O panorama para 2026 apresenta-se relativamente favorável, começando com a revisão em alta das previsões de crescimento para a zona euro pelo BCE, embora haja uma leve desaceleração em comparação com 2025 (de 1,4% para 1,2%).
No caso de Portugal, há consenso entre as diversas instituições de que o PIB crescerá ligeiramente acima dos 2%, um valor superior ao verificado no ano anterior. Apesar de um ambiente externo não muito dinâmico, a demanda interna deve permanecer robusta, impulsionada por algum estímulo orçamental na fase final de implementação do PRR.
No entanto, existem inúmeros riscos em perspectiva, principalmente de origem externa. É importante ressaltar que os últimos anos foram marcados por grandes incertezas, que, apesar de alarmantes, não se concretizaram como se temia, como foi o caso do aumento acentuado das tarifas nos EUA.
Geopoliticamente, enfrentamos a questão das invasões de drones russos no espaço da UE, o que pode abrir uma caixa de Pandora. As ameaças de Trump ao estatuto da Gronelândia também são preocupantes, pois emanam de um aliado. Ademais, não podemos ignorar o conflito latente entre os EUA e a Venezuela, além das movimentações da China nas proximidades de Taiwan.
Mais próximo de nós, há uma crise política e orçamental em França que dificulta decisões cruciais na UE, em um momento de encruzilhada política, econômica e tecnológica. O aumento significativo das dívidas públicas (com a exceção notável de Portugal) ameaça desencadear uma crise a médio prazo, e a paralisia política francesa pode ser o gatilho para esse desfecho.
As profundas perturbações trazidas pelo novo presidente dos EUA (tarifas, desrespeito pela independência da Reserva Federal, repressão da imigração e uma falta geral de respeito por leis e regulamentos) poderiam ter colocado o país à beira de uma recessão. Isso não ocorreu, em parte, devido à coincidência de uma expansão robusta da IA, com investimentos extraordinários em chips, centros de dados, entre outros. Esse movimento tem-se alimentado por valorizações excepcionais nas bolsas, que impulsionam a economia americana, onde cerca de três quartos da população investem, direta ou indiretamente, nos mercados de ações.
A cada dia surgem mais alertas sobre a possibilidade de estarmos diante de uma bolha especulativa na IA, mas isso só será confirmado a posteriori. Uma coisa parece clara: se ocorrer uma “correção” no mercado, as consequências poderão ser muito mais severas do que aquelas provocadas pelo estouro da bolha “dotcom” em 2000. Um acentuado abrandamento da economia dos EUA terá impactos evidentes na Europa, possivelmente exacerbados por manobras de distração que Trump tentará utilizar para evitar responsabilidades. Um colapso em Nova Iorque resultaria em uma clara redução das taxas de juro pelo Fed e em uma desvalorização do dólar, levando à apreciação do euro e a dificuldades para os exportadores europeus.
Em resumo, 2026 pode até ser um ano positivo, mas será necessária uma boa dose de sorte para que isso aconteça. Para aqueles que acreditam que a sorte requer esforço, seria ideal que a UE realizasse o trabalho necessário que tem procrastinado e se preparasse para as transformações em curso, especialmente conforme sugerido no relatório Draghi.









