O cenário repete-se, quase sem exceção, pelas escolas de Lisboa. Os pais conduzem os filhos até ao local mais próximo da porta da escola e, sem espaço para acomodar o enorme afluxo de automóveis, muitos optam por estacionar em segunda fila. O trânsito para e ouve-se o rotineiro buzinão. Com os pais em stress, os filhos apressam-se para dentro dos portões. Por isso, o espaço em redor da escola representa, para muitos, um perigo. A segurança, essa, parece só existir para lá dos muros.
E se não tiver de ser assim?
A transformação do espaço em frente às escolas em Lisboa é uma discussão em andamento, com vários projetos de base comunitária a emergir.
No Agrupamento de Escolas Manuel da Maia, em Campo de Ourique, a comunidade escolar juntou-se a uma associação de arquitetura para remodelar o espaço público junto ao portão da escola. A proposta incluiu o redesenho da rua, promovendo a permanência no espaço público, com o uso de mobiliário urbano tático, como bancos e floreiras.
Em Arroios e no Parque das Nações, famílias aguardam pela implementação de projetos que visam fechar a rua ao trânsito escolar e criar áreas de convivência e brincadeira, mas os avanços são lentos.
Veja onde estão os projetos:
Como o espaço público pode dar mais autonomia às crianças e jovens
A mudança nas ruas das escolas pode facilitar um novo modo de vida, transformando lugares de passagem em pontos de encontro. Contudo, a dependência do automóvel persistente em Lisboa, onde em 2023, 43,9% dos estudantes chegavam à escola de carro, cria barreiras à mudança. Um estudo de 2017 já mostrava que mais de 76% das crianças do 1º ciclo faziam o mesmo.
No entanto, cidades europeias como Paris e Barcelona estão a transformar as suas ruas escolares, criando espaços mais seguros e agradáveis para as crianças.
Frederico Lopes, pesquisador e defensor do direito à brincadeira, destaca que a mobilidade infantil nas áreas urbanizadas de Portugal é limitada e aponta para a necessidade de que os cidadãos se façam ouvir na busca por mudanças significativas.
“Até há uns anos, olhava-se como impossível poder melhorar algumas zonas da cidade para permitir que mais pessoas andassem a pé.”
Na Escola EB 2,3 Manuel da Maia, a comunidade enfrentou desafios no acesso pedonal, mas conseguiu submeter uma proposta a um programa municipal que culminou na execução de um projeto de urbanismo tático, que incluiu a instalação de bancos reciclados. Medições mostraram um impacto positivo, com um incremento no tempo de permanência e socialização no espaço.
Após a intervenção, a monitorização demonstrou um aumento significativo no uso do espaço público:
- Duração da estadia sobe 23% (308 segundos para 378 segundos)
- Sentados aumentaram mais de 300% (12 para 48 ocorrências)
Apesar da remoção temporária do mobiliário urbano devido a preocupações sobre o estacionamento, a experiência delineou um caminho para futuras transformações no uso do espaço.
Resultados? Mais pessoas sentadas e um lugar em que as pessoas ficam
Os dados coletados indicaram que, após as mudanças, o espaço passou a ser um ponto de encontro confortável e seguro para os pais e alunos. Foram identificados pontos onde a permanência aumentou, reformulando as interações nas proximidades da escola.
A luta pela mudança persiste, mas experiencia-se uma nova dinâmica que pode facilitar a criação de ambientes amigáveis para crianças e jovens, integrando a comunidade nas decisões.
Praça das Gaivotas e Praça das Novas Nações: a comunidade escolar de Lisboa a redesenhar as ruas das escolas
A Praça das Novas Nações é um exemplo de um espaço limitado por veículos, que a comunidade escolar tem lutado para transformar. Os esforços para requalificação continuam a ser realizados, buscando promover áreas que incentivem a convivência e jogos.
Houve avanços em outras localidades, mostrando que a união de pais e a mobilização comunitária pode resultar em melhorias na segurança e acessibilidade dos espaços públicos.
A proposta da Praça das Gaivotas, vinda da comunidade, procura garantir um espaço seguro e atrativo, como uma extensão da escola.
Como se faz lá fora? Intervenções definitivas em Paris e urbanismo tático em Praga
Cidades europeias estão a adotar medidas semelhantes através de programas de urbanismo tático, como o que se desenvolve em Paris e Praga. O foco é requalificar as áreas em torno das escolas, diminuindo a presença automóvel e melhorando as condições para a convivência.
Desse modo, a experiência de Lisboa pode servir de exemplo para que iniciativas comunitárias sejam acolhidas e implementadas em todo o país, promovendo uma vida urbana mais inclusiva e segura para todos.
Despertar uma nova consciência sobre o espaço público e o bem-estar das crianças nesse ambiente deve ser uma prioridade ao planejar as cidades do futuro.









