Vítor Fortes experimentou a solidão de forma intensa, transformando-a na essência de diversas obras e exposições. Essa experiência parece ter influenciado sua decisão de partir de maneira solitária, anônima e em silêncio. Em fevereiro do ano passado, foi encontrado sem vida em seu apartamento na Póvoa de Santo Adrião, onde lutava contra uma doença prolongada. Reconhecido como uma figura proeminente na arte portuguesa do final do século XX, Fortes gozava de prestígio entre seus pares, tanto em Portugal quanto no exterior. No entanto, optou por ‘desaparecer’, distanciando-se de amigos, galeristas e conhecidos.
Nos últimos quatro décadas, tornou-se um enigma.
Em 2017, Vítor Fortes entrou em contato com a Cáritas Diocesana de Lisboa, manifestando o desejo de fazer um testamento em favor da instituição. Carmo Diniz, diretora executiva da Cáritas, relata que o artista decidiu legar todo o seu acervo à organização, que agora se torna guardiã desta história enigmática e do legado artístico que deve ser resgatado, contribuindo assim para a narrativa da arte contemporânea portuguesa. Mas a escolha da Cáritas permanece um mistério; “Ele nunca justificou. Não parece ser católico, não quis um enterro católico, e o único livro religioso que tinha era Confissões de Santo Agostinho”, apesar de ter feito a primeira comunhão.
Fortes deixou à Cáritas um acervo artístico (poucas obras, catálogos de exposições e recortes de jornais), além de bens pessoais (decoração, discos, e uma máquina fotográfica) e sua casa na Póvoa de Santo Adrião, que foi repassada à Comunidade Vida e Paz para a promoção de programas de reinserção a pessoas em situação de vulnerabilidade social.
“Sentimos que recebemos uma missão para combater a solidão”, afirma Carmo Diniz.
O escriturário do metro de Lisboa que se tornou artista
Nascido no Funchal em 11 de junho de 1943, Vítor Fortes iniciou sua carreira como escriturário no Metro de Lisboa. Sua biografia é marcada pela produção artística e pelos estudos em Artes Plásticas. Foi bolseiro da Fundação Gulbenkian, onde, entre 1969 e 1971, frequentou a Slade School em Londres, além de ter trabalhado em Paris com o suporte da mesma fundação.
Realizou várias exposições individuais em Portugal e participou de numerosas exposições coletivas ao redor do mundo, indo do Japão ao Brasil, passando por cidades como Paris, Londres, Barcelona e Nova Iorque.
“Ele era muito cerebral, tanto na vida quanto na obra”, descreve Arlete de Brito, da Galeria 111, que colaborou com Fortes por vários anos. “Era respeitado por seus contemporâneos e seu trabalho ganhou notoriedade”, confirma a galerista, que não teve mais notícias de Vítor Fortes desde o início da década de 80, sem compreender o motivo desse sumiço. “A última devolução de obras foi em 16 de novembro de 1983, de acordo com os registros da Galeria”, relata a amiga, enfatizando que essa ausência não foi vista apenas como uma perda artística.
Antes de se afastar intencionalmente do mundo que o cercava, Vítor Fortes foi uma presença ativa no cenário artístico de sua época. Expôs no Museu Gulbenkian e em Paris, além de criar um baixo-relevo para a sede da Fundação. Manteve contato com diversos artistas portugueses, como Alice Jorge e Eduardo Nery, e suas exposições sempre receberam críticas muito positivas de especialistas como João Miguel Fernandes Jorge, Egídio Alves e Sousa Neves. Sua obra foi reconhecida internacionalmente, recebendo prêmios como o Internacional de Gravura da X Bienal de São Paulo, a ‘Palette D’Or’ do Festival Internacional de Pintura de Cagnes e o galardão “Ville de Liége”, conquistado em 1969 na I Bienal de Liège, além de ter exposto no Museu de Arte Moderna de Tóquio em 1976.
Em 1972, durante uma exposição na Galeria 111, em Lisboa, e na Zen, no Porto, Vítor Fortes fez a transição da gravura para a pintura. Fernando Pernes escreveu sobre essa nova fase artística:
“O repúdio de qualquer compromisso de ordem sentimental, psicológica ou imediatamente simbólica era, então, legível na obra de Vítor Fortes como gravador. (…) Ao transitar da gravura para a pintura, Vítor Fortes acrescentou à clareza da realidade gráfica e à harmonia matemática, uma densidade encantatória expressa em um envolvimento luminoso que emana de suas telas.”
Sua obra, que sempre rejeitou a arte figurativa, enfatiza a geometria, o rigor da forma e a simetria. Álvaro Egídio acentuou:
“Com Fortes, nos deparamos com uma pintura que é, simultaneamente, uma representação de uma ideia, uma análise levada ao extremo dos mecanismos dessa representação, uma visualização plástica de uma semiologia e uma reflexão clara e incisiva sobre o funcionamento conceitual e perceptivo da imagem.”
Numa “linguagem muito rigorosa, clara e enriquecedora”, como definiu Egídio, Vítor Fortes buscou criar “projetos para miragem e/ou exercícios sobre o exercício da solidão”, o que motivou uma de suas muitas exposições. Ele trabalhou e vivenciou a solidão de maneira profunda, escolhendo-a como parte de sua vida e, por fim, de sua morte.
Na casa de Vítor Fortes: a vida por detrás do artista
Poucos detalhes sobre a vida pessoal de Vítor Fortes podem ser destacados, pois ele não guardava cartas ou registros. Porém, sua casa, onde faleceu, fornece pistas sobre quem foi esse homem descrito como “reservado”, conforme afirmam o advogado da Cáritas e pessoas próximas. Os vizinhos foram os primeiros a notarem sua ausência e reportaram a morte de Vítor Fortes em sua residência.
Carmo Diniz adverte que tudo dentro da casa estava tão organizado quanto o acervo que ele deixou à Cáritas.
“Através dos livros, podemos inferir que ele seria um homem de esquerda, ativista, embora reservado, e com interesse pela Rússia.”
Enquanto o inventário do espólio não se conclui, não há registros de pinturas do período em que se resguardou naquela casa. “É evidente que ele transpôs sua veia artística para o ambiente, onde as estantes, molduras e até a cabeceira da cama pareciam ter sido feitas por ele, além de manter uma mini-oficina com ferramentas de gravura”, revela a diretora executiva.
Sendo filho único, solteiro e sem descendentes, o mistério persiste em relação ao porquê de seu espólio ter sido legado à Cáritas, que assume essa responsabilidade em seus 50 anos de existência, a serem celebrados neste ano: em junho, uma exposição biográfica de Vítor Fortes será lançada, focando em sua vida e em sua relação com a solidão.
A Cáritas Diocesana de Lisboa expressa gratidão pela generosidade de Vítor Fortes, recebendo como missão continuar a atenção e a sensibilidade sobre a solidão.









