Avenida 211: quando criadores ocuparam uma construção do BES na Avenida da Liberdade

Avenida 211: quando criadores ocuparam uma construção do BES na Avenida da Liberdade

Durante quase uma década, um local inusitado, um dos edifícios mais icônicos no coração de Lisboa, anteriormente sob a posse de um banco, tornou-se o lar de artistas e um ponto de encontro para a arte contemporânea. No 211 da Avenida da Liberdade, quatro andares de propriedade do Banco Espírito Santo transformaram-se, entre 2006 e 2014, em um espaço dedicado à criação e colaboração artística, batizado de Avenida 211.

Essa não foi uma ocupação ilegal nem um projeto institucional, mas sim um entendimento fundamentado na confiança: António Bolota, engenheiro civil e artista, solicitou acesso a um espaço que possibilitasse seu trabalho e exposições; assim, um associado de sua confiança, que trabalhava no setor de obras do banco, entregou-lhe a chave do edifício antigo (hoje ocupado por residências e comércio de luxo). O espaço tinha água, luz e autonomia. “E eu assumi a responsabilidade”, relata Bolota.

O que ocorreu a seguir é algo que dificilmente poderia se repetir nos dias de hoje.

Ali, chegaram a estar 60 artistas de diferentes gerações, desenvolvendo ateliês, realizando exposições e até concertos, quebrando o isolamento que costuma ser característica da prática artística. Não havia um manifesto ou um programa rigoroso, apenas 11 regras a serem seguidas por todos:

Para António Bolota, essa experiência transformou sua prática artística. “Tive um ótimo atelier e conheci pessoas com quem pude dialogar sobre arte, filosofia e o mundo.” O espaço oferecia, além disso, algo cada vez mais raro em Lisboa: condições de trabalho no centro da cidade. “Estar ali é diferente de ter um atelier em Moscavide ou no Prior Velho.”

A história da Avenida 211 está entrelaçada com um período de intensa instabilidade econômica e política em Portugal. Sobreviveu à crise financeira desse tempo e chegou ao fim em 2014, quando a cidade – e a Avenida da Liberdade em particular – começou a se transformar rapidamente. O encerramento do projeto coincidiu com um novo ciclo urbano: lojas de luxo e turismo tomaram conta da avenida, dificultando cada vez mais a manutenção de espaços acessíveis para a criação artística no centro.

Como resultado, hoje “os artistas são mais individualistas”, afirma António Bolota.

Recuperar a memória: e depois do Avenida 211?

Essa parte da história de Lisboa está quase esquecida, com poucos se lembrando. Atualmente, ela é revisitada em uma exposição no MAC/CCB, em Belém, até 5 de abril, com a curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, a partir de uma ideia inicial de António Bolota e da Fundação Carmona e Costa. Mais do que recriar cronologicamente os eventos, a exposição se baseou em um “arquivo vivo”: fragmentos, obras, documentos e memórias dispersas.

Para Marta Mestre e Nuria Enguita, revisitar a Avenida 211 é uma forma de refletir criticamente sobre a cidade e o espaço da criação artística. “Esta exposição nos leva a pensar sobre qual é o lugar dos artistas nas cidades que habitamos”, diz Marta.

Num contexto urbano profundamente transformado, refletir sobre essa experiência é questionar “essa linha do tempo em que tudo se modificou tão rapidamente” e compreender o que se perdeu.

O projeto contou com a colaboração de documentaristas, designers e arquitetos, quase como um retorno ao espírito colaborativo da antiga Avenida 211.

Na entrada da exposição, já se anuncia o que é o edifício, junto à iminência do seu fim. Ao fundo, um vídeo realizado por Francisca Manuel, uma artista que fez parte do Avenida 211 em seu período final, em 2016, apresentando vistas de 60 graus dos vários andares desse espaço que abrangia cinco níveis e 900 metros quadrados.

Entre as regras que os artistas deveriam seguir estava “não fazer lume”, o que levou à inclusão de uma forja na exposição, no pátio. Tudo aqui remete àquela era, assim como a música que relembra os concertos organizados pelo coletivo Filho Único na Avenida 211. “O Nelson e o Pedro ajudaram a estabelecer um circuito de música independente essencial para a cidade nesse período”, menciona António Bolota.

“Foi o material que nos deu as ideias para a exposição”, diz Nuria. Dessa forma, navegamos pela exposição em “cinco maneiras de olhar para o edifício”.

Quando a Avenida 211 chegou ao fim, Lisboa já era outra. Pode ser por isso que sua história continua a ecoar. Em uma época em que os espaços centrais da cidade se tornam cada vez mais inacessíveis, aquele edifício na Avenida da Liberdade permanece como lembrança de uma possibilidade: a de uma cidade onde a arte teve, por um breve momento, espaço para se manifestar no centro.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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