As infraestruturas hídricas tornaram-se alvos estratégicos em conflitos armados e disputas locais. Em 2024, foram registrados mais de 400 incidentes violentos relacionados ao acesso, controle ou uso da água.
A violência associada aos recursos hídricos está crescendo a um ritmo sem precedentes. Em 2024, houve 420 episódios de violência em que a água foi central no conflito — sendo alvo direto, fator desencadeador ou instrumento de guerra. Esses dados são de uma análise do Pacific Institute, citada pelo “The Guardian”, que aponta um aumento de quase 20% em comparação a 2023 e de 78% em relação a 2022.
A pesquisa baseia-se na Water Conflict Chronology, a mais abrangente base de dados de acesso aberto sobre violência relacionada com a água no mundo. Criada e mantida pelo Pacific Institute, esta base contém mais de 2.750 incidentes documentados desde o ano 2000, quando apenas 24 casos foram relatados globalmente. A última atualização foi publicada em novembro de 2025.
“O crescimento contínuo da violência envolvendo recursos de água doce sublinha a necessidade urgente de atenção internacional”, alerta Peter Gleick, cofundador e pesquisador sênior do instituto em comunicado. “Garantir o acesso universal à água potável e proteger os sistemas civis de abastecimento, como exige o direito internacional, é essencial para conter essa escalada.”
Infraestruturas sob ataque
De acordo com o relatório, 61% dos incidentes registrados em 2024 envolveram ataques a infraestruturas de água, incluindo estações de tratamento, redes de distribuição, barragens e sistemas energéticos essenciais para o funcionamento do abastecimento. Outros 34% dos casos foram decorrentes de disputas pelo acesso ou controle da água, enquanto 5% envolveram o uso intencional da água como arma, por exemplo, através de inundações provocadas ou do corte deliberado do fornecimento a populações civis.
Embora os conflitos relacionados à água tenham sido reportados em todas as principais regiões do globo, a maior concentração de casos ocorreu no Oriente Médio, Sul da Ásia e África Subsaariana. Essas regiões continuam a dominar as estatísticas, refletindo tensões estruturais relacionadas à escassez hídrica, crescimento populacional, instabilidade política e mudanças climáticas.
Guerras e conflitos locais
Os dados também revelam que a maioria dos incidentes não envolve Estados em confronto direto, mas sim conflitos subnacionais, frequentemente entre agricultores e pastores, comunidades urbanas e rurais, grupos religiosos ou clãs familiares. Esses episódios superam significativamente os conflitos transfronteiriços entre países.
“Em Gaza, Israel sistematicamente transformou a água em arma”, disse Joanna Trevor, responsável pela área de segurança hídrica da Oxfam, ao The Guardian. “Sistemas de água e fábricas de dessalinização foram deliberadamente atacados, e pessoas foram atacadas enquanto aguardavam ou faziam fila por água.”
A Organização das Nações Unidas alerta que a procura global por água doce deverá superar a oferta em 40% até 2030. Institutos ligados à ONU classificam o cenário atual como uma era de “falência hídrica”.

Ciberataques e defensores ambientais
Uma das tendências emergentes destacadas pela atualização do relatório é o aumento de ciberataques a entidades responsáveis por sistemas de água, principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Inquéritos recentes identificaram centenas de tentativas de invasão em sistemas que controlam o abastecimento de água potável e o tratamento de águas residuais.
Na ficha informativa é mencionado que “mais de três quartos das 350 empresas de água e eletricidade americanas e britânicas inquiridas relataram ter sido alvo de ciberataques em 2024, com a maioria enfrentando sérias interrupções ou corrupção e destruição permanente de dados ou sistemas”.
O relatório também destaca o aumento da violência contra ativistas ambientais e líderes comunitários que defendem os recursos hídricos, particularmente na América Latina. Esses casos agora passam a ser integrados de forma sistemática na base de dados.
“Nossos dados mostram que os sistemas de água, os recursos naturais e as pessoas que os protegem estão cada vez mais expostos à violência”, afirma Morgan Shimabuku, pesquisadora sênior do Pacific Institute em comunicado. “É fundamental garantir que o desenvolvimento econômico não comprometa a sustentabilidade da água nem a segurança das comunidades que dela dependem.”
Em um contexto de agravamento das mudanças climáticas e de crescente pressão sobre os recursos naturais, a água está se afirmando não apenas como um bem essencial à vida, mas também como um novo epicentro de conflitos globais.










