“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Em resposta ao frenesi da cidade ou movidos por um impulso de exploração, seja em viagens pelo exterior ou ao descobrir a própria cidade, sentimos a necessidade de nos imergir no universo da pintura. Mas onde encontrá-la?
A primeira ideia que nos surge é, naturalmente, buscar refúgio nos museus: verdadeiros depósitos de obras de arte, claros em sua missão, projetados desde o alicerce para saciar o desejo estético de pessoas como nós.
É uma proposta tão lógica que não precisa de justificativa; e se existem nas proximidades museus grandes e renomados, antecipamos não apenas o prazer que esses locais podem proporcionar, mas também a promessa de fartura. A gula une-se ao desejo de desfrutar – e seguimos adiante. Longe de mim negar a relevância de tal ideia.
No entanto, é importante recordar, ocasionalmente, que há pinturas de qualidade em locais menos esperados. Espaços que nossas mentes não associam imediatamente às belas-artes, mas que escondem a eternamente jovem face da beleza.
Antigos conventos podem ser exemplos disso.
Em especial, aqueles erigidos por determinação de famílias reais, destinados a religiosas de origem nobre, que se tornaram ricos em encomendas a artistas de renome e presentes valiosos de suas respectivas famílias. Um exemplo notável é o convento das Descalzas Reales, em Madrid, fundado no século XVI por Joana de Áustria, filha de Isabel de Portugal e Carlos V. Embora ainda funcione como uma instituição religiosa, abrigando irmãs clarissas, a coleção de arte pode ser visitada em horários determinados. Para ilustrar o valor do patrimônio, basta mencionar que, em tempos, a célebre “Anunciação” de Fra Angelico – atualmente no Museu do Prado – enobrecida o oratório deste convento madrileno. Em 2026, não encontramos lá Fra Angelico; no entanto, obras magníficas como “A Virgem do Papagaio” tornam a visita mais do que justificável.
Lisboa pode não ter um convento com um acervo comparável no campo da pintura, mas possui o Convento dos Cardaes – um verdadeiro deleite visual por várias razões. Localizado na Rua do Século, a poucos metros do Tribunal Constitucional, a fachada discreta do edifício não chama a atenção de um transeunte desatento. Contudo, se, por recomendação, iniciativa própria ou acaso, adentrarmos por suas portas, a situação muda completamente.
O convento foi erguido no final do século XVII por Dona Leonor Távora e resistiu admiravelmente ao Terramoto de 1755. Como casa das Carmelitas Descalças, acolhia religiosas de origens privilegiadas; parte das obras que adornam as diversas salas do edifício são doações dessas famílias que viram “um dos seus” seguir os ensinamentos de Teresa de Ávila.
Algumas obras realmente impressionam, seja pela sua técnica refinada ou pelo tratamento original de temas cristãos. Encontrei um encantador anjo doméstico que, ao chegar a hora do banho do Menino, arrasta com dificuldade o pequeno Jesus até sua Mãe. Contemplei uma representação de São José com Jesus ao colo, uma “Madonna com Bambino” em versão masculina. Vi uma “Ressurreição de Cristo” que, ao invés de retratar a alegria do reencontro do Ressuscitado com os discípulos, nos apresenta o túmulo vazio, sob a penumbra da noite, gerando uma forte impressão de realidade e ausência que nos faz refletir sobre a intrigante figura do deus absconditus.
Os maiores tesouros do convento estão reservados à capela, que contrasta com a sobriedade da fachada. Entrar nesse espaço é ser envolvido por um esplendor vibrante, típico do barroco, repleto de talha dourada, mármores ao estilo florentino, amplas pinturas de André Gonçalves e António Rovisco Pereira, centradas na figura de Nossa Senhora, além de um ciclo de azulejaria holandesa que cobre toda a parede. A decoração busca ecoar, por sua exuberância, o próprio esplendor divino.
Vários elementos desse conjunto merecem destaque, mas algo nos painéis de azulejos pintados pelo mestre Jan von Oort chama a minha atenção. Gosto, por motivos que não consigo definir, da confluência entre a inocência da representação e a ausculta da mensagem contida.
Os azulejos de von Oort, cuja obra também pode ser apreciada no Museu Nacional do Azulejo, narram a história de Santa Teresa de Ávila através de episódios do Livro da Vida. Trata-se de um ciclo concebido para a edificação do público; uma pintura que busca pregar por meio de imagens, mas que o artista realiza com uma leveza que se desvincula do didatismo.
Particularmente admirável é o painel que retrata o momento, tanto engraçado quanto surpreendente, em que Teresa e seu irmão decidem fugir de casa para se tornarem mártires entre os mouros, ela com apenas nove anos. Santa Teresa relata que seu tio encontrou os meninos fugitivos pouco depois. Ele não poderia imaginar que era tarde demais para impedir sua determinação de deixar o mundo em busca de algo maior.
*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:









