Viver da música sempre foi o sonho de Lucas Pina, que deixou São Tomé e se mudou para Lisboa. Após enfrentar dificuldades, trabalhou em várias obras antes de participar no Got Talent Portugal e conquistar recentemente o terceiro lugar no The Voice Portugal. Contudo, foi no Largo do Chiado que realmente se tornou um artista reconhecido. Fez sucesso nas redes sociais, atraindo a atenção de figuras como Michael Jordan e o artista latino Jota.Pê, que pararam para ouvi-lo tocar junto à Brasileira do Chiado.
Um cumprimento ao artista que lhe libera o spot, a guitarra ao peito e um sound check relâmpago. Assim começa mais uma atuação de Lucas Pina, no local habitual. A cada melodia, sua voz conquista a atenção dos transeuntes, que se juntam ao ritmo, dançando e aplaudindo em sintonia. O Largo do Chiado transforma-se numa vibrante sala de espetáculo, repleta de elogios e boa energia, em frente à Brasileira do Chiado.
Lucas sempre busca engajar seu público, atento às diversas línguas que escuta ao redor. “Se escuto alguém falando francês, lanço um Papaoutai ou um Slimane com um discurso en français“, explica, rindo. “Se ouço italiano, rola um Bela Ciao. E para os portugueses? O Rui Veloso e os Calema estão sempre presentes, assim como o Dino d’Santiago.”
Musica é parte intrínseca da sua identidade. Desde a escola, Lucas foi desafiado por amigos a cantar. “Nunca quis ser cantor, só dançava e fazia teatro. Um dia, meus amigos me convidaram para atuar em um concerto, e ganhei 100 dobras. Naquele dia, mesmo sem jantar, percebi que a música poderia me ajudar a levar comida para casa,” relembra.
Após tocar em bares e hotéis, em 2015 Lucas teve a oportunidade de fazer seu primeiro grande show durante um comício político a favor do futuro primeiro-ministro Patrice Trovoada. “Foi a minha primeira grande atuação. Eu sempre quis estar nesse lugar, e foi incrível,” recorda, cheio de orgulho.
Nesse evento, Lucas conheceu os artistas que o inspirariam: os Calema. “Eles autografaram uma camiseta, que nunca lavei,” conta Lucas Pina.
“Em São Tomé, muitos não acreditam que é possível viver apenas da música. Poucos são os cantores que exercem isso como ofício. Quando disse à minha mãe que queria me formar em música, ela perguntou: isso existe?”
Lisboa tornou-se seu destino ideal para estudar e tocar música. “Os turistas sempre me incentivavam. Falaram-me das ruas de Lisboa, do Chiado e do Rossio.
Em 2020, Lucas chegou a Portugal durante a pandemia, com a intenção de estudar música no Politécnico de Bragança, contando com um apoio financeiro que deveria vir de uma instituição em São Tomé, mas que nunca se concretizou.
Quando percebeu que não conseguiria custear suas propinas, teve que desistir do curso e buscar uma nova forma de sustento. “Cheguei a passar fome para ter algo para enviar ao meu filho. Ele sempre foi o motivo a mais para eu não desistir,” conta. A única opção que lhe restou foi trabalhar na construção civil, onde permaneceu por três anos.
“Era extremamente cansativo e o retorno era baixo. Eu queria gravar vídeos, criar música para tocar em grandes palcos… mas os 700 euros por mês não eram suficientes.”
Foi quando Lucas encontrou outro palco: as ruas de Lisboa. Começou a tocar de forma intermitente, durante três longos anos, enquanto observava as dinâmicas da cidade, mapeando as áreas mais favoráveis para sua atuação.
Ele explica que quem escuta músicos de rua nem sempre percebe a luta que enfrentam: o desafio constante com a polícia, as proibições sobre amplificação de som, e a falta de regulamentação para artistas. “O risco de receber uma multa de 150 euros e perder nosso equipamento é real. No ano passado, havia um polícia fazendo ronda específica para nos impedir de tocar,” revela, apontando para o Largo do Chiado.
Para evitar problemas e confusões com as autoridades, os artistas de rua se organizaram, formando um sistema de autogestão. Eles se revezam para tocar, respeitando uma fila e garantindo que todos tenham seu espaço. “É um processo cansativo esperar até três horas pela vez, mas a união faz a força. Acordos sobre o volume e um ambiente amigável são respeitados,” explica.
Got Talent, um desafio
O Chiado tornou-se o seu palco, a Brasileira sua segunda casa. “Agora, não consigo decidir se prefiro tocar ali ou em um grande evento, como no Got Talent Portugal, em 2021, ao lado do meu irmão, durante os nossos ‘15 minutos de fama’,” conta.
“Em um grande concerto, você sente aquele vento que vem da plateia, mas tocar na rua é diferente. Às vezes, cantamos para duas pessoas, mas ainda assim é muito mais gratificante do que cantar para milhares. No Chiado, já estive diante de 300 pessoas, e isso é simplesmente incrível!”
No Chiado, todos conhecem seu nome, e muitos voltam repetidamente apenas para desfrutar de seu talento. “Isso me motiva muito. É esse o meu objetivo. O que mais me deixa feliz é que não voltam apenas para ouvir os covers que faço, mas também algumas de minhas próprias músicas,” diz.
Autodidata e inspirado por diversas referências musicais, como Calema, Cesária Évora, Bruno Mars e Michael Jackson, Lucas começou a compor canções. Utiliza sua “observação” aguçada para abordar questões sociais em suas letras. “Quero criar músicas que façam todos dançar e rir, mas também que transmitam mensagens importantes.”
Em março, lançou seu mais recente single – Mamã, que teve um significado especial quando ela o viu tocar no Largo do Chiado pela primeira vez. “Ela chorou muito ao ver a evolução que tive depois de três anos,” descreve.
A saudade de São Tomé
Lucas expressa sua saudade e desejo de retornar mais frequentemente ao seu país. “Claro que gosto de um bacalhau com natas, mas o que eu realmente quero é um búzio ou uma banana com peixe, pratos que comi desde pequeno,” brinca, mencionando também a saudade pelas agradáveis águas de suas praias. “É difícil me adaptar às praias daqui. Lá, a água é morna, mais de trinta graus. Isso é o que sinto falta,” confessa.
Além da água, Lucas sente saudade da vivência musical. “Lá, sempre faziam música, tocavam guitarra e tambor, flauta… Foi onde passei minha adolescência cantando e rindo. Quero criar uma escola de música para compartilhar minha experiência e fornecer aos jovens o que não tive. Não sabia que aprender outras línguas poderia ser tão importante para a minha música, assim como as redes sociais e o cuidado com a imagem,” compartilha.
Por enquanto, atua principalmente no Chiado, mas também participa de vários eventos, incluindo casamentos e aniversários. Ele também já tocou no Algarve, Alemanha, e Suíça, sempre buscando novas oportunidades. “Quando atingir minhas metas, quero traçar novos objetivos. Sinto que ainda tenho muito a oferecer.” Hoje, Lucas reside na região de Lisboa, junto a sua esposa e filho mais novo. No entanto, os primeiros tempos foram desafiadores. “Nunca havia vivido sozinho e passei um ano em um prédio onde não conhecia um único vizinho. Foi difícil,” admite.
Com a trajetória em ascensão, Lucas sonha com um grande concerto, onde poderia estrear suas músicas autorais. A caminhada é longa e cheia de desafios, mas o orgulho de ter inspirado outras pessoas a não desistirem de seus sonhos é inestimável. “Sempre há alguém observando. Jovens, que desistiram de seus sonhos, voltaram à luta ao me ver tocar na rua e criar minhas próprias oportunidades. Isso me gratifica e também me inspira,” reflete.
“Boa sorte, Lucas.”
*Artigo publicado originalmente em 2024
Lucas Pina foi um dos participantes da Mensagem ao Vivo. Reveja aqui:









