Reflexões de um desconhecido em outubro de 1910: a insurreição republicana observada de uma janela do Alto Bairro

Reflexões de um desconhecido em outubro de 1910: a insurreição republicana observada de uma janela do Alto Bairro

“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos da cidade. Com uma abordagem que mescla historiografia e investigação jornalística, todos os meses publicamos uma história que integra a memória cultural de Lisboa, contribuindo para a sua biografia. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Poucos dias após a proclamação da República, na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, um empregado anônimo de uma firma na Baixa fez um esforço para escrever sobre os eventos ocorridos na capital. Em sete páginas de caligrafia elegante e quase sem rasuras, utilizou papel pré-impresso da “Commercio Frigorífico Limitada”, que estava localizada na rua dos Douradores.

Embora aparentemente se trate de uma carta (ou de sua cópia), pode também se categorizar como um memorial. O destinatário não é mencionado, e o manuscrito não tem assinatura ou data. Foi catalogado no Gabinete de Estudos Olisiponenses como “relato de um anônimo sobre a implantação da República”. No entanto, há algumas pistas no texto inédito, como o fato de que o autor trabalhava na rua dos Douradores, morava no Bairro Alto com sua esposa, Ester, era adepto dos ideais republicanos, abominava vírgulas e redigiu a carta em 13 de Outubro de 1910. Curiosamente, menciona que, nesse dia, foi extinta a Guarda Municipal, conforme publicado no Diário do Governo. Nem tudo, portanto, é obscuro nesta narrativa.

“Quando um doido se lembrou de matar” Miguel Bombarda

A última correspondência que enviou ao mesmo destinatário ocorreu antes das eleições gerais de agosto de 1910, as últimas sob a monarquia constitucional. Ele se preparava para relatar os acontecimentos “desde as eleições de deputados”, observando que “foram uma grande derrota da monarquia, pois o partido republicano elegeu 14 deputados”. O apoio ao Partido Republicano aumentou, especialmente nas grandes cidades, duplicando sua presença no parlamento, embora o rotativismo se mantivesse, com a vitória dessa vez indo para os regeneradores.

A atenção do nosso autor anônimo inicial recaiu sobre o Tejo e a Armada, relatando que o Governo de Teixeira de Sousa decidiu que os barcos só deveriam levantar âncora dos cais da cidade “para evitar que as guarnições se envolvessem em quaisquer motins que surgissem”. Apenas um rebocador, o Lidador, foi autorizado a permanecer, “que como sabes não possui artilharia”.

A ordem governamental não teve efeito, pois a Carbonária já tinha convertido muitos dos marinheiros. O narrador, sem esse conhecimento, pensava que “tudo estava em sossego”, aguardando a reabertura das Cortes, até que “um doido se lembrou de matar um dos novos deputados, o Dr. Miguel Bombarda”. Isso aconteceu nas vésperas de uma revolução, a 3 de Outubro, resultando na morte sem honra de um médico republicano e maçom, que estava envolvido na conspiração republicana.

O evento ocorreu às duas da tarde do dia 3, uma segunda-feira, e, por volta das cinco, começaram as confrontações no Rossio entre a polícia e o povo furioso. A revolta popular eclodiu com a notícia da morte de Bombarda, gerando conflitos na Baixa, que logo se transformaram em tiroteios. Às 20 horas, ao sair do trabalho na rua dos Douradores, o narrador percebeu que “os revólveres já estavam em ação”. Acelerou o passo e subiu a colina de São Roque.

Nessa noite, mal conseguiu dormir. Foi acordado às cinco da manhã pelo som de disparos: “Parecia o fim do mundo.” Após o silêncio, ouviu gritos e avistou “um homem caído no chão com duas balas no corpo e outro fugindo com uma perna ferida”.

Entretanto, a imagem não o perturbou muito. Era terça-feira, dia de trabalho, e mesmo com disparos de canhões e morteiros ainda ressoando, ele se arrumou, almoçou (naquele tempo, o ‘petit-déjeuner’ ainda estava no nosso vocabulário) e saiu de casa, decidido a trabalhar na firma de “caves frigoríficas para conservação de carnes, peixes, frutas, flores, hortaliças e outros itens alimentícios”.

Chegando à rua de São Roque (que ganharía o nome de rua do Mundo em homenagem ao jornal que ali tinha sede, hoje conhecida como rua da Misericórdia), ficou “aterrorizado” ao ver elementos da Guarda Municipal “emboscados” nas travessas, prontos para atacar. Diante da indecisão entre ir trabalhar ou voltar para casa, decidiu “trazer coragem” e continuou na direção da Baixa, sendo orientado por um guarda sobre o fluxo de pessoas e seu caminho a seguir.

“Cercado” na Baixa

Já no Rossio, teve um choque ao ver soldados da Infantaria 5 e Caçadores 5 com metralhadoras postos nas embocaduras das ruas ao redor. A essas tropas insurgentes, juntou-se mais tarde uma coluna de Carbonários planejando um ataque ao quartel do Carmo, a sede da Guarda Municipal. A oeste, no quartel da Armada, os marinheiros abriram fogo de forma tão precisa que um esquadrão inteiro foi desmantelado, e até os cavalos fugiam em desespero.

O relato do que aconteceu na zona de Alcântara era distorcido e reproduzia o que o narrador havia lido nos jornais: o quartel dos marinheiros foi tomado pelos insurgentes, mas, no dia 4, estaria cercado por forças do Exército em número muito maior. Uma ordem de última hora impediu que os monárquicos conseguissem retomar o controle, e os insurgentes contaram com a ajuda de anarquistas que dispersaram a cavalaria do bairro com bombas.

Quando o clima começou a acalmar em Alcântara, os canhões começaram a disparar na Avenida. As baterias de Queluz e Infantaria 2 posicionaram-se perto da Penitenciária e começaram a atacar as guarnições de Artilharia 1 e Infantaria 16, acampadas na “alta da Avenida”, que ainda se chamava Rotunda, e ainda não se referia ao Marquês de Pombal.

O autor não menciona, mas quando esse lugar se tornou um dos frontes de combate, pouco mais de dezenas de militares e civis estavam lá, sem comando, mal armados e cercados por monárquicos. Horas depois, no entanto, a Rotunda foi reforçada com mais civis, principalmente Carbonários, e designaram um líder, o comissário naval António Machado Santos.

No Rossio, a defesa era constante, mas ocasionalmente uma granada caía na praça. O narrador, sendo testemunha do que aconteceu, relatou que por volta das quatro da tarde, uma granada atingiu um prédio, causando danos significativos e levando os soldados a se refugiarem na rua da Betesga, pequena e estreita, que rapidamente se tornaria um campo de batalha.

No dia 4, o empregado da “Commercio Frigorífico Limitada” esteve “cercado”, impossibilitado de atravessar a Baixa, observando a revolução desde a primeira fila. Na época, a rua onde trabalhava pertencia ao 2º bairro da cidade, um dos menos populosos, com cerca de 82 mil residentes, dos quais três mil eram imigrantes de países como Espanha, Brasil, Alemanha e Inglaterra (nesta ordem).

Na capital, segundo o censo de 1911, habitavam cerca de 435 mil pessoas (um número não muito distante do atual: 575 mil).

Um passeio para ver os destroços

De volta à Rotunda, as tropas de Queluz e Infantaria 2 foram superadas pelos revoltosos, sendo uma parte delas desmontada, entregando até dois canhões aos insurgentes. No quartel dos Marinheiros, a oficialidade deixou seus homens sob a supervisão de civis armados, que se divertiram durante a noite “destruindo quase completamente o palácio das Necessidades”. Mas esta tarefa não coube apenas aos civis.

Do Tejo, os cruzadores Adamastor e São Rafael bombardearam o palácio, danificando sua fachada e desalojando seus inquilinos (a família real). Depois, dirigiram-se ao Terreiro do Paço para reforçar a retaguarda das forças na Baixa e na Rotunda.

Ao cair da noite do dia 4, presume-se que o narrador conseguiu atravessar as barricadas “por uma pequena abertura” na rua dos Capelistas (que pouco depois seria renomeada rua do Comércio, após a revolução toponímica da I República) e, após o jantar, passou uma noite especial em família observando o “curioso tiroteio” com sua esposa, Ester. Encostados na janela, ouviam “os tiros de canhão da Avenida” e as metralhadoras do Rossio respondendo com “fuzilaria assustadora” – “não sei se você está ciente que [os rebeldes, supõe-se] têm metralhadoras automáticas capazes de disparar 600 tiros por minuto” – e assim continuaram a ouvirem disparos durante a noite. “Naquela época em São Roque, os Lanceiros 2 e Guarda Municipal, entrincheirados nas ruas e jardins, faziam fogo para a Avenida, enquanto os canhões de Queluz disparavam do Príncipe Real para o Terreiro do Paço.”

Em determinado momento, o casal refugiou-se “na casa mais interior possível”, pois a Artilharia 1 disparou “um fogo tão intenso” que provocou uma “chuva enorme de estilhaços” e vidro que caíam sobre a cidade. A intensidade durou “perto de uma hora”. Quando a calmaria chegou, o narrador olhou pela janela e avistou soldados de Lanceiros na rua da Atalaia.

Perto das seis e meia da manhã do dia 5, “tudo se aquietou”, ou pelo menos os combates cessaram, pois já se ouvia gritos de “vitória para a República” e a bandeira vermelha e verde foi erguida no Castelo de São Jorge. “Todos começaram a sair às ruas para ver de perto os estragos da batalha.” O narrador e Ester também saíram, mas o cenário era “simplesmente horrendo”: “algerozes furados, candeeiros quebrados na rua de São Roque, pedaços de carne espalhados pela calçada em frente ao jornal Mundo.”

No Rossio, na rua do Príncipe (hoje Primeiro de Dezembro) e na Avenida, “seria insuficiente qualquer descrição do que ocorreu”. “Tudo” incluía, conforme a sensibilidade do anônimo, mobiliário urbano, patrimônio edificado e natural, além de vidas humanas. “O sangue se espalhou de tal modo que em alguns lugares parecia que o sangue havia se acumulado em massa, como na frente do café Suisso, onde o mármore estava cravejado de furos, e o mesmo se aplicava ao prédio da Avenida que apresentava enormes buracos que poderiam acomodar um homem deitado, árvores enormes da Avenida com buracos cruentes, e uma granada que atingiu um telhado, provocando um incêndio que consumiu tudo o que havia para queimar.”

O número de espectadores aumentou tanto que, em determinado momento, a artilharia recomeçou a disparar para dispersar a multidão. Todos correram de volta para suas casas. Assim fez o casal. A República já havia sido proclamada por José Relvas na varanda da Câmara Municipal, mas o narrador não menciona esse fato, optando por destacar que nos dias seguintes à batalha a cidade retornou à sua rotina: os teatros reabriram, tendas e bancas das feiras foram montadas novamente, os trens e elétricos voltaram a circular. No Rossio, os únicos confrontos eram entre bandas militares que duravam toda a noite.

“RIP finou-se a monarquia”

Nos dias que se seguiram, foram realizadas batidas em busca de padres, monárquicos, policiais e guardas municipais. A imprensa republicana divulgava boatos variados e elaborados sobre o clero, com ênfase nos jesuítas. O narrador apoiou e reproduziu alguns desses rumores, particularmente aqueles que afirmavam que os religiosos se escondiam nos subterrâneos da cidade, movendo-se através de túneis armas e munições. Ele mencionou “alçapões” encontrados no convento de Campolide, “disfarçados com lajes e portas de pedra”.

No cenóbio de Quelhas, que estava vazio, havia até “uma santa com a mão em posição de benção, e assim que levantasse a mão, portas falsas se abriram, permitindo a saída de 18 frades, que foram imediatamente presos.” A operação do Governo considerava barricar outros túneis “com enxofre e alcatrão” para impedir a saída de evadidos.

Na Ericeira, D. Manuel II e a família real embarcavam “em dois buques das armações do Catatau em direção ao iate Amélia que os levou a Gibraltar.” A partida para o exílio foi “tão apressada” que mal tiveram tempo para “levar roupas e dinheiro”, irem apenas com o que vestiam. “RIP [Rest In Peace, Descansa em Paz] finou-se a monarquia.” O país esperava agora pelos “progressos da nova civilização”. Esperemos que o nosso narrador não tenha tido um desgosto.

FONTES:
Gabinete de Estudos Olisiponenses, manuscrito, maço 1510 – “relato de anônimo sobre a implantação da República”.
Vasco Pulido Valente, “O poder e o povo”, Lisboa, Alêtheia Editores, 2010.
Hemeroteca Digital: Ilustração Portuguesa, nº 243, 17 de Outubro de 1910

A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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