Quem foi o cronista carioca enamorado por Lisboa que batiza uma praça no Areeiro?

Quem foi o cronista carioca enamorado por Lisboa que batiza uma praça no Areeiro?

Praça do Areeiro e Alameda da Fonte Luminosa: duas ruas de Lisboa repletas de um trânsito intenso. Talvez poucos dos lisboetas tenham notado, do lado direito de quem desce uma pequena praça ajardinada, uma joia escondida em meio à agitação. É a Praça João do Rio, carregada de histórias a serem contadas.

No coração da praça, cercada por árvores, está o busto do escritor brasileiro que proclamou seu amor pelos portugueses. Aqui, ao número 11, vive Manuel Alegre, e logo à frente encontra-se uma placa de pedra com um poema seu. A praça abriga ainda dois parques infantis, um pequeno lago e bancos dispostos para descanso.

Mas, afinal, quem foi João do Rio?

Poucos portugueses e brasileiros, de fato, conhecem este nome. É curioso observar que são raros os escritores brasileiros que gozam de tal homenagem em Lisboa – além da estátua de Machado de Assis voltada para a igreja das Mercês, somos deixados na dúvida sobre como o Eça de Queiroz brasileiro se iguala a um nome tão esquecido quanto João do Rio.

Um jornalista fora do padrão

Paulo Barreto, esse era seu nome de nascimento, começou sua vida em 1881 no Rio de Janeiro, onde faleceu aos 41 anos de um infarto. Com origens modestas, conquistou uma posição de destaque e tornou-se um dos jornalistas mais reconhecidos de seu tempo. Era uma figura inconfundível nos círculos literários, famoso por seu estilo dândi e por sua aparência corpulenta. Sua tradução do livro O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, levantou questões sobre sua sexualidade, muitas vezes alvo de comentários pejorativos.

João do Rio era mestre na crônica, mas também sofreu muito com o preconceito, homofobia, racismo e gordofobia de seus pares; seu contemporâneo Lima Barreto (1881-1922) o descreveu de forma cruel, fazendo alusão a sua aparência física. Embora isso tenha contribuído para seu esquecimento, não foi a única razão.

Inovador no campo do jornalismo, ele se destacou por sua abordagem direta, conversando com o público em vez de se basear apenas em relatos de terceiros. Tornou-se o que chamamos de “repórter andarilho”, refletindo isso em sua obra mais famosa, A alma encantadora das ruas, que retrata de maneira vívida a cidade do Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, uma cidade apaixonada por Paris

No final do século XIX e início do XX, o Rio de Janeiro, junto com Lisboa e o resto do mundo, estava imerso na cultura da Belle Époque parisiense. No entanto, o Rio se proclamava como a “Paris dos trópicos”, em uma busca por um status semelhante ao da capital francesa. O Theatro Municipal, construído à imagem da Opéra Garnier, é um reflexo dessa estreita relação entre as duas cidades.

Na obra de João do Rio, encontram-se muitos aspectos dessa influência, com o uso de expressões francesas da época e relatos da vida social carioca, como “um trottoir roulant da vaidade humana”. É atribuído a ele o uso do termo “flanar”, que denota a ideia de vagar sem rumo enquanto se observa o entorno. Viagens à Europa, frequentemente vistas como marcos de prestígio, eram comuns, e em 1908, João do Rio decidiu embarcar rumo a Lisboa, com planos de seguir para Paris e Londres.

Contudo, ao chegar, ele se viu cativado por Lisboa, especialmente ao avistá-la do mar.

“Diante da cidade a acordar, no Tejo largo e profundo, não era o pasmo que me acometia, era o reconhecimento de me sentir ligado a uma raça valorosa e antiga…”
João do Rio

Acabou se estabelecendo na cidade por mais tempo do que planejava e, quatro anos depois, lançou um livro com suas crônicas sobre Lisboa, intitulado Portugal d’agora: Lisboa, Porto, impressões de viagem.

João do Rio, um dilema colonial

A chegada de João do Rio a Lisboa foi marcada por esse forte sentimento de “reconhecimento”. No entanto, a complexidade ideológica de sua obra se faz presente. Em 1922, ano de sua morte, encerrava-se também a era deslumbrada pela Belle Époque. O Brasil começava a se afastar da cultura europeia, dando lugar ao modernismo que buscava suas raízes culturais.

Em 1925, o manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade, ilustrado por Tarsila do Amaral, significou um novo começo, empurrando João do Rio para o esquecimento, como um autor ultrapassado.

E em Lisboa? A Praça no Areeiro, inaugurada em 1947, representa uma tentativa de anexação colonial, ao inserir um escritor brasileiro no capital cultural da cidade, conveniente para o projeto imperialista de Salazar.

Durante seu funeral, estima-se que um quarto da população carioca estava presente. João do Rio, uma figura que se via como um lusitanista, foi posteriormente considerado antiquado e não-modernista. Somente nas últimas décadas, sua obra começou a ser reavaliada por acadêmicos, reconhecendo a complexidade de sua contribuição.

Como João do Rio viu, escreveu e amou Lisboa

Nas suas impressões de viagem, ele reflete sobre o caráter dos portugueses, descrevendo-os como pessoas “feitas de sonho, saudade e amor dos sentidos”, e discorre sobre as nuances da língua. Suas crônicas oferecem uma visão tanto da vida da elite quanto dos relatos da miséria urbana, retratando um encontro com uma mulher na rua do Chiado.

Para concluir, deixamos as palavras diretas de João do Rio sobre Lisboa, permitindo que cada um tire suas próprias conclusões sobre sua atualidade.

“Lisboa é uma cidade corroída de ceticismo… O alfacinha começa por não acreditar nos primores da sua terra. Tudo é motivo para piada…”
João do Rio

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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