Será que Deus, GOD, é um poodle, DOG? Digamos que, em King Size, esta espécie canina, normalmente efeminada e pouco consentânea com os traços associados à masculinidade normativa, se apresenta, entre portais de néon, fumos e hologramas, exatamente assim. Nos primeiros minutos da peça, cabe-lhe proferir em off (e em inglês) um discurso virulento e crítico sobre o patriarcado e todas as suas emanações violentas inscritas no sistema capitalista.
DOG/GOD é, portanto, incisivo e objetivo ao anunciar um “despertar queer”, capaz de superar os binários de gênero masculino/feminino e apontar à transformação. Assim, entram em cena quatro performers que, através de um exercício de burlesco, ironia e artifício, ou assumidamente “camp”, conforme o conceito citado pela criadora Sónia Baptista, desafiam os códigos de construção da masculinidade.
“Já há muito tempo que queria explorar o drag king, até a um nível lúdico”, conta Sónia. Contudo, “a dado momento, percebi que era interessante questionar a performatividade da masculinidade, explorando como o comportamento dito ‘normal’ é encenado e, desse modo, descobrir a construção performativa do macho através do drag, do camp.
Entre a leitura de estudos de gênero e alguma filosofia queer, a coreógrafa mergulhou na cultura pop, percorrendo desde concursos de Mr. World até memes que pululam na Internet. “Como já tinha abordado o tema da masculinidade tóxica em Dykes on Ice [peça de 2024], aqui quis fazer algo diferente. Embora tenha explorado um pouco da ‘manosfera’ e encontrado discursos extremados que, nos dias de hoje, têm se tornado cada vez mais frequentes, King Size se situa em um espaço temporal entre os anos 70 e o início dos 90 [do século XX]. Recorri até a antigos anúncios de after shave, e o espaço cênico remete para aquelas igrejas com néon colorido que associamos a Las Vegas daquela época.”
Para criar quatro “boys” muito machos, com braçadeiras, bolas de futebol, halteres e testosterona transbordando dos slips, Sónia, Crista Alfaiate, Joana Levi e Maria Abrantes participaram de workshops drag king/queen, onde exploraram desde a “make up mais construída” até o “lip sync e todo um código dos shows drag que nenhuma de nós tinha experimentado”. Através do excesso e até do histrionismo, que costumam ser bem presentes nesse tipo de shows, aqui a encenação da masculinidade busca também questionar o que é a performance de gênero no teatro. Mas, como tem sido característica das criações de Sónia Baptista, isso é feito com humor, “ferramenta de trabalho sempre muito importante para discutir questões difíceis e mais sérias”, como evidencia o já mencionado discurso do DOG/GOD poodle.
E, ironia das ironias, a culminar num estado divino de masculinidade, tudo se conclui com a “poodlização” do quarteto de machos. Ao som dos Europe e do hit criado pelos poddle rockers chamado The Final Countdown, que dominou as paradas de vendas de discos há quase 40 anos.
Após a estreia no Festival DDD, no Porto – bastante perturbada pelos efeitos do “apagão”, como confessa Sónia Baptista –, King Size chega agora à Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, permanecendo em cena até 15 de junho. O espetáculo é falado em inglês e português, com legendas.









