“Os cafés são espaços de democracia.” Esta afirmação de Nuno Artur Silva, autor renomado, poderia ter iniciado uma noite memorável de regresso da Mensagem ao Vivo à Sala Bernardo Sassetti, no Teatro São Luiz, que estava repleta numa fresca tarde de outono. O espetáculo de jornalismo ao vivo da Mensagem daquela noite centrou-se nas histórias subjacentes à grande História d’A Brasileira do Chiado, o icônico café lisboeta que celebrou 120 anos na quarta-feira.
Cristiana Águas abriu a sessão com um fado que conta uma história de amor “À porta d’A Brasileira”. Acompanhada por Alfredo Almeida e Sandro Costa, a fadista conquistou o público e preparou o ambiente para uma viagem pelas memórias do Chiado.
Essa jornada foi conduzida por João Bernardo Galvão Teles, bisneto do fundador do café, Adriano Telles. Ele relembrava como A Brasileira se transformou no património da cidade e, mais de um século depois, ainda reflete o sonho do bisavô.
O palco, com mesas e chávenas de café, transportava-nos para a esplanada do Chiado, repleta de símbolos d’A Brasileira do passado e do presente, como Valdir, o funcionário que serviu os participantes daquela noite. O evento contou ainda com a presença de um convidado especial: Fernando Pessoa. Na interpretação do ator Eduardo Roberto, Pessoa ocupou uma mesa enquanto Ricardo Belo de Morais, da Casa Fernando Pessoa, evocava A Brasileira como o “ambiente ideal” para as criações de Pessoa e o surgimento da Geração Orpheu.
A Mensagem ao Vivo homenageou os trabalhadores d’A Brasileira, através de entrevistas conduzidas por Catarina Carvalho, diretora da Mensagem. A família Pina — Paula, Tiago e Roberto —, guardiões de uma tradição de décadas a servir café, foram destacados, assim como Miguel Silva, que dá continuidade ao legado da mãe e atua como uma espécie de “guia” no Chiado, gerenciando a banca de jornais d’A Brasileira.
Aos anos de história também pertence João Franco, o famoso empregado de mesa d’A Brasileira, lembrado por Ferreira Fernandes e retratado ao vivo por Nuno Saraiva. Ele se tornou um símbolo do café e um elo entre gerações de artistas e clientes.
Nuno Artur Silva destacou esse legado humano no poema Europa, uma ode aos cafés que enfatiza a importância de manter vivos esses espaços de democracia, onde se senta “a conversar, a namorar, a conspirar, a ler o jornal, a trocar ideias, a partilhar livros e filmes”.
Amizades que só um café pode criar também foram evidenciadas, como a de Lucas Pina, artista de rua (por enquanto), e Carla Silva, supervisora d’A Brasileira, a quem Lucas chama de “mãe”. Ele, que chegou de São Tomé, encontrou no Largo do Chiado o palco onde até cantou para estrelas como Michael Jordan.
Ao som da música “África”, com interações do público presente na Sala Bernardo Sassetti, despedimo-nos com a certeza de que A Brasileira conecta o mundo a Lisboa.
Reencontramo-nos em junho, no Centro Cultural de Belém (CCB), durante o Festival de Histórias Verdadeiras organizado pela Mensagem de Lisboa.
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Agradecemos a todos que estiveram presentes, ao Grupo O Valor do Tempo, ao Teatro São Luiz, à Sónia Santiago e ao Pedro Dias!
Veja a ilustração que Zhou Yi fez durante a sessão:










