“Lisboa nos Arquivos” é uma série que explora os fundos arquivísticos e bibliográficos presentes na cidade. Através da intersecção entre historiografia e investigação jornalística, publicaremos mensalmente uma história da memória cultural de Lisboa, contribuindo assim para sua biografia. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, promovido pela Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
António José Colffs Guimarães foi nomeado oficial ajudante dos conservadores da Real Biblioteca Pública da Corte em 1834, em um momento em que a instituição se preparava para mudanças significativas: um novo nome, localização e um substancial aumento nos acervos. Sua promoção está documentada em um dos livros de mercês de D. Maria II, um acervo que cresceu consideravelmente após o armistício assinado em Évoramonte em maio, que pôs fim à guerra civil de seis anos. Colffs Guimarães havia se alistado como voluntário em um dos batalhões liberais em 1833, conquistou uma medalha de guerra e agora se juntava aos agraciados da rainha.
No mesmo ano, todo o acervo bibliográfico e documental da Biblioteca foi transferido de um dos torreões do Terreiro do Paço para o convento de São Francisco, no Chiado (atualmente a Faculdade de Belas Artes). Esta mudança coincidiu, não por acaso, com a extinção das ordens religiosas e a consequente (mas não completa) incorporação das livrarias monásticas na instituição, que foi então renomeada Biblioteca Nacional (BN).
A reforma eclesiástica previa a custódia estatal dos valiosos espólios dos cartórios conventuais, mas não previu a negligência em sua implementação. Apesar dos esforços de cidadãos como Alexandre Herculano, que conseguiu salvar alguns acervos do abandono absoluto, muitos foram roubados, destruídos e dispersos por coleções particulares, uma repetição quase exata do que ocorreu durante as invasões francesas.
Nos anos seguintes, a recuperação de obras e documentos ocorreu mais por acaso do que por um trabalho sistemático. Colffs Guimarães acabaria por ter seu nome associado a uma dessas restituições.
Em 1834, ao ser promovido de oficial a oficial ajudante dos conservadores da BN, tinha 29 anos e já era um dos melhores calígrafos do reino, o que lhe rendeu, alguns anos depois, um convite de D. Maria II e do rei consorte, D. Fernando, para ensinar a arte da escrita aos príncipes. Também era um talentoso desenhador, tendo colaborado com o mensário “Universo Pitoresco”, embora sua discrição o levasse a assinar apenas como “C” ou “C.G.”. Destacava-se, no entanto, pelo esmero na vestimenta e cuidados pessoais: usava suíças ao estilo de lord Palmerston e mantinha o rosto bem aparado, vestindo-se com elegância, como um “gentil palaciano” que “naturalmente” estava “à vontade no Paço Real dando lições aos príncipes”, escreveu Xavier da Cunha, um escritor e diretor da BN na primeira década do século XX. Quando faleceu, em 1872, todos os obituários na imprensa destacaram seu zelo, educação e amabilidade, com António da Silva Túlio descrevendo-o como “o exemplar de um perfeito cavalheiro” em seu elogio fúnebre publicado no “Jornal do Comércio”.
A sua cerimônia de funeral contou com a presença de todos os funcionários da instituição, que acompanhavam o cortejo até o cemitério dos Prazeres na manhã de 17 de janeiro. Colffs Guimarães não foi um simples funcionário da BN, onde trabalhou ininterruptamente por 45 anos, mas seu nome teria sido pouco notável se não estivesse associado à recuperação de um importante incunábulo do final do século XV.
Quatro anos de espera
Este volume possui 20 fólios, em papel, sem folha de rosto, sem numeração de páginas e sem capítulos. Foi impresso em caracteres móveis, em uma única coluna, em latim, e contém anotações manuscritas, não datadas. Acredita-se que tenha sido produzido em uma oficina francesa (possivelmente em Lyon) por volta de 1490 e é um exemplar representativo das primeiras décadas do livro impresso. Intitulado genericamente “Ars Moriendi”, ele faz parte do catálogo de títulos de devoção católica publicados no final da Idade Média, que basicamente consistiam em manuais sobre como uma boa morte. É um dos raros incunábulos da época com ilustrações (possui 12) que revelam as tentações que os demônios impõem aos moribundos.
Este “Ars Moriendi” chegou ao depósito de Reservados da Biblioteca Nacional em 1842 e foi recebido por Colffs Guimarães. Atualmente, está nos Reservados e seu acesso é restrito, embora a obra tenha sido digitalizada e possa ser acessada aqui. Trata-se de uma restituição, pois o livro pertencera à biblioteca do Convento de São Francisco de Xabregas e não havia dúvida quanto à sua origem, visto que em 12 fólios estavam carimbados selos com a identificação dos legítimos proprietários: “Da Livraria de S. Frco. De Xabregas”. Esses marcadores eram de tamanho razoável, mas Paul Plantier, um livreiro francês com loja na Rua do Ouro, aparentemente não os viu, o que levou o Estado a abrir um longo processo judicial para reaver o incunábulo.
Curiosamente, foi o próprio Plantier quem notificou o bibliotecário-mor da BN, Vasco Pinto de Balsemão, em abril de 1838, sobre a existência desta obra desviada, informando em uma carta escrita em francês que a adquirira “há muitos anos” de um homem, em troca de dinheiro e “muitos objetos de valor”. Ele estava disposto a entregar o “Ars Moriendi” à Fazenda Pública, mas precisava garantir que seria “reembolsado” pelas suas “despesas”, na faixa de 170$00 a 180$00 réis. O que ele omitiu foi que o incunábulo já não se encontrava em Portugal.
Nunca soubemos se Pinto de Balsemão respondeu ao livreiro, mas certamente ele escreveu à Comissão Administrativa do Depósito dos acervos das livrarias dos extintos cenóbios e a António Fernandes Coelho, que, a partir de agosto de 1838, assumiu interinamente o Ministério dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, pedindo para que dado ordem ao Ministério Público para abrir um processo contra Plantier. A portaria relacionada a essa ação foi publicada no dia 15 do mês seguinte, mas o andamento abrandou quando se constatou que o “Ars Moriendi” de Xabregas já estava nas mãos de um particular na França.
Em 1841, um ofício da Procuradoria Geral da Coroa informou que Plantier fora condenado a devolver o livro “indevidamente retido” e que a obra já se encontrava “em depósito” em solo nacional. Contudo, foi necessário esperar até março do ano seguinte para que o procurador-geral José de Cupertino Ottolini informasse ao Ministério da Justiça que o volume havia sido entregue ao oficial designado pela BN, o meticuloso Colffs Guimarães.
O livreiro quer ser indemnizado
Durante os quatro anos que levaram ao retorno do livro à BN, o nome de Colffs Guimarães voltou a ser registrado no registro geral de mercês de D. Maria II. Surpreendentemente, o nome de Paul Plantier também foi mencionado. Em 1839, Colffs Guimarães recebeu nova promoção, desta vez para oficial da Repartição dos Manuscritos e das Antiguidades, tornando-se altamente qualificado para receber o incunábulo medieval. No mesmo ano, em dezembro, Paul Jean-Jacques Plantier, natural de Boubonne-les-Bains no nordeste da França, foi agraciado pela rainha com o título de livreiro da Casa Real – embora não recebesse remuneração da Fazenda, gozava de privilégios, isenções e honrarias, dentre os quais se encontrava o direito de usar as armas reais em sua fachada, nas edições e no ex-libris do seu estabelecimento.
A honraria foi concedida durante o andamento da ação da Fazenda Nacional contra Plantier, o livreiro de sua majestade. Foi nessa nova condição e utilizando papel timbrado com o selo real que ele voltou a escrever a Pinto de Balsemão, em maio de 1841, sugerindo uma nova solução que não fosse a devolução “pura e simples”– a sentença já havia sido ditada pelo tribunal. Tentava, mais uma vez, obter da BN uma “indemnização” pela “perda tão grave”.
A correspondência era mais extensa do que a de 1838 e a história da aquisição do incunábulo mais complicada. Ele alegou ter comprado o livro em 1834 de um militar estrangeiro que, como ele, lutara contra o “poder usurpador” miguelista e que, por sua vez, tivera o raro exemplar de um belga que viera de uma “província distante de Lisboa”. Portanto, ao comprar o livro, “em tempos de guerra”, este não era “propriedade nacional” e ele o trocou por “objetos valiosos e 16 moedas de ouro”. Sabia que o orçamento da BN não permitia “grandes despesas”, por isso sugeriu que a instituição lhe oferecesse obras disponíveis em duplicado que fossem de valor similar às suas “despesas materiais” relacionadas ao “Ars Moriendi”.
Nos documentos relacionados à aquisição de obras, entre 1838 e 1843, nos arquivos de Reservados, não consta nenhuma resposta de Pinto de Balsemão, mas Paul Plantier continuou a ser mencionado nos registros administrativos da BN, especialmente devido aos constantes atrasos na entrega do “Journal de la libraire”, cuja distribuição realizava e pela qual recebia o valor da assinatura.
Ganhou também alguma experiência sobre a restituição de títulos bibliográficos, pois em 1847 ele mesmo propôs uma ação para reaver um conjunto de livros que estavam nas mãos de Pedro Xavier de Lencastre, 7º marquês de Abrantes. A situação ocorreu em 1843, quando o marquês, um ex-adepto miguelista, enquanto estava na loja de Plantier, escolheu um lote de livros, pedindo ao livreiro autorização para levá-los para casa, pois desejava examiná-los com mais cuidado.
Os anos passaram e Plantier nunca mais viu os livros. Em setembro de 1847, Xavier de Lencastre faleceu, aos 31 anos, sem deixar herdeiros, e três meses depois, o francês quis saber sobre o paradeiro dos livros, que incluíam as obras completas de Alexandre Dumas, cinco volumes ilustrados de Chateaubriand, uma bíblia ilustrada e dicionários biográficos, entre outros, todos em francês.
António José Colffs Guimarães residia na rua da Cruz dos Poiais, e bastava-lhe subir a calçada do Combro e cruzar o Chiado para chegar à Biblioteca Nacional. Em janeiro de 1872, sucumbiu a uma “bronquite aguda”, deixando viúva uma “virtuosa senhora” que não foi nomeada pelos jornais. Ele se despedia de um funcionário que dedicou quase meio século à BN, dando “sempre provas da sua inteligência e de inconcussa probidade”, conforme descreveu Silva Túlio. Todos os obituários publicados foram ricos em elogios, e naquela época, conforme lembrava Xavier da Cunha, os jornais ainda não tinham o “costume” de “tecer elogios a quem não os merecesse”.
FONTES E ARQUIVOS:
Arquivo Histórico da Procuradoria Geral da República: registro de ofícios para diferentes ministérios 1841-42; Registro de pareceres da Procuradoria Geral da Coroa para o Ministério do Reino 1838-39.
Arquivo Nacional Torre do Tombo: Registro Geral de Mercês, mercês de D. Maria II, livro 9.
Biblioteca Nacional de Portugal: Arquivo Histórico, Reservados, Correspondência sobre aquisição de livros, 1838-1843.
Arquivo Nacional Torre do Tombo: Registro Geral de Mercês, mercês de D. Maria II, livro 9.
Internet Archive: Boletim das Bibliotecas e dos Arquivos, vol. VI, 1907.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico
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