Na milésima repetição, o russo diante de mim revisita sua estratégia de segurança, tossindo para dentro do próprio casaco, uma tosse seca e potente. Depois, ele fixa os olhos nos meus, com a íris verde opaca e a órbita avermelhada, como se dissesse em silêncio: desculpe, mas não há nada que eu possa fazer. Eu meneio a cabeça em resposta; mesmo sem falar russo, é no olhar que todos nós nos entendemos.
Ao meu lado, meu filho dorme em um sono inocente, encolhido na poltrona.
O comboio avança de forma preguiçosa, balançando a cabeça dos passageiros. Longas viagens são sempre entediantes. Não importa o tipo de transporte, seja avião, autocarro, comboio ou transatlântico, após as primeiras horas, a paisagem na janela se torna um borrão, o céu perde sua cor vibrante e o relógio parece derreter como nas obras de Dalì, fazendo um minuto se arrastar eternamente.
Dentro daquele comboio, a experiência não era diferente. Era ainda pior.
Partindo da estação Atocha em Madrid às dez da noite de quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020, a composição estava repleta de centenas de almas. A chegada a Lisboa coincidiria com o fim do mês, mas em março, devido à pandemia, a linha que historicamente unia as duas capitais seria interrompida, e em junho, acabaria definitivamente desativada. Até hoje.
Aquele comboio noturno não foi o último entre Madrid e Lisboa. Não foi, mas ao mesmo tempo foi, pois as poucas viagens seguintes, antes da brusca interrupção causada pelo vírus, foram semelhantes, marcadas pelo medo e pelo silêncio, uma jornada sem origem e, acima de tudo, sem destino, pois ninguém no comboio, já naquele dia, tinha certeza do que o futuro reservava.
O comboio noturno Madrid-Lisboa se tornou a rota de fuga da família, após o que deveria ser mais uma alegre viagem de carnaval. Primeiro Mérida, com seu majestoso teatro romano e a arena dos gladiadores, depois Madrid, com o Prado, a Reina Sofia e o alegre bairro de Lavapiés, recheado de tapas, beijos e os revolucionários livros da Traficantes de Sueños, onde a literatura é uma arma, olé!
No meio de tudo isso, as máscaras cobriam os rostos dos chineses, uma indumentária inusitada na época, destoante. Ah, esses chineses, tão estranhos, e mal sabíamos que aquelas máscaras se tornariam nossas companheiras diárias. Mesmo sem percebermos, já era possível sentir um mal-estar, um frio na barriga, um sinal, um alerta, quando os chineses sorriam sem sorrir.
Na manhã daquela quinta-feira, os telejornais iniciaram a contagem desesperadora de internações na Espanha, e em meia hora, os números já eram alarmantes, impulsionados pela propagação geométrica do vírus. Era preciso voltar para Lisboa, trancar-se em casa, longe do noticiário que talvez não mencionasse internados e pessoas com falta de ar.
Às dez da noite, o número de infectados já contava centenas, e o cais de Atocha mergulhou na atmosfera transcendente de um filme de guerra: os passageiros, em silêncio, segurando suas malas, paralisados por pensamentos e temores. O comboio parou lentamente, e as portas se abriram, engolindo-nos rapidamente.
O russo novamente abafou sua tosse seca com o casaco de couro, sem se dar ao trabalho de pedir desculpas com seu olhar avermelhado. Não era o único; o vagão se tornara uma sinfonia macabra de espirros e tosses, e a rotina dos passageiros indo e vindo para o banheiro realizava o viscoso ritual do escarro. Já me via de volta aos bancos do colégio, lembrando dos Versos Íntimos de Augusto dos Anjos:
Acostuma-te à lama que te espera…
Meu filho se mexe na poltrona ao lado, em um sono inquieto. Ele é observado pela mãe à frente, sentada ao lado do russo, tentando manter uma calma falsa, com o rosto coberto por uma echarpe que serve de máscara improvisada. Os chineses sempre à frente, eles sabem das coisas, enquanto meu pensamento é interrompido pelo ruído das rodas de ferro ao longo dos trilhos, e Lisboa que não chega, nunca chega.
A viagem nada tinha a ver com a primeira experiência no comboio noturno entre as duas capitais, anos antes, quando a excitação de dormir em uma cabine de trem era tão exótica para mim, como compartilhar uma xícara de café com um faquir. Aquela atmosfera do Expresso do Oriente fazia a viagem passar num piscar de olhos, a carruagem luxuosamente balançando como os braços de uma mãe.
O comboio não nos embala, mas o cansaço é maior. As pálpebras se fecham, e a sinfonia de tosses e espirros se silencia. Augusto dos Anjos aparece em meu sonho. O beijo, amigo, é a véspera do escarro; a mão que acaricia é a mesma que apedreja. Um solavanco brusco, o travão, a luminosidade na janela da carruagem. “Chegamos, pai?”, pergunta meu filho. “Sim, filho, aparentemente, sãos e salvos.”
O russo despede-se com um sorriso embaçado, interrompido pela tosse seca e insistente. Os passageiros saem apressadamente, desejando deixar Madrid, seus infectados, e os chineses de máscara para trás, pois em Portugal as coisas sempre demoram a chegar e, quem sabe, a pandemia também seria uma delas que nunca chegaria.
Lá fora, o comboio estacionado no cais de Santa Apolónia parece exausto, o motor ressonando suavemente, sem suspeitar que aquela poderia ter sido uma de suas últimas viagens noturnas, se não a última. A viagem interrompida e nunca retomada, como se a pandemia ainda não tivesse terminado e o mundo continuasse a contabilizar os mortos.
O breve percurso entre Lisboa e Madrid permanece separado pela distância do descaso humano, uma viagem estagnada no tempo, amaldiçoada pela inação, um embaraçoso monumento à falta de vontade política, o comboio do atraso silenciando o diálogo entre dois povos irmãos, isolando ainda mais os portugueses.
O comboio noturno entre Lisboa e Madrid, mais do que nunca, se tornou um comboio fantasma.









