Uma vida destinada à claustrofobia de quatro paredes de escritório — era isso que Edner Abreu pensava que o aguardava, até que sua história deu uma reviravolta surpreendente. Quando levou seu então chefe para almoçar no barzinho onde sua esposa Sheila trabalhava, o CEO — encantado com a refeição — compartilhou um conselho que mudaria sua vida.
“Edner, meu amigo, você está feliz e nem se dá conta disso,” disse seu chefe, Pedro Fragoso, que incentivou ainda mais Edner a deixar o emprego de escritório, juntar-se à esposa e abrir seu próprio restaurante. Mas com que dinheiro? “Foi então que meu chefe ofereceu-se para comprar um restaurante para nós,” recorda Edner.
Isso aconteceu há sete anos. Assim nasceu o Chiveve.
Um restaurante especializado na culinária moçambicana, aprimorada com especiarias indianas — já que Sheila é muçulmana e trouxe a influência culinária de suas raízes goan para pratos como ensopado de mandioca, frango zambeziano ou frango grelhado com molho de coco, e claro, curry de camarão com quiabo — algumas das especialidades da casa.
Essa fusão de sabores africanos e indianos rendeu ao Chiveve um lugar entre os Top 101 Restaurantes de Lisboa, no ranking organizado pelo Immigrant Foodies em parceria com a Mensagem de Lisboa.
A união de Edner e Sheila é também o segredo para uma operação bem-sucedida e deliciosa — apenas os dois mais um funcionário adicional — funcionam com precisão e agilidade para atender uma sala de jantar que está sempre cheia: no almoço com os apressados trabalhadores da área de negócios do Picoas, e no jantar com os locais em um clima mais relaxado.
A atual localização, na Rua Andrade Corvo, 5B, representa a “segunda vida” do Chiveve. Até 2022, operou na Rua Filipe Folque, em um espaço maior com dez funcionários, voltado para serviços em grande volume.
A realocação — logo após o casal ter pago cada centavo do investimento de seu antigo chefe — também significou uma mudança de estilo: hospitalidade mais íntima, distribuída em cerca de trinta lugares — incluindo um pequeno terraço — e uma decoração refinada que evoca Moçambique, incluindo uma pintura do rio Chiveve seguindo seu curso calmo.
Chefe, garçom e muito exigente
Escolher um ritmo mais lento e suave é exatamente o que o casal queria ao optar por uma operação mais enxuta e equilibrada — o Chiveve está aberto apenas de segunda a sexta — permitindo que, como pais, mantenham os fins de semana livres para seus filhos, de 11 e 17 anos, em casa em Santarém. “Não abro nos fins de semana, nem mesmo para o Papa,” afirma.
A rotina de 100 quilômetros diários até Lisboa é um preço (felizmente) pago para que seus filhos possam desfrutar de uma vida mais calma e rural — algo que reflete a infância que Edner e Sheila viveram em Beira, Moçambique, antes de se mudarem para Portugal.
Aos 40 anos, Edner já sente o desgaste físico da exigente rotina do restaurante — e embora ele acelere na estrada entre Santarém e Lisboa, seu objetivo no trabalho é cada vez mais desacelerar. Mas esse desejo colide com o que ele vê como o maior desafio no setor de hospitalidade de Portugal: a mão de obra qualificada.
“Admito, sou um chefe exigente. E aqui o funcionário tem que trabalhar mais duro do que eu, caso contrário, ele sai,” diz de forma contundente.
Esse alto “padrão Edner” de qualidade significa que o próprio chefe frequentemente se torna garçom, nunca parando um momento — correndo entre o caixa para receber pagamentos e a cozinha para pegar pratos e apressá-los para mesas onde os clientes famintos aguardam.
Talvez essa rigidez venha da formação acadêmica de Edner — como ele gosta de dizer, “o garçom mais educado de Portugal.” Desde que chegou a Lisboa em 2009 para estudar, completou graus e especializações em relações de trabalho, ciência política e governança — que antes o mantinham confinado dentro de um escritório.
Quando seu chefe fez aquela proposta inesperada, Edner trabalhava das 8 às 17 em um departamento de sistemas de informação industrial. “Hoje, não consigo imaginar passar meus dias sentado em um escritório,” diz.
“Voltar a quatro paredes seria claustrofóbico,” resume.
Comida genuína, não triturada
Na semana em que falou com a Mensagem de Lisboa, o chefe exigente já havia “testado” sete funcionários em sete dias — nenhum permaneceu mais de 24 horas no trabalho.
“O que você pode fazer? Eles chegam com um currículo dizendo que fizeram isso e aquilo, mas não conseguem nem ligar uma fritadeira. Eles não sabem fazer café. Eu digo: ‘Faça-me um abatanado,’ e o cara só fica me encarando, sem saber o que fazer,” relata Edner.
Apesar da frustração, ele continua à procura de alguém que atenda suas expectativas — talvez até alguém a quem possa um dia oferecer a mesma oportunidade que um dia recebeu. “Ainda estou procurando essa pessoa… mas ainda não a encontrei.”
Seus altos padrões também definem a qualidade da comida no Chiveve. Quando se trata da “funcionária” Sheila, ele só tem elogios:
“Sheila é uma fera na cozinha. Ela cresceu brincando com especiarias, e isso faz toda a diferença em nossos pratos. Existem muitos restaurantes africanos em Lisboa, mas nossa singularidade é a culinária genuína — não comida triturada,” afirma.
Esse conceito de “comida não triturada” significa que os pratos são visualmente bem compostos — ingredientes claramente distinguíveis — proporcionando uma experiência gastronômica projetada não apenas para saciar o estômago, mas para despertar os sentidos.
Falar sobre a comida do Chiveve ilumina imediatamente o rosto deste moçambicano lisboeta — proprietário e garçom, uma vez resgatado de um escritório por um chefe generoso que insistiu: “Você está feliz e não sabe.”
Hoje, como o rio Chiveve seguindo seu curso em Moçambique, Edner segue o seu — grato e completamente ciente daquela profecia:
“Eu sou feliz e sei disso.”









