e Reino Unido”, e “existem riscos persistentes no capital privado e no crédito privado, com possíveis repercussões para os mercados de títulos”.
“Em um ambiente com maior intensidade de capital, níveis recordes de endividamento e retornos esperados mais baixos, um erro de alocação, excesso de alavancagem ou uma adesão passiva a tendências predominantes podem levar a consequências negativas a longo prazo”, alerta.
Entretanto, Lombardo está convencido de que “o conjunto de oportunidades atuais é muito mais semelhante ao de 1999 [a bolha da Internet no final dos anos 90] do que ao de 2008” [a crise financeira global].
“É possível encontrar oportunidades atrativas em mercados emergentes, tanto em ações quanto em obrigações, em ações internacionais de pequena capitalização e também em ações de grande capitalização fora dos Estados Unidos”, embora as valorizações nos mercados de crédito sejam “muito menos favoráveis”.
“Isso não quer dizer que o ambiente tecnológico fundamental seja comparável ao do final dos anos 1990”, ressalta. “Existem semelhanças, mas também diferenças significativas. Contudo, acreditamos que o conjunto de oportunidades é muito semelhante em ambos os casos e que a construção de portfólios pode se beneficiar de uma ampla diversificação entre ativos internacionais, mantendo um nível global de risco que não seja excessivamente baixo”.









