Por décadas, Davos serviu como um reflexo confortante da ordem liberal internacional, sendo um espaço onde a elite política e econômica global se reunia para reafirmar que a integração, o comércio e regras comuns eram não apenas desejáveis, mas inevitáveis. A edição de 2026 do Fórum Econômico Mundial marcou o fim dessa ilusão. Não porque tenha gerado um novo consenso, mas precisamente porque tornou impossível continuar a fingir que o antigo ainda persiste. Sob o lema “Um Espírito de Diálogo”, Davos revelou a consolidação de uma ordem internacional baseada na fragmentação.
A cooperação deu lugar a relações transacionais, enquanto a confiança entre aliados históricos foi substituída por cálculos estratégicos de curto prazo. O denominado “espírito de Davos” – a ideia de que a integração econômica levaria naturalmente à convergência política e à estabilidade – deixou de refletir completamente a realidade. A globalização já não é vista como um projeto político compartilhado, mas como uma ferramenta de poder, utilizada de modo seletivo e cada vez mais coercitivo.
O desaparecimento do chamado “Homem de Davos” simboliza de forma clara essa mudança. Em seu lugar, surgiu o “Estrategista Soberano” – um agente para quem a interdependência não é um caminho para a paz, mas uma alavanca de pressão. A eficiência deixou de ser um valor absoluto, sendo substituída por resiliência, controle e vantagem relativa. A própria agenda do fórum refletiu essa transformação. Inteligência artificial, ativos digitais e poder militar tomaram o centro do debate. Temas que outrora foram centrais, como clima, ESG ou equidade de gênero, passaram para um segundo plano, evidenciando uma era que já não existe.
O divórcio transatlântico e o precipício da Gronelândia
Nenhum episódio materializou melhor essa nova realidade do que o confronto aberto entre os Estados Unidos e a Europa sobre a Gronelândia. A insistência da administração americana em tratar a ilha como um “interesse central de segurança nacional” e, implicitamente, como um ativo negociável, expôs a fragilidade das relações transatlânticas de maneira sem precedentes desde o pós-Guerra Fria.
A reação europeia foi tudo menos protocolar. Ao classificar a posição americana como “novo colonialismo”, Emmanuel Macron articulou algo que muitos líderes europeus já pensavam, mas evitavam dizer: a ordem baseada em regras está sendo corroída não apenas por seus adversários, mas também por seus principais fundadores. As ameaças de tarifas de segurança nacional, a resposta europeia com a possibilidade de congelar acordos comerciais e a mediação de última hora para evitar uma escalada econômica não resolveram o fundamental. A relação passou a operar com um déficit estrutural de confiança. Mais relevante foi o efeito estrutural. A Europa parou de tratar a autonomia estratégica como um exercício retórico e passou a vê-la como uma necessidade efetiva. A expressão “realismo baseado em valores”, recorrente nos corredores de Davos, não representa um “novo quadro teórico”, mas uma constatação política: os valores continuam a influenciar a ação externa europeia, mas já não compensam a falta de poder.
O resultado é uma Europa que legisla para se proteger. Exigências de Made in Europe, condicionalidade reforçada para investimento estrangeiro e a aceleração da diversificação de parceiros constituem agora o núcleo da política econômica e europeia. Não por desejo de ruptura com os Estados Unidos, mas porque a previsibilidade americana deixou de ser um dado estrutural.
Diplomacia privatizada e o mercado da paz
Se o episódio da Gronelândia expôs a fragilidade das alianças, a ratificação do chamado Board of Peace para Gaza revelou algo ainda mais profundo: a transformação da diplomacia internacional em um exercício quase corporativo. Concebido como uma entidade com personalidade jurídica própria, financiada por contribuições substanciais e liderada por figuras políticas fora dos canais multilaterais tradicionais, o modelo representa uma ruptura frontal com a lógica das Nações Unidas.
A noção de que a reconstrução de um território devastado pode ser gerida como um turnaround empresarial, com acesso privilegiado reservado àqueles que pagam, não é apenas controversa; é sintomática. Reflete a crença crescente de que as instituições criadas no pós-Segunda Guerra Mundial são excessivamente lentas, politizadas e restritas por vetos para responder às crises contemporâneas. O problema não reside apenas na eficácia do modelo, mas em suas implicações normativas. Ao substituir quadros universais por arranjos transacionais, cria-se um sistema internacional estratificado, no qual influência e legitimidade decorrem da capacidade financeira e da proximidade ao poder, e não do direito internacional ou de mandatos multilaterais. A reconstrução deixa de ser um bem público global e se aproxima de um processo de mercado. Gaza se apresenta como um possível caso-piloto dessa tendência. Dificilmente será o último. O risco estrutural é evidente: um sistema internacional em que a paz se torna negociável corre o perigo de perder seu fundamento jurídico e moral, mesmo ao ganhar em agilidade e pragmatismo.
A Índia como âncora num mundo instável
Em contraste com essa deriva, a aproximação entre a União Europeia e a Índia destacou-se como uma das notas construtivas de Davos. A perspectiva de um acordo de livre comércio abrangendo dois bilhões de pessoas não é apenas relevante do ponto de vista econômico; é estrategicamente geopolítica. Para a Europa, representa uma forma de reduzir dependências (da China, dos Estados Unidos) e de ancorar sua política comercial em uma democracia emergente com claras ambições industriais. Para a Índia, é uma oportunidade de subir na cadeia de valor, diversificar exportações e se afirmar como um polo autônomo em um sistema cada vez mais bipolarizado. O fato de negociações arrastadas durante quase duas décadas terem ganhado novo impulso diz muito sobre o momento atual. A fragmentação global, paradoxalmente, está acelerando compromissos que, em tempos de estabilidade, pareciam politicamente difíceis. A urgência substituiu a complacência.
Inteligência artificial
Se houve um consenso transversal em Davos, foi este: a inteligência artificial deixou de ser uma promessa futura e agora é considerada uma infraestrutura crítica do presente. O debate se afastou do potencial abstrato e se concentrou em capacidade material. Centros de dados, acesso a energia, redes e soberania tecnológica tornaram-se os verdadeiros fatores de diferenciação. A crescente referência à chamada “IA soberana” reflete um receio claro: dados, algoritmos e capacidades computacionais tendem a se transformar em instrumentos de poder e coerção econômica. Ao mesmo tempo, a integração da IA nos processos industriais, frequentemente chamada de “IA física”, começa a redefinir vantagens comparativas, favorecendo economias com bases industriais robustas e acesso energético estável. Esse realismo tecnológico, contudo, convive com tensões políticas evidentes. A disrupção do emprego qualificado, a concentração de ganhos em poucos atores e o risco sistêmico associado a falhas tecnológicas deixaram de ser preocupações teóricas. A promessa de ganhos de produtividade enfrenta claras limitações políticas em sociedades que percebem um desalinhamento crescente entre inovação, distribuição de benefícios e legitimidade econômica.
O regresso dos poderes intermédios
Em um sistema internacional em fratura, a atuação dos poderes intermédios tornou-se decisiva. O Canadá, a União Europeia e várias nações do Sudeste Asiático estão delineando um novo rumo estratégico, enquadrado no que foi denominado em Davos como um “realismo baseado em valores”. Essa abordagem se fundamenta em uma lógica de geometria variável, que prioriza a formação de coalizões específicas para desafios concretos, abandonando ambições universalistas em favor de uma eficácia eminentemente pragmática. Essa postura não reflete cinismo, mas uma aceitação clara de que a ordem internacional anterior dificilmente será restaurada. A resiliência e a capacidade de adaptação passaram a substituir a nostalgia e a dependência de um sistema multilateral em progressiva erosão. Como foi destacado naquele fórum, a nostalgia não constitui uma estratégia viável.
Esse novo paradigma se concretiza em iniciativas voltadas ao fortalecimento da autonomia estratégica. A criação de corredores logísticos dedicados a minerais críticos ou a formação de clubes de compradores exemplificam a priorização da segurança operacional, mesmo quando isso implica sacrificar modelos de eficiência teórica. A ênfase está na consolidação de capacidades internas e em uma ação coletiva coordenada, partindo do princípio de que a ausência nos centros de decisão equivale a uma perda de influência efetiva. Assim, os poderes intermédios buscam preservar seus valores e interesses por meio do fortalecimento do poder material e da promoção de formas de cooperação flexíveis, pragmáticas e orientadas para resultados, ajustadas ao exigente contexto internacional cada vez mais fragmentado e competitivo – como afirmou o primeiro-ministro Mark Carney, “se não estivermos na mesa, estaremos no menu”.
Um interregno desconfortável
Davos 2026 não marcou uma transição, mas sim uma ruptura definitiva. O intervalo entre o esgotamento do modelo antigo e a indefinição do novo agora é governado pela frieza das relações de poder. O “espírito de diálogo”, embora incapaz de curar as fraturas estruturais, desempenhou o papel vital de encerrar a era da negação: a fragmentação não é um desvio, mas sim a nova arquitetura global. Diante da evidência de um mundo menos cooperativo, a questão existencial deslocou-se da harmonia para a sobrevivência. O desafio imediato é garantir um limiar mínimo de estabilidade por meio do reconhecimento de limites e da reconstrução da legitimidade institucional. Neste novo equilíbrio imperfeito, a ingenuidade deixou de ser uma opção; tornou-se um risco sistêmico.









