Um conjunto ideal

Um conjunto ideal

Contemplo o verde vibrante das camisolas das crianças que, como formigas, se movem sob o céu onde habito, em uma realidade embrulhada em encanto cinematográfico. Sobrevoo este quadro urbano sem moldura. Qual? Ao longe, uma imagem de drone revela a felicidade do plano médio na Alameda. A melancolia eleva as palavras do chão encharcado. No relvado, recordo o conselho da diretora deste jornal, de cabelo tingido na cor que as mulheres costumam evitar, durante a apresentação em pleno São Luiz: Esquecemo-nos de ocupar os espaços da nossa cidade. Aqui estamos, no centro da Alameda, essa faixa imaginária que desdobra freguesias em três, fazendo do conservadorismo lusotropical trencadís. Um espaço destinado a feiras, dinastias, antigos comícios, réveillons e momentos históricos, essencial para os nossos símbolos. O maior espaço de improvisação no coração de Lisboa. Trotinetes insistem em subidas impossíveis, papagaios recortam o céu de Lisboa, cães passeiam seus donos, bobies beijam lolitas, nabokovs buscam o primeiro beijo, sombras esperam nas estações de metro, outros andam, correm imitando os autocarros na eterna luta contra o tempo. O vento das artérias urbanas sopra, encontram-se e pulsam, desobedecem, polvilham, saltam e jogam o que vier. Na rede é futebol, chinquilho, criquete, corridas ou conversas com o amigo imaginário. Alameda é um verbo que significa encher de companhias: esplanadar ou abancar publicamente. Faz frio lá fora, e peço emprestado outro verbo ao Ferreira Fernandes, que o usou para caracterizar Matos Sequeira, autor do livro Nossa Lisboa, e assim começo esta crónica a olisipografar esta boa gigante dividida pela Almirante Reis.

Abraçamos os restos do verão de São Martinho, e a bola ignara dribla os carros da Avenida que poderiam estourá-la em um instante. Estamos no estádio público da Alameda, sem arquibancadas, linhas ou balizas profissionais. E como gosta de gritar meu filho, que não é Dom nem Henriques, Liberdaaaade! Para Afonso, as regras deste jogo, assim como as da vida, são despreocupadamente inocentes. O golo é um conceito de atacante. Neste momento, entram em campo as duas equipes: eu e Afonso, Ashraf e Kiryll. Os uniformes são civis, e o interior nos divide. Pai e filho contra amigos de várias partes do mundo. Talvez se ouçam ao longe os ecos do hino da Champions ou será o sotaque do pastor brasileiro gritando preces evangélicas? O jogo começa em uma inclinação, pela maior experiência do jogador trintão e pelas leis inescapáveis da física. Olho para Afonso e vejo a (bela) incapacidade de sequer sonhar em jogar como o argentino que ostenta nas costas e que insisto em ensinar-lhe a pronunciar em quatro sílabas. MA-RA-DO. Na melancolia deste momento, misturo uma colherada de inveja. Da pureza infantil. Insuficiente. Inocente. Dessa corrida livre, uma doce memória me invade: lembro-me do equipamento de outro argentino, companheiro de ataque de D10S, que pouco jogou no Benfica, e começo a me elevar, apesar dos tornozelos molhados pela relva da Alameda.

A vida nos ensina como a bola pode saltar até unir cores, continentes e culturas aparentemente distantes. A bola que rola neste mundo cego ainda é a poesia onde o homem se torna criança ao vê-la saltar. Encontra pontes, esquece negócios, compromissos, idade, pressa, tempo, espaço, dores nas costas ou cansaço da noite mal dormida, e apenas pensa em fazer um passe longo como o Pirlo. Neste jogo da Alameda, não há lucro ou metas. Apenas golo e alegria, corrida e gritos. Não há salário por minuto, marionetas geopolíticas ou espetáculo performativo (ou há?). Este jogo é o espaço ideal para ganharmos asas e revelarmos utopias concretas ao alcance de um cabeceamento de noventa centímetros de altura.

Outro futebol passa na TV de casa: o mundo segue ao contrário (ou estarei desconectado da realidade? Mas o que é a realidade?). Surto e regresso à Alameda,

— Achei que eras o pai do Ashraf.

— Achaste errado, garoto. Cala-te e joga, vai, olha que o Afonso vai te fazer um golo.

— Golo?

O estrangeiro me recorda que sou um estrangeiro na minha cidade. O estrangeiro me explica a preguiça infantil dos outros adultos (cada vez mais?) que não me permitem ser além da minha pele, da cor do meu cabelo. Mas falo e logo deixo de ser o estrangeiro que sempre fui, que sempre senti ser, tentando explicar ao estrangeiro, que cada vez se torna menos estrangeiro, que afinal não somos estranhos. Lisboa é nossa. Grito por outro tempo. Despojo a vergonha quando reflito sobre a História. Deveria lembrar-me mais da História. Perdão pela digressão, mas como Camilo, não sei evitar este vício da divagação.

O futebol pode ser a máquina simples e necessária para nos desconectar e conectar, como os dois pés do sarrafeiro da Alameda, Kiryll, que deslizam como um carrinho até se encontrarem com as canelas suaves do meu filho. Substituo o palavrão por: Ei!

Quando Galeano afirmava,

O futebol é a arte universal, estava nos ensinando sobre a concretude da vida. Trocar o cansaço pela pureza inicial dissolvida no sorriso de Afonso e nos abraços de Ashraf ao Kyril, é perceber que esta cidade é feita de paixão. Lisboa pode cumprir-se, basta estar atento.

Lembro da pastelaria do Saldanha, agora com tijolos a bloquear a entrada dos sem-casa (tic, tac, quem será o próximo Jorge Costa, neste jogo de Quem quer ser sem-abrigo, onde a classe média também reside), mais um imóvel devoluto, e sinto-me jogando em pleno Maracanã, não diante de cem mil almas a nos observar, mas cada corrida sendo acompanhada por esta multidão em trânsito. Não há cântico, bandeira ou assobio que nos ampare. Não há torcida, treinador de bancada ou apoteose que nos impeça de celebrar. Nunca pare. Há apenas um senhor que mantém seu olhar fixo em nós. E um nó cego não é suficiente para enganar seu olhar duplo. Este senhor, igual ao que habita minha memória no Saldanha, veste a mesma gabardine e tem o mesmo cabelo pintado na cor que as mulheres evitam, e não para de acenar. Adeus.

Sem balizas, sem linhas, sem público, o resultado é claro: vencemos o tempo em que não há tempo e continuamos a construir cidade. Ocupem os espaços da nossa cidade!

(Não confundam, não estou assumindo o papel de deus da ficção. O discurso evangélico do homem brasileiro que grita amplificado por uma coluna gigante realmente estava presente, essas personagens jogaram verdadeiramente à bola, o olhar desmaiado das janelas burguesas estava realmente lá, a chuva que molhou nossos calcanhares de pele branca-escura antes de entrarmos em casa foi real).

Antes de marcar o último golo que soube a final do Mundial, ouço a frase cinematográfica, Come on man, the kids are listening to you. Mas que filme é este? Lisboa? Nossa Lisboa? Claro que as crianças continuam a ser nossos melhores professores, servindo para lembrar esses espíritos endurecidos que não são necessários euros, nem planos ou outros símbolos para sermos felizes. Apenas, Papá vamos jogar? Diante das luzes, do vai e vem de carros e dos pedestres ao nosso redor, entre os cheiros estrangeiros da esplanada, o olhar estrangeiro das pessoas sentadas nos bancos de madeira e da bola mal tratada pelos miúdos, sinto-me o centro do mundo. Apenas, Papá vamos jogar?

Somos seres invisíveis e nosso jogo é contra o bárbaro que habita em nós. É grátis, fácil e tão difícil de alcançar. Nosso jogo é a derrota do tempo negro e a busca do espaço ideal, tal como o Jardel entre os centrais. O futebol no centro da cidade. Alameda será a melhor resposta ao sofá, ao ecrã, à moeda que nos separa, à inevitável história do golo antológico no último minuto. Eterna esperança do ser. Nesta era em que as linhas seguem titubeantes, responderemos com um cruzamento afirmativo para os artilheiros do futuro. Com pequenos jogos, pequenos gestos, insistimos. E a Alameda permanece por lá, impávida e morena, aguardando nosso próximo jogo de uma equipe dos sonhos.

O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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