Comecei a tocar guitarra por volta dos 12 anos. Aprendi com os escuteiros e a partir daí nunca mais deixei de tocar. A guitarra é um instrumento que se vai sempre aprendendo, está sempre em desenvolvimento. Mas foi só quando entrei para os Xutos & Pontapés que percebi que poderia fazer vida profissional na música.
Houve uma primeira fase em que estava sempre a ouvir Beatles, e aprendi a tocar praticamente toda a obra deles. Depois, em 1976, 1977, ouvia muito Genesis. A partir de 1978 comecei a ouvir Clash e Sex Pistols, e também reggae. A seguir veio a revolução de new wave, em que passei a ouvir Police e uma série de outras bandas.
Talvez os Beatles, porque foi com quem aprendi a tocar e a gostar de fazer canções. Mas o punk também teve muita influência porque me ensinou a estar em palco e a encarar o espetáculo.
Foi em agosto de 1975 na Zambujeira do Mar, durante o intervalo de uma banda de baile. Eu tocava baixo num grupo e fomos para o palco enquanto a outra banda descansava. Foi muito engraçado, correu muito bem. Essa foi a primeira vez que subi ao palco para tocar baixo. Depois disso, comecei a fazê-lo mais vezes com outros amigos.
Lembro-me de estar em palco e pensar “é aqui que quero estar”. Acho que é essa a melhor descrição. Foi uma espécie de encantamento, de deslumbramento, e de repente aquilo acaba e quer-se mais. Ainda por cima fica-se com uma sensação que nunca se teve até aí, que é uma sensação de realização, do público gostar de nós, que é também outra coisa que faz parte deste vício de estar em palco.
Não sei se é segredo. O que tem acontecido é que, seja nos bons ou nos maus momentos, há sempre um amanhã, há sempre outro concerto, há sempre alguém que nos pede para fazermos isto ou aquilo, para participarmos nisto ou naquilo. Tem havido sempre uma missão da banda para aceitar esses convites e também para irmos fazendo as músicas necessárias para que isso aconteça. Tem sido assim desde sempre. Claro que no início isto acontecia com menos frequência. Íamos tocar a algum lado e passados dois ou três meses aparecia outro convite, até passar a ser uma coisa quase semanal.
O respeito que sempre tivemos uns pelos outros e a amizade que sempre nos uniu fez com que as zangas acabassem por passar rapidamente…
Tenho grande orgulho nos concertos que fizemos no Estádio do Restelo ou no Altice Arena. Tenho orgulho também em termos sido os primeiros a fazer muitas coisas, tanto em termos de concertos como de gravações, e de termos aberto muitas portas e sermos exemplo para muitos músicos. Quando as pessoas falam comigo, sejam mais velhas ou mais novas, agradecem-me. Claro que não é para agradecer, mas realmente acho que, de alguma forma, contribuímos para abrir as portas a muita gente, mas também levámos muitas pessoas a quererem prosseguir uma carreira musical.
Não, agora já não é por aí. Acho que o exemplo serve mais do que isso. Verem que os Xutos & Pontapés conseguiram montar um modo de vida e um espetáculo coerente e honesto com coisas criadas por nós, acho que é um exemplo muito bom para muita gente.
Acho que o mais importante é as pessoas gerirem os seus projetos de forma inteligente sem estarem dependentes de qualquer espécie de sorte. Há muita gente a fazer coisas boas. Acho que a música portuguesa está numa fase como nunca esteve, bastante bem.
Com certeza. Houve uma altura ali por volta dos anos 90, quando começou a Resistência, em que os Xutos estavam um bocado fechados em si próprios e a situação estava a ficar muito cansativa e até perigosa, por assim dizer. Passar a fazer parte de um grupo de várias cabeças pensantes, com várias músicas diferentes, foi como abrir as janelas da casa. Houve um ar novo, um pensamento novo, e o convívio também ajudou muito. Tentei contribuir para que esse convívio fosse fresco e são, para que não entrássemos em disputa de egos. Depois com os Rio Grande aconteceu a mesma coisa, porque aí em vez de estar virado para música de bandas como os Delfins ou os Heróis do Mar, passei a trabalhar com personalidades como o Rui Veloso, o Jorge Palma, o Vitorino, ou o João Gil, que são personalidades únicas, já não são bandas. E essas personalidades têm os egos muito desenvolvidos [risos]. A minha maneira de ser e a minha experiência de grupo fez com que todos estes projetos dos quais fiz parte fossem experiências de amizade, de respeito e de felicidade.
Não posso responder a isso, porque gosto das músicas todas [risos]. Claro que há músicas de que gosto mais e músicas às quais devo muito, como Circo de Feras, A Minha Casinha, Contentores, Postal dos Correios (Querida Mãe Querido Pai), Dia de Passeio, A Noite… são canções que se tornaram sucessos imensos e às quais devo muito. Mas às vezes, nos espetáculos dos Xutos ou da Resistência, vamos buscar músicas menos conhecidas ou menos badaladas, mas que são bastante estimadas por nós, representam algo especial, o que me leva a dizer que não há nenhuma música que eu não goste, todas são especiais.
Se os Xutos não se tivessem formado em 1978, talvez tivesse seguido a minha carreira em Agronomia. Possivelmente, por esta altura, ou teria uma carreira como engenheiro, ou teria sido professor. E possivelmente continuaria a tocar nuns grupos quaisquer só para me entreter [risos]. Não sei se faria canções, mas tocaria, com toda a certeza.
Eu queria tocar com todos os grupos, mas não vou conseguir, porque somos muitos e não há tempo suficiente. No primeiro dia começamos com o meu projeto a solo, com os meus dois filhos e com o Zé Moz Carrapa na guitarra e o Nuno Espírito Santo no baixo, que são quem me tem acompanhado ultimamente. Daí sobem ao palco alguns convidados (para já estão confirmados o Pedro Jóia, a Teresa Salgueiro e, até prova em contrário, a Mariza). A segunda parte do espetáculo é toda com os Xutos & Pontapés. No segundo dia, o concerto é às 17h e começamos com a Resistência. Depois do intervalo entram os Tais Quais, e a seguir o Vitorino, o João Gil e o Jorge Palma (o Rui Veloso não pode estar presente) e vamos cantar algumas canções do Rio Grande. Muitos dos meus convidados vão ter de ficar na plateia, porque já toquei mesmo com muita gente, mas tenho pena de não os poder chamar a todos ao palco. Mais do que uma celebração, isto é a minha maneira de agradecer a toda a gente que tem trabalhado comigo e, acima de tudo, ao público e às canções que me ajudaram a chegar até aqui.
Estou a deixar espaço para pensar nisso em outubro porque este verão tem sido muito intenso. Haverá tempo para nos juntarmos outra vez. Já há concertos marcados dos Xutos & Pontapés, da Resistência e também meus a solo, para o Natal e para o ano que vem.









