Algumas das migrações de animais mais longas e essenciais da Terra ocorrem sob a superfície dos rios. Um novo relatório importante da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), um tratado ambiental da ONU, alerta que muitas dessas migrações estão rapidamente se deteriorando.
A Avaliação Global dos Peixes Migratórios de Água Doce, divulgada na 15ª Reunião da Conferência das Partes (COP15) da CMS no Brasil, conclui que os peixes migratórios de água doce estão entre as espécies mais ameaçadas do mundo. Esses peixes são cruciais para a manutenção de rios saudáveis, apoiando grandes pescarias internas e provendo alimento e meios de subsistência para centenas de milhões de pessoas.
Centos de Espécies de Peixes Migratórios Precisam de Proteção Global
A avaliação destaca centenas de espécies de peixes migratórios que requerem ação internacional coordenada. Ela fornece evidências robustas de que os peixes que dependem de rios conectados através de fronteiras nacionais estão rapidamente em declínio devido à construção de represas, fragmentação de habitats, poluição, sobrepesca e mudanças climáticas nos ecossistemas.
No total, 325 espécies de peixes migratórios de água doce foram identificadas como candidatas a esforços de conservação internacional, apontando para uma crise de biodiversidade amplamente negligenciada nas bacias fluviais compartilhadas.
Uma divisão regional das 325 espécies de peixes migratórios de água doce consideradas candidatas para proteção internacional (além das 24 já listadas) sob os Apêndices I (espécies que requerem proteção estrita) e II (espécies que precisam de cooperação internacional) da Convenção:
- Ásia: 205
- América do Sul: 55
- África: 42
- Europa: 50
- América do Norte: 32
(O total supera 325 porque algumas espécies ocorrem em múltiplos continentes.)
Sistemas fluviais-chave identificados como prioritários incluem a Amazônia e a bacia do La Plata-Paraná na América do Sul, o Danúbio na Europa, o Mekong na Ásia, o Nilo na África e o Ganges-Brahmaputra no subcontinente indiano.
Com base em extensos conjuntos de dados globais e avaliações da IUCN de quase 15.000 espécies de peixes de água doce, o relatório fornece a visão mais abrangente até o momento sobre os desafios de conservação enfrentados pelos peixes migratórios de água doce.
Ele também esboça passos práticos que os governos podem tomar imediatamente, incluindo:
- proteção de corredores de migração e fluxos ambientais,
- planos de ação em escala de bacia e monitoramento transfronteiriço, e
- pescarias sazonais coordenadas
Uma Crise de Biodiversidade de Água Doce Largamente Negligenciada
Os animais que vivem em ecossistemas de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que aqueles em terra ou nos oceanos, ainda assim o colapso dos peixes migratórios de água doce recebeu relativamente pouca atenção global.
Esses peixes dependem de longos caminhos fluviais ininterruptos que conectam áreas de reprodução, áreas de alimentação e viveiros em planícies de inundação, muitas vezes através de vários países. Quando barragens, fluxos de água alterados ou degradação de habitat interrompem essas conexões, as populações podem cair rapidamente.
O relatório estima que as populações de peixes migratórios de água doce diminuíram cerca de 81% em todo o mundo desde 1970. Quase todos (97%) dos 58 espécies de peixes migratórios listadas pela CMS (incluindo espécies de água doce e salgada) estão agora ameaçadas de extinção.
As descobertas mostram que centenas de espécies de peixes migratórios de água doce estão em condições de conservação precárias e enfatizam que protegê-los requer gerenciar os rios como sistemas conectados, em vez de tratá-los como vias navegáveis nacionais separadas.
A Bacia Amazônica Destaca Necessidades Urgentes de Conservação
Como anfitriã da COP15, o Brasil propôs várias medidas de conservação focadas nos maiores sistemas fluviais da América do Sul, a Amazônia e a bacia do La Plata-Paraná.
A Bacia Amazônica continua sendo um dos últimos grandes redutos para peixes migratórios de água doce, mas as crescentes pressões de desenvolvimento estão colocando esse status em risco.
Um estudo de caso divulgado juntamente com a avaliação global identifica 20 espécies de peixes migratórios na Amazônia que atendem aos critérios para potencial listagem no Apêndice II da CMS. Essas espécies migratórias de longa distância são centrais para as pescarias regionais, representando cerca de 93% das capturas totais e sustentando uma indústria avaliada em aproximadamente US$ 436 milhões por ano.
Alguns desses peixes realizam jornadas notáveis. O dorado (peixe-gato dourado) (Brachyplatystoma rousseauxii), uma espécie de fundo com coloração metálica dourada/prateada e um corpo grande (até 2 metros), completa a migração de água doce mais longa conhecida entre os peixes. Seu ciclo de vida inclui uma jornada de 11.000 quilômetros desde as fontes andinas até áreas de viveiro costeiras.
Para fortalecer os esforços de conservação, o Brasil e outros países estão propondo um Plano de Ação Multiespécies para Peixes-gato Migratórios da Amazônia (2026-2036), desenvolvido através da cooperação regional.
O Brasil também propôs adicionar o peixe-gato pintado (Pseudoplatystoma corruscans) ao Apêndice II da CMS, enfatizando a necessidade de ação coordenada na Bacia do La Plata, onde esses peixes enfrentam ameaças de barragens, fluxos de água alterados e pressão pesqueira.
Essas iniciativas representam alguns dos esforços internacionais mais ambiciosos para proteger peixes migratórios de água doce. Elas reforçam o princípio central da CMS de que as soluções de conservação devem cobrir todo o alcance geográfico das espécies migratórias e depender da cooperação entre os países.
Especialistas Pedem Ação Global Coordenada
Autor principal Dr. Zeb Hogan:
“Muitas das grandes migrações da vida selvagem do mundo ocorrem debaixo d’água. Esta avaliação mostra que os peixes migratórios de água doce estão em séria dificuldade, e que protegê-los exigirá que os países colaborem para manter os rios conectados, produtivos e cheios de vida.”
Secretária Executiva da CMS Amy Fraenkel:
“Esta nova avaliação destaca uma prioridade importante para a conservação de espécies migratórias e seus habitats, que não recebeu a atenção adequada até agora. Ao alinhar ciência, política e cooperação internacional, os governos podem proteger as últimas grandes migrações de peixes de água doce do mundo e as comunidades e ecossistemas que dependem delas.”
Vice-presidente e responsável adjunta de Água Doce da World Wildlife Fund-US, Michele Thieme:
“Os rios não reconhecem fronteiras — e assim também não os peixes que dependem deles. A crise que se desenrola sob nossas vias navegáveis é muito mais severa do que a maioria das pessoas percebe, e estamos ficando sem tempo. Os rios precisam ser geridos como sistemas conectados, com coordenação entre fronteiras e investimentos em soluções de bacia agora, antes que essas migrações sejam perdidas para sempre.”
Por Números: Declínio Global dos Peixes Migratórios
- 325: Espécies de peixes migratórios de água doce identificadas como candidatas para ação de conservação internacional coordenada sob a CMS (além das 24 espécies já listadas nos Apêndices I e II).
- 205: Espécies identificadas apenas na Ásia, tornando-a o hotspot global para peixes migratórios de água doce em risco.
- 81%: Declínio estimado nas populações de peixes migratórios de água doce em todo o mundo desde 1970, uma das quedas mais acentuadas registradas para qualquer grupo de vertebrados importante.
- 97%: Proporção de peixes migratórios listados pela CMS já ameaçados de extinção.
- 15.000: Espécies de peixes de água doce avaliadas através da Lista Vermelha da IUCN e conjuntos de dados globais usados para produzir esta avaliação, a mais abrangente base de evidências já montada para peixes migratórios de água doce.
- 250+: Rios e lagos transfronteiriços no mundo, o que significa que o sucesso da conservação depende da cooperação entre países, e não de ações apenas nacionais.
- 47%: Proporção aproximada da superfície terrestre da Terra que está dentro de bacias fluviais compartilhadas.
- 93%: Proporção das capturas pesqueiras da Amazônia compostas por espécies migratórias de água doce, destacando seu papel crítico nos sistemas alimentares e na subsistência regional.
- US$436 milhões: Valor anual estimado das pescarias da Amazônia com base em espécies migratórias.
- 20: Espécies da Bacia Amazônica identificadas como atendendo aos critérios para potencial listagem no Apêndice II da CMS no novo estudo de caso.
- Mais de 10.000 quilômetros: Distância de migração do dorado (peixe-gato dourado), uma das migrações de água doce mais longas já registradas.
- 1 solução fundamental: Gerir rios como sistemas ecológicos conectados, e não como vias navegáveis nacionais isoladas.
Documentos em inglês, espanhol e francês:









