Em pouco mais de dez anos, Santa Maria Maior perdeu 28% da população residente. É, por isso, a freguesia de Lisboa mais pressionada pelo turismo. Mas ainda há quem more na Baixa. Quem fica, encara a saída como algo indesejado, mas provável – afirmam que a vida familiar está ameaçada pela perda do comércio de proximidade e pela massificação do turismo. Nesse cenário, um grupo de moradores decidiu resistir: no final de 2024, cinco deles uniram-se “por carolice” e formaram uma associação que atualmente conta com centenas de pessoas dispostas a lutar pela recuperação da qualidade de vida na área.
É a Associação de Moradores e Amigos da Freguesia de Santa Maria Maior (AMAS-M²). Representam a Baixa, Alfama, Castelo, Chiado e Mouraria.
O ruído e a “carolice” dos vizinhos
Independente de partidos políticos e com adesão livre, a AMAS-M² tem como objetivo defender os interesses dos moradores e criar um espaço mais acolhedor, seguro e vibrante para todos.
A AMAS-M² surgiu em resposta a um problema comum entre os que ainda residem na freguesia – o ruído. No centro histórico, a qualidade de vida está a deteriorar-se à medida que a atividade turística cresce. É um ciclo vicioso: mais turistas nas ruas significam menos mercearias de bairro e mais esplanadas, trazendo mais ruído e, por consequência, piorando a qualidade de vida.
A turistificação está levando ao esvaziamento populacional. A Baixa e Alfama estão cada vez mais vazias. No entanto, Salomé Gonçalves, Cláudia Felício e Rui Barata, moradores há mais de duas décadas, resistem. Eles são três dos cinco fundadores da associação, com idades entre os 40 e os 70.
Rui Barata, que vive na Baixa com a família, explica que a associação nasceu “por carolice” e pela experiência comum do ruído.
— “A partir de março e até ao fim de setembro não dormimos”, diz Salomé. — “Também não exageremos. Dormimos segunda, terça, quarta e quinta,” responde Cláudia, que vive por cima de duas esplanadas.
A associação que os três ajudaram a fundar no final de 2024 conta hoje com cerca de 400 associados. Sua origem está em uma mailing list e em grupos no Facebook, onde as queixas frequentemente se perdiam. Faltava alguém para dar a cara, dizem.
Agora, a constituição formal da associação garante-lhes protagonismo e reúne queixas e propostas em um único interlocutor. A associação emite pareceres, está construindo sua própria visão de futuro para a freguesia e dialoga diretamente com a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal de Lisboa.
Melhor espaço público, pior qualidade de vida?
As obras de requalificação dos espaços públicos em um bairro podem significar bons presságios: mais áreas para passear e socializar. Contudo, trazem desafios, como o aumento do preço imobiliário e a expulsão da população residente, que não consegue suportar os novos custos.
Um fenômeno similar ocorreu na frente ribeirinha de Marvila, conhecido como “gentrificação verde”: novos projetos imobiliários e a construção do Parque Ribeirinho Oriente não apenas transformaram o espaço público, mas também elevaram os preços do mercado imobiliário.
No centro histórico, um efeito semelhante é evidente. “Foi uma mais valia para nós,” diz Cláudia Felício, vice-presidente da associação. Ela vive na área com a família desde 2005 e lembra como, antes das intervenções, o local era caracterizado por armazéns e não havia acesso ao rio.
Entretanto, ela explica que nem tudo são boas notícias. “Com as obras, veio o turismo.” Cláudia convida-nos a ver a vista de seu apartamento, onde a beleza da nova paisagem se contrasta com o burburinho e o fluxo de turistas.
A requalificação do espaço público aumentou os preços das habitações e também introduziu um paradoxo: enquanto os residentes ganhavam acesso a espaços públicos de qualidade, as esplanadas proliferaram.
Junto ao rio, surgiram quiosques e eventos com música. O resultado? Um aumento do barulho e da agitação nas ruas, impactando a rotina dos habitantes.
“Já sabemos – requalificam o espaço público, fazem uma praça ou um jardim e depois vêm as esplanadas. É barulho e consumos.”
Uma vida familiar “cada vez mais difícil”
A atividade turística está secando o comércio local. “Antes, tínhamos seis padarias; agora temos uma. O mesmo se aplica a lavandarias e outros pequenos negócios, que fecharam”, comenta Cláudia.
Os moradores agora enfrentam dificuldades para conseguir produtos básicos no bairro, que agora é dominado por restaurantes e lojas de souvenirs. O resultado é uma limitação nas rotinas diárias. Para Cláudia e Salomé, o Noca’s Café é um dos poucos lugares restantes onde podem tomar um café.
Paulo Santos, que gere o Noca’s Café há mais de 25 anos, tem testemunhado a transformação do comércio na área, associada ao aumento dos preços do imobiliário.
“A vida familiar hoje tornou-se muito difícil. Para comprar coisas básicas, tenho que sair de carro”, relata Cláudia.
Cláudia, Salomé e Rui estão cientes do esvaziamento da freguesia e expressam seu apego pelos bairros onde vivem, mas também a pressão para deixar a área devido às mudanças profundas que presenciam ao longo da última década.
“Estamos sempre à procura,” admite Cláudia, que tem sua casa à venda. Rui vai “resistindo”, mas revela: “minha mulher também quer sair daqui.”
Uma visão para a freguesia: o que propõe a nova associação de moradores?
Estamos na freguesia mais pressionada pelo turismo em Lisboa. Em 2022, para cada 10 habitações, havia sete unidades de Alojamento Local (AL).
Os números apresentados pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior ajudam a entender os impactos da concentração de turismo: 35 hotéis e 4425 unidades de AL.
Salomé Gonçalves, presidente da AMAS-M², argumenta que há uma “passividade da Câmara em regulamentar” as atividades turísticas.
Por enquanto, a associação realiza reuniões mensais, e o contato com fregueses é feito por e-mail, onde todos podem se associar através de um formulário disponibilizado.
Para fomentar a interação além do espaço digital, os membros da diretoria estão organizando a primeira reunião presencial com os associados para fevereiro.
Curiosamente, a reunião acontecerá na Academia Recreio Artístico (ARA), a coletividade mais antiga de Lisboa, que poderá ter que abandonar sua sede em 2027 devido à não renovação do contrato de arrendamento.
A quantidade de associados ainda não reflete a realidade dos diferentes bairros da freguesia. Na Mouraria, por exemplo, “temos dois ou três associados”, mas a associação se compromete a corrigir isso.
Apesar de ainda estar nos seus primeiros passos, a associação já está moldando sua visão de futuro, tendo sido recebida pela Junta de Freguesia e pela Câmara Municipal.
Seu objetivo principal é a recuperação da qualidade de vida para os fregueses, com propostas concretas. Desejam um espaço mais acolhedor, com menos ruído, e um espaço público de qualidade que possa contrabalançar a onda turística.
Para a mobilidade, já emitiram parecer em favor de restrições à circulação de automóveis de não residentes e aumento das áreas pedonais.
A associação expressa resistência à “mercantilização” e “privatização” do espaço público, reclamando contra a ocupação exclusiva por esplanadas. Cláudia Felício detalha que a proposta visa restringir o trânsito no centro histórico, limitando-o a moradores, táxis e transportes públicos.
No final de novembro, a associação apresentou à Câmara Municipal de Lisboa uma petição para “menos trânsito e melhor qualidade do ar”, que já conta com mais de 800 assinaturas. A proposta inclui a criação de uma Zona Zero Emissões e outras melhorias voltadas para a mobilidade e o espaço público.









