Os Fadistas: Apoiados ou Aprisionados?

Os Fadistas: Apoiados ou Aprisionados?

Quando hoje em dia usamos a expressão “mulher da rua” ou “miúdo da rua”, isso carrega um claro tom pejorativo. Ao mencionar a Casa da Mariquinhas na minha última crónica como um bordel, não consegui esclarecer que as mulheres que lá trabalhavam, por mais que incomodassem a vizinhança, eram chamadas na literatura da época de “toleradas”, ao passo que aquelas que se prostituíam na rua (no trottoir, como dizem os franceses) eram mal vistas e desconsideradas, frequentemente insultadas com um vocabulário que perdura até hoje.

Embora o antecessor direto do fado, o lundum, segundo estudos recentes, tenha sido tocado ao piano nos salões burgueses do Brasil, é verdade que, quando a canção chegou a Portugal e se transformou no nosso fado, era entoada principalmente nas ruas (acompanhada de guitarra), o que a tornava – como já se viu – uma canção de queixas sociais desconfortáveis para os que estavam no poder, que pretendiam transmitir a imagem de um Portugal humilde mas contente.

Assim, era crucial tirar as cantadeiras da rua, embora algumas já atuassem no Teatro de Revista, em espetáculos que tinham como objetivo principal criticar os governantes, frequentemente transformando essa crítica em piada para evitar represálias da censura, como já havia acontecido com o fado operário, que foi completamente silenciado.

No entanto, é importante notar que quem cantava o fado nas vielas e tabernas não era considerado um profissional e, consequentemente, não tinha direito a um salário, o que prejudicava significativamente muitos artistas que não conseguiam escapar a uma vida de precariedade.

A criação das casas de fado – muitas vezes a partir de restaurantes que já ofereciam ocasionalmente espetáculos ao vivo – acabou por agradar a todos: quem cantava passou a ter um contrato e um local de trabalho estável que garantiu clientela e sustento (Amália, que sempre recebeu bons conselhos, foi uma das primeiras fadistas a ter um salário invejável); além disso, o Regime se livrava, de uma vez por todas, das queixas públicas sobre a crise que afetava grande parte da população de Lisboa.

Contudo, a “higienização”, como a descreve o olisipógrafo Sérgio Luís de Carvalho, não parou por aí. Com a consolidação da casa de fado como um espaço de entretenimento para as classes sociais mais favorecidas da capital, tornou-se essencial evitar letras consideradas vulgares e chocarreiras, bem como temáticas mais engajadas e politizadas.

Ora, entre quatro paredes e com a polícia à porta, tudo era mais fácil de controlar, e a burguesia podia ouvir fado de qualidade sem temor de rixas ou impropérios.

O jornalista Orlando Raimundo, que escreveu uma biografia nada favorável sobre António Ferro, o Secretário da Propaganda Nacional entre 1933 e 1950, afirma que foi ele quem conseguiu, inclusive, modificar os poemas que eram cantados nas melodias do fado; e que, se hoje os temas predominantes são traições amorosas, ciúmes, saudade e abandono, é porque o grande promotor da política cultural do Estado Novo transformou habilmente o fado numa canção mais conveniente para o ditador e a sua entourage.

Não sei se podemos atribuir toda a responsabilidade a isso, mas é inegável que a moral fascista contribuiu para a transição das letras dos fados, que antes abordavam questões sociais e passaram a focar-se em tópicos individuais.

Um tema complexo.

A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico


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Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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