Todos os dias, quando assistimos televisão, vídeos no YouTube ou navegamos nas redes sociais, não estamos apenas em busca de entretenimento ou informação: absorvemos, muitas vezes sem perceber, ideias sobre o que é considerado normal ou aceitável.
Essa exposição constante não é neutra. Ela influencia a maneira como pensamos e interpretamos o mundo. Sem que tenhamos consciência, somos impactados por um poder sutil que não age pela força, mas pela repetição e persuasão. Um poder que transforma certas ideias em “bom senso”, apresentando-as como as únicas, naturais e indiscutíveis.
Os algoritmos das redes sociais desempenham um papel fundamental nesse processo. Ao exibirem repetidamente as mesmas visões de mundo, eles diminuem o espaço para a dúvida e excluem tudo que não se encaixa nessa narrativa.
Quando uma mensagem é continuamente repetida, ela deixa de ser questionada e se torna aparente. E quando uma perspectiva se torna inquestionável, o senso crítico se enfraquece. O consenso deixa de ser fruto da reflexão e passa a ser um produto da repetição. O problema é que esse “bom senso” fabricado raramente é inocente, pois tende a atender a interesses concretos, beneficiando alguns em detrimento de muitos.
As redes sociais tornaram-se, assim, um terreno propício para a propaganda. Vídeos curtos, afirmações contundentes e discursos polarizadores visam provocar reações emocionais imediatas e gerar indignação instantânea. Líderes políticos ou influenciadores digitais, ao capturarem a atenção no TikTok ou Instagram, primeiro moldam o que é debatido e, em seguida, o que é pensado.
É neste contexto que certos assuntos recebem uma relevância exagerada, apenas porque foram reiterados até a exaustão. Também é aqui que divergências de opinião se transformam em confrontos morais: os bons contra os maus, os certos contra os errados, “nós” contra “os outros”. O resultado é uma sociedade mais fragmentada, instituições desacreditadas e um vácuo perigoso, pronto para ser preenchido por líderes oportunistas que oferecem bodes expiatórios e soluções simplistas para problemas complexos.
Neste cenário, a democracia se torna mais vulnerável. Portanto, talvez seja urgente resgatar o hábito essencial de questionar aquilo que vemos e lemos e, principalmente, investigar quem se beneficia e quem é prejudicado pela mensagem que nos é repetidamente apresentada.
Aceitar ideias sem um olhar crítico é abrir mão do pensamento. E a falta de pensamento pode ser, hoje, mais prejudicial à democracia do que a abstenção de votar.









