O outono em Lisboa, com seu clima sombrio e chuvoso, parece um aviso sussurrado pela ventania que percorre as ruas desertas: Lisboa é luz, mas também carrega sombras. E quanto mais intensa é a luz – e não é preciso ser um gênio em física para perceber isso – mais profunda, sólida e real é a sombra.
É sempre intrigante ouvir o que a natureza tem a ensinar.
Afinal, a natureza tem sido uma rica fonte de metáforas para ilustrar os desafios, contradições e angústias da humanidade, desempenhando um papel crucial na cultura humana.
Funciona assim: diante de uma dúvida sobre como tratar determinado tema, voilà, é só recorrer à natureza como metáfora para tudo, desde um desenlace narrativo improvável até o feroz tubarão branco de Spielberg.
E, por que não, também numa crônica jornalística.
Dessa forma, Moby Dick pode ser lido como o embate entre um pescador e uma baleia, mas também como a simbólica luta do homem contra algo muito maior, seus próprios limites, a inevitabilidade da morte ou até mesmo contra Deus.
Deus, por sinal, sempre utilizou a natureza para enviar seus recados aos homens, seja através de pragas de gafanhotos, dilúvios ou de uma maçã, que, desde a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, parece ter gostado de estar presente em momentos cruciais, como ao cair na cabeça de Newton para demonstrar a força da gravidade ou estampada em um iPhone.
Hitchcock, uma espécie de deus em seu campo, convocou os pássaros ao cinema para intensificar a paranoia americana diante do comunismo, uma ameaça silenciosa e iminente que rondava as cidades, prestes a invadir igrejas e escolas, colocando em risco as crianças inocentes.
A Guerra Fria, aliás, não poupou nem os astros, aparentemente distantes das disputas terrenas. Marte, o planeta vermelho, foi visto como a metáfora perfeita, e quantas vezes a Terra não esteve à beira da extinção total devido aos marcianos descendo dos céus em discos voadores de cartolina?
Os marcianos que, após a queda do Muro de Berlim, foram rapidamente substituídos pelos zumbis, representando homens que se alimentam do cérebro dos outros, que não usaram bem o seu ao transformar um elemento esquecido da tabela periódica em uma arma de destruição em massa.
O homem, sempre o lobo do homem.
É nesse contexto que o outono de Lisboa se insere nesta crônica, um outono que chega frio e sombrio, servindo também como metáfora para a reflexão sobre uma cidade que se orgulha de sua luz, mas frequentemente ignora suas sombras.
Embora se tente ignorá-la, a sombra de Lisboa frequentemente se revela, muitas vezes trazida por mais uma tempestade vinda do Atlântico.
O sopro forte que curva as árvores, mas não dobra a resiliência do imigrante que enfrenta a intempérie climática e das pessoas, equilibrando-se em bicicletas frágeis, enfrentando a chuva e o frio para garantir a refeição quente de quem, seguro no conforto do lar, se reúne em almoços de domingo em família.
Contudo, para quem hoje ou amanhã avistar, na porta, um sorriso encharcado, pode encontrar o rosto de um outro, alguém diferente, alguém outro.
Mesmo quando a ciência, sem metáforas, nos lembra que somos todos iguais, mamíferos, bípedes e limitados, como diria outro, capazes de usar apenas dez por cento de nossa capacidade mental, separados por um pequeno polegar opositor do macaco, embora, no estágio atual das coisas, o macaco talvez prefira se distanciar de nós.
Dessa forma, o outono de Lisboa, que muitas vezes teimosamente se arrasta pelas estações, continuará seu curso, cumprindo seu arco metafórico, bastando querer ler nas entrelinhas para captar seu recado e enxergar o outro lado da moeda.
A tempestade eventualmente cessará, tornando-se uma nota de rodapé nos noticiários, e o sol voltará a brilhar.
Embora, no outono de Lisboa, esse brilho não alcance todos.
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