Protestos contra o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia voltam a tomar conta de algumas ruas de Paris com tratores e maquinário agrícola, como tem ocorrido nos últimos 25 anos.
Agricultores franceses iniciaram mais um bloqueio nas estradas que levam a Paris antes do amanhecer, em protesto contra um amplo acordo comercial que a União Europeia espera assinar em breve com os países sul-americanos do Mercosul.
O sindicato Coordination Rurale convocou a manifestação, preocupado que o acordo de livre comércio traga uma onda de importações baratas de alimentos para a União Europeia. Além disso, os agricultores demonstram também indignação em relação ao tratamento que o governo tem dado às doenças do gado.
Os agricultores conseguiram ultrapassar os postos de controle policiais e entraram na cidade, dirigindo-se aos Campos Elíseos e bloqueando a estrada em volta do Arco do Triunfo antes do amanhecer de quinta-feira, enquanto a polícia os cercava. De acordo com o ministro dos Transportes, citado pela imprensa francesa, dezenas de tratores bloquearam rodovias que levam à capital, gerando engarrafamentos de 150 km.
Mais tarde, agricultores de outros sindicatos, incluindo os jovens agricultores, juntaram-se à manifestação na Torre Eiffel, que, por enquanto, permanece pacífica — o que nem sempre ocorre durante as reivindicações do setor na capital francesa.
O protesto intensifica a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron e seu governo, um dia antes da votação dos Estados-membros da União sobre o acordo comercial. Embora Paris tenha conseguido importantes concessões de última hora — assim como a Itália, que também é relutante em relação ao acordo — essa questão representa um ponto crítico para o governo, que, como seus antecessores, enfrenta dificuldades em implementar sua agenda. A temática pode facilmente ser utilizada como arma política no Parlamento, aumentando a pressão sobre um assunto sensível no país.
Além dos protestos contrários ao acordo, os agricultores franceses também expressam preocupação com a diminuição do financiamento comunitário para o setor primário, reavivando antigos temores de que a Política Agrícola Comum (PAC) é um tema que o bloco tem empurrado para segundo plano.
A ministra francesa da Agricultura, Annie Genevard, declarou na quarta-feira que, mesmo se os membros da União apoiarem o acordo, a França continuará a lutar contra ele no Parlamento Europeu, onde sua aprovação será necessária para a implementação. Resta saber se a França conseguirá formar uma coalizão forte o suficiente para bloquear a assinatura — algo que depende também da posição da Itália.
Esta semana, a Comissão Europeia propôs disponibilizar 45 bilhões de euros em financiamento para os agricultores no próximo orçamento do bloco e concordou em reduzir as tarifas sobre algumas importações de fertilizantes, tentando conquistar o apoio de países hesitantes em relação ao Mercosul.
O acordo conta com a aprovação de países como Alemanha e Espanha, e a Comissão parece estar mais próxima de garantir o apoio da Itália. Portugal é um dos países que já está a favor do acordo. O ministro da Agricultura disse na quarta-feira, citado pela Lusa, que as condições estão favoráveis para a aprovação do acordo comercial, considerando-o positivo para todos os Estados-membros e “uma oportunidade” para países como Portugal. “Acredito que, neste momento, as condições estão estabelecidas para a aprovação do acordo Mercosul”, afirmou José Manuel Fernandes após uma reunião dos ministros da Agricultura europeus.
“É extremamente importante e representa uma oportunidade para países como Portugal. Temos um déficit com o Mercosul de cerca de 500 milhões de euros anuais e poderemos aumentar nossas exportações de vinho, azeite e queijos”, destacou. José Manuel Fernandes acrescentou que, no âmbito deste acordo, Portugal teria também “36 denominações de origem protegida”, o que considera benéfico tanto para o país quanto para a União Europeia.









