Café do Castelo: O Recanto Lisboeta Onde a Influência se Estabelece

Café do Castelo: O Recanto Lisboeta Onde a Influência se Estabelece

Por favor, toque a campainha — assim, de maneira gentil, solicita a placa de metal dourada ao lado da entrada do edifício com portas verdes e toldos vermelhos no número 212 da Rua de São Bento. Há quarenta anos, este é o elegante e acolhedor destino do poder, onde a fome e a sede daqueles que guiam o rumo do país são saciadas — convenientemente, logo em frente à Assembleia da República.

Fundado em 1982, o Café de São Bento chega à maturidade com um espírito juvenil. Para este lisboeta de quarenta anos, não é uma crise de meia-idade, mas o resultado de um lifting gestor: uma nova administração que, desde fevereiro, se propôs a unir renovação e tradição.

O restaurante tradicional figura entre os “101 Melhores Restaurantes de Lisboa”, uma seleção da Immigrant Foodie.

Outra conquista para o estabelecimento, agora sob a gestão do lisboeta Miguel Garcia — também ele na casa dos quarenta anos — que traz consigo anos de experiência no setor hoteleiro como diretor de operações do grupo Tivoli Hotels e do icônico Copacabana Palace no Rio de Janeiro. Em todos eles, dedicou especial atenção ao lado de restaurantes.

É Miguel quem agora recebe os habituais, os deputados, o primeiro-ministro e o presidente da República. Independentemente dos títulos, todos seguem o convite da placa dourada e tocam a campainha na porta verde, em busca de um momento de paz — e das delícias da mesa.

O apetite deles é satisfeito pelo estrela do menu, o Bife à Café de São Bento, servido religiosamente desde o primeiro dia de funcionamento do restaurante. Desde dezembro passado, ele é acompanhado por um vinho tinto com o nome do restaurante no rótulo — uma mistura especial produzida para celebrar seus quarenta anos.

Apartar disso e algumas outras pequenas novidades, o Café de São Bento mantém-se fiel, com rigor quase monástico, às suas tradições — as mais importantes das quais é o voto de silêncio observado pelos garçons, testemunhas dos segredos sussurrados entre os poderosos, que, entre o tilintar de talheres, entrelaçam os destinos políticos de Portugal.

A Sala Secreta e as laranjas do presidente

Com 19 anos servindo políticos no Café de São Bento, Manuel conhece bem o valor de um ouvido treinado para não escutar — uma habilidade essencial em um restaurante como o seu. Aos 60 anos, ele perdeu a conta de quantas vezes soube, em primeira mão, das notícias que depois apareceriam nos relatos políticos do dia seguinte.

“Lá estou eu, assistindo ao telejornal, e penso comigo: ei, já ouvi isso aqui antes,” diz ele, sorrindo por trás dos óculos e da gravata borboleta característica. “Mas nunca comentamos nada,” repete.

Captar as últimas notícias em um prato prateado não é um privilégio reservado apenas aos funcionários. Manuel diz que muitos jornalistas também são frequentadores assíduos — um olho no prato e o outro na mesa ao lado. “Políticos e jornalistas, você sabe como é,” ele sorri. “São como pão e manteiga.”

Para aqueles que procuram escapar dos ouvidos atentos dos jornalistas, há uma pequena sala de jantar privada na parte de trás do restaurante, adornada com um curioso papel de parede que imita uma biblioteca antiga e uma bela pintura de Júlio Pomar, centrada acima de uma única mesa. “Chamamos de sala secreta,” explica Manuel.

Diz ele que é o local favorito para os convidados que buscam mais privacidade — geralmente políticos acompanhados de seus assessores, estendendo suas reuniões de gabinete da Assembleia da República para esse anexo mais tranquilo. Fiel ao código de ética do restaurante, no entanto, nenhum nome é revelado.

Todo esse conhecimento agora está sendo passado para a face mais jovem do restaurante, Bruno, já habilidoso na arte de equilibrar bandejas e arranjar talheres, pratos e copos com precisão. Ele é também o primeiro rosto visto por quem toca a campainha ao lado da porta verde.

Uma campainha que foi pressionada por muitos presidentes e primeiros-ministros. “O único que nunca servi foi o Professor Cavaco — ele nunca veio aqui,” admite Manuel, permitindo-se uma rara indiscrição.

Se Cavaco Silva nunca teve o prazer de degustar o famoso steak do restaurante, o mesmo não se pode dizer de Mário Soares. “Ele entrava e se sentava bem ali, onde você está sentado,” diz Manuel, apontando para a mesa um, bem perto da entrada.

“O sôtor estava sempre com pressa — ele mal se sentava e já queria o bife na mesa, dizendo: ‘perdoe-me, assim é que sou.’”

Manuel sorri ao relembrar. “E o que eu poderia fazer senão responder: ‘Está a caminho, sôtor, está a caminho…’”

Fiel ao seu prato favorito, Mário Soares usava seu privilégio presidencial para apenas uma indulgência — uma sobremesa que não constava no menu. “No momento em que terminava de comer, ainda com pressa, ele descascava uma laranja,” recorda Manuel, a imagem do ex-presidente pedindo desculpas surgindo em sua mente: ‘perdoe-me, assim é que sou…’

Curiosamente, em seus 19 anos trabalhando tão perto do poder, privilegiado de informações em primeira mão e até de certa intimidade com ele, Manuel nunca cruzou a rua para visitar a Assembleia da República.

A arte das pequenas mudanças

No Café de São Bento, é justamente o oposto — se Manuel não vai até a Assembleia, a Assembleia vai até Manuel.

Miguel Garcia sabe o valor da experiência de sua equipe — e, acima de tudo, da valiosa discrição deles. O novo proprietário do Café de São Bento faz questão de se encontrar regularmente com a equipe para ouvir suas opiniões sobre o menu, as operações diárias do restaurante e até possíveis mudanças no layout físico.

“O desafio,” diz ele, “é mudar apenas o que realmente precisa de mudança.”

Os resultados dessas reuniões já podem ser sentidos nos pequenos detalhes — como a música de fundo. Desapareceu o pop-rock; no seu lugar, toca um suave jazz, retirado diretamente da playlist do Spotify de Miguel.

Algumas outras mudanças, no entanto, foram menos discretas — principalmente no menu. Dentre elas, o que antes poderia ser considerado uma heresia: a introdução de um prato vegetariano.

A Tarte Mediterrânea (curiosamente traduzida para o inglês como Vegetables Wellington) agora aparece ao lado do icônico Bife à Café de São Bento. Para equilibrar as opções, os amantes de carne ganharam mais duas opções além do bife da casa: Bife à Portuguesa e Bife Grelhado.

Miguel diz que teve algumas dessas novas ideias enquanto estava sentado à mesa aqui — ainda como cliente. “Sempre pensei, por exemplo, que deveria haver mais opções entre as carnes,” recorda.

Portanto, quando assumiu, o famoso bife do restaurante ganhou uma nova porção grande (250 gramas), servida ao lado da versão regular de 200 gramas.

Para celebrar o 40º aniversário do restaurante, Miguel introduziu duas novidades. A primeira já está disponível: o Vinho Tinto Café de São Bento, uma mistura especial de 3.600 garrafas (agora uma a menos, após esse almoço), produzido pela vinícola Monte da Ravasqueira — elaborado especificamente para acompanhar os amados bifes do restaurante.

A segunda é um presente para os 40 clientes mais fiéis do restaurante: uma faca de bife brilhante, gravada com o nome distinto do restaurante. A lista, Miguel assegura, já está completa — mas, seguindo a tradição de discrição da casa, ele a mantém em segredo. Sabe-se apenas que, entre os nomes, está o de um jornalista.

É claro que, um restaurante digno de “Vossas Excelências” não é exatamente acessível ao eleitor médio — o prato de bife assinado gira em torno de €27. Para manter um tom politicamente democrático, um menu executivo foi introduzido, oferecendo entrada, prato principal e sobremesa por €25.

Nenhuma dessas mudanças afetou a sobremesa assinatura do restaurante — a legendária fatia de bolo de chocolate, servida desde os dias em que o menu consistia apenas em bife e aquela mesma fatia. A única diferença agora é que, para satisfazer paladares distintos, a iguaria tem o nome “O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo.”

Olhando para 2023, Miguel planeja dar um toque no décor — embora, como ele esclarece, “não para torná-lo mais moderno.”

“A ideia é voltar a algo mais próximo do estilo original, como era quando o restaurante abriu,” continua. Em menos de um ano sob nova administração, essas e outras sutis mudanças aumentaram o faturamento em 60%, segundo a contagem de Miguel.

Animado pelo sucesso, ele agora considera reabrir uma filial em Cascais, que se juntaria à já existente no Time Out Market. Uma terceira, no centro do Porto, também está nos planos — embora essa, admite, levará um pouco mais de tempo.

“Após tudo,” ele sorri, “ninguém sabe melhor do que eu que, para avançar, às vezes é preciso calçar os sapatos diplomáticos de um político.”

O homem de um milhão de bifes

Falando em políticos, um dos últimos a retornar ao Café de São Bento foi o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Satisfeito com sua refeição, o Professor Marcelo fez questão de subir até a cozinha para cumprimentar o responsável pelo bife que acabara de saborear.

Foi lá que outro Manuel — Manuel Fernandes — conquistou o direito a sua primeira “Marselfie.”

Professor Marcelo é uma pessoa como qualquer outra. Na verdade, todos os presidentes que conheci eram pessoas comuns,” diz Manuel Fernandes, que invoca o segredo profissional quando questionado sobre mostrar a foto com o presidente em seu telefone.

Nomesake de seu colega do andar de baixo, Fernandes, agora com 65 anos, está na cozinha do restaurante há nada menos que 37 anos. Ele é não só o funcionário mais antigo, mas também o guardião do padrão do que se tornou conhecido como “o melhor bife de Lisboa.”

Um título que, segundo ele, não tem mistério. “O segredo está na carne. Se a carne é de primeira linha, não há muito mais o que fazer,” diz ele modestamente — a mesma modéstia que o acompanha desde os primeiros dias, quando grelhava os primeiros bifes em uma pequena cozinha nos fundos do restaurante, equipada apenas com um rudimentar fogareiro de camping.

Quase quatro décadas depois, a cozinha agora ocupa um andar inteiro para si. É lá que Manuel Fernandes recebe cerca de uma tonelada de filé de vitela a cada mês. A quantidade é tão grande que os rebanhos de Portugal não conseguem acompanhar — a carne também vem da Alemanha, Bélgica, Polônia e Espanha.

A qualidade da carne é crucial, mas o molho é o que realmente faz a diferença — um molho com uma história, e de origem italiana. Sua origem remonta a Antonio Marrare, um napolitano que veio a Lisboa no início do século XIX para trabalhar como mordomo do Marquês de Nisa.

O ex-mordomo logo abriu seu próprio estabelecimento — o Café Marrare, em 1820 — primeiro no Largo de São Carlos e depois na antiga Rua do Chiado (atual Rua Garrett). Foi lá que ele serviu os primeiros bifes com o molho que criou e nomeou em sua homenagem. A receita do Molho à Marrare, Manuel Fernandes assegura, ainda é a mesma dois séculos depois.

Ao longo de seus anos na cozinha, Manuel há muito perdeu a conta do número de bifes que preparou. Ainda assim, se ele grelha pelo menos cem deles todos os dias, um cálculo aproximado sugere que em 37 anos ele grelhou mais de um milhão de bifes.

Um milhão — prova suficiente de que, há quarenta anos, o Café de São Bento tem sido um dos principais estabelecimentos responsáveis por, literalmente, “alimentar” os debates políticos de Portugal.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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