Mães ucranianas em refúgio se preparam para o futuro

TakTak Media

A maioria trabalha e paga impostos. Ainda assim, centenas de milhares de mulheres que encontraram refúgio na República Checa enfrentam desconfiança pública e um apoio estatal cada vez mais reduzido. «Não conseguimos construir o nosso futuro — não sabemos o que esperar», diz uma mulher ucraniana durante uma reunião de um grupo de apoio para mães no Svitlo, uma ONG sediada em Praga que apoia migrantes ucranianos.

O sentimento é partilhado por outras duas mulheres. As três viajaram sozinhas com os filhos para Praga logo após o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Uma vez por semana, reúnem-se com a psicóloga ucraniana Anna Katruk, que «tenta ajudá-las a encontrar apoio e a reorganizar a sua vida», explicou.

Três anos e meio depois da Rússia ter lançado a invasão da Ucrânia, centenas de milhares de refugiados na Chequia — e milhões em toda a Europa — continuam a lidar com a incerteza quanto ao seu futuro.

A República Checa tem a maior taxa de refugiados per capita da União Europeia, com 35 refugiados ucranianos por cada mil habitantes. Em fevereiro de 2025, quase 400 mil refugiados ucranianos residiam no país, a maioria em Praga, a capital.

A escassez de habitação, as barreiras linguísticas e a procura de emprego e de cuidados para as crianças estão entre os principais desafios enfrentados pelos refugiados em Praga — maioritariamente mulheres com filhos. A instabilidade na Ucrânia e a incerteza política na Chequia marcam profundamente a vida dos refugiados, tornando quase impossível fazer planos a longo prazo.

A perspectiva de género

A grande maioria dos refugiados ucranianos são mulheres e crianças, uma vez que a lei marcial na Ucrânia impede quase todos os homens entre os 18 e os 60 anos de sair do país.

Quando a vaga de refugiados começou, em 2022, cerca de 80% dos refugiados ucranianos na Chequia eram mulheres, observa Jakub Andrle, especialista em migração do programa de apoio a refugiados da organização humanitária checa *People in Need*. Actualmente, essa percentagem ronda os 60%.

«É preciso considerar a perspectiva de género», afirmou Iva van Leeuwen, jurista familiarizada com o tema e antiga observadora da OSCE na Ucrânia. «É um nível de stress extremamente elevado — as mulheres estão preocupadas com os maridos e com as famílias» que ficaram na Ucrânia.

As mães solteiras «carregam um duplo fardo», disse Nataliia Borovska, que trabalha com migrantes no Centro de Integração de Praga, uma organização de apoio financiada pela cidade e pela União Europeia. «Muitas estão na República Checa sem os parceiros ou familiares, o que significa que não têm apoio no dia-a-dia. Como resultado, têm pouco tempo para aprender checo de forma intensiva, procurar um emprego melhor ou melhorar a sua situação. Ficam presas num ciclo vicioso, difícil de quebrar sozinhas», explicou.

À medida que mulheres que esperavam ficar em Praga apenas algumas semanas viram a sua estadia prolongar-se por meses e depois por anos, a necessidade de recursos de saúde mental aumentou. «Basicamente, todo o trabalho necessário [para a sobrevivência da família] recai sobre elas. E essa é a parte mais difícil. Depois de dois ou três anos, isso começa a cobrar o seu preço», afirma Andrle.

Investigações realizadas no primeiro ano da guerra revelaram que 45% dos refugiados ucranianos apresentavam níveis moderados ou mais graves de depressão ou ansiedade — cinco vezes mais do que na população em geral. Este problema não vai desaparecer tão cedo — a necessidade de apoio psicológico só irá aumentar, já que «há cada vez mais pessoas a procurar ajuda por PTSD, depressão e ansiedade», diz Andrle.

Borovska afirma que a incerteza enfrentada pelos migrantes tem um impacto severo no seu bem-estar emocional. «As mães ucranianas sentem-se muitas vezes num ponto de viragem — se devem aprender a língua, apostar plenamente na integração ou encarar a República Checa apenas como um local de residência temporário.»

Nora Fridrichová, antiga jornalista de televisão e fundadora da ONG Satník, que fornece gratuitamente roupa e bens a famílias monoparentais — incluindo muitas mulheres ucranianas — recorda que, quando os refugiados começaram a chegar, «não sabiam onde estariam no mês seguinte».

Desafios no emprego

Para além do peso emocional, viver com tanta incerteza traz desafios práticos. «Alguns empregadores não querem assinar contratos de trabalho por um período superior à validade do visto. O mesmo problema ocorre com os contratos de arrendamento», diz Borovska.

A maioria dos migrantes ucranianos tem vistos de protecção temporária, que só podem ser prorrogados por um ano.

A procura de emprego é frustrante devido às barreiras linguísticas enfrentadas por muitos migrantes; além disso, as qualificações obtidas no mercado de trabalho ucraniano nem sempre são reconhecidas na Chequia. Anna Katruk, a psicóloga ucraniana que presta apoio aos refugiados, explica: «Muitas pessoas altamente qualificadas — médicos, advogados, professores — deparam-se com o facto de não serem necessárias aqui e de não conseguirem sustentar-se. Acabam por trabalhar em empregos pouco qualificados e fisicamente exigentes», acrescenta, o que as deixa exaustas e desmoralizadas.

Segundo um relatório de investigação recente coordenado pela agência das Nações Unidas para os refugiados, a taxa de emprego entre os refugiados ucranianos na Chequia subiu de 62% em 2023 para 76% em 2024, a mais elevada da Europa Central e Oriental. Quase um terço dos refugiados no país tinha mais do que um emprego, de acordo com a Vox Ukraine.

As responsabilidades familiares deixam muitas mães com pouco tempo para qualquer tipo de trabalho. Olena Krasulenko, que foi directora de marketing em Kyiv, diz que ela e outras mães ucranianas que conhece «passam a maior parte do tempo simplesmente a cuidar dos filhos».

«Conseguimos encontrar trabalho. Mas não empregos a tempo inteiro. Não é possível para nós, porque temos de gerir um horário atípico», planeando tudo em função dos horários das crianças, diz Krasulenko.

As mães enfrentam também dificuldades em colocar os filhos na escola. «Estamos prontas para nos integrar», mas muitas precisam de apoio «para conseguir vagas em escolas e jardins de infância, onde há muito poucas e o processo de candidatura é muitas vezes difícil devido à barreira linguística».

Apoio em declínio

Várias fontes ligadas ao trabalho com migrantes ucranianos afirmam que o apoio público tem vindo a diminuir de forma consistente. Iva van Leeuwen recorda que, no início da invasão, houve «uma vaga de apoio sem precedentes aos ucranianos». Nos últimos três anos, 40% dos checos encontraram formas de apoiar os migrantes ucranianos, seja através de donativos financeiros, ajuda material ou voluntariado.

Embora a guerra e as suas consequências continuem a ser noticiadas, o interesse do público pela situação dos refugiados está a diminuir. Van Leeuwen afirmou que as campanhas de desinformação russas têm um papel neste declínio do apoio público.

Vários trabalhadores de ONG referiram um equívoco comum: a ideia de que os migrantes ucranianos recebem mais do Estado do que aquilo que contribuem — uma narrativa que tem alimentado a hostilidade.

Na realidade, os ucranianos pagam mais em impostos do que recebem em prestações sociais. O mesmo acontece na Polónia, onde vivem actualmente um milhão de refugiados, segundo um relatório de março do Banco Nacional de Desenvolvimento (BGK).

O governo checo está também a reduzir os apoios pagos aos refugiados. Embora seja verdade que os refugiados ucranianos ainda recebam um pequeno subsídio em dinheiro durante os primeiros seis meses, este não é suficiente para viver. (Noutros países, o apoio também está a diminuir: Hungria, Eslováquia e Polónia reduziram ou eliminaram recentemente programas semelhantes.)

Cerca de 66% dos refugiados ucranianos no país estavam a trabalhar ou envolvidos em actividades empresariais há um ano, afirmou o ministro do Interior checo, Vít Rakušan, em setembro de 2024, e apenas cerca de um terço alguma vez solicitou ajuda humanitária.

Os próprios refugiados referem sinais de cansaço por parte da população. As mães ucranianas entrevistadas para este artigo relataram ter sido insultadas em autocarros por falarem ucraniano, abordadas na rua e tratadas de forma condescendente em ambientes de trabalho e escolares.

Cortes no financiamento

Apesar de o fim da guerra ainda não estar à vista, muitas ONG estão a reduzir a sua actividade devido a cortes orçamentais; a interrupção do financiamento da agência norte-americana USAID teve efeitos em cadeia.

O Svitlo — cujo nome significa «luz» em ucraniano — tem prestado uma vasta gama de serviços a refugiados ucranianos em Praga desde 2022, incluindo aulas de apoio à integração, acompanhamento psicológico e actividades comunitárias. No entanto, segundo Lenka Kachik, gestora de projectos do Svitlo, o principal subsídio da organização está prestes a terminar e não se sabe de onde virão os fundos futuros.

A organização afirma ter apoiado 18 mil refugiados nos últimos três anos. Já teve de reduzir alguns serviços, incluindo o programa gratuito de cuidados infantis, para grande frustração das mães do grupo de apoio.

A People in Need, uma organização humanitária internacional, também antecipa ter menos recursos num futuro próximo.

«Não sabemos qual será a situação daqui a dois anos nem se haverá serviços suficientes para as pessoas que deles necessitam», diz Andrle. Explica que os cortes na ajuda dos EUA afectaram indirectamente o trabalho da organização com refugiados ucranianos. Embora os serviços na Chequia sejam financiados por uma campanha pública que não foi afectada pela perda de fundos da USAID, a organização teve de reorganizar o seu orçamento global, resultando em menos dinheiro disponível para projectos com refugiados no país.

A People in Need já teve de encerrar alguns serviços, incluindo um programa de apoio material a grávidas, que funcionou durante dois anos.

«Mais cedo ou mais tarde, teremos de reestruturar ou limitar os nossos serviços», diz Andrle, acrescentando que «a necessidade desses serviços não irá desaparecer».

Embora a People in Need tenha sido o maior contributo individual para projectos de apoio a refugiados, tanto em termos financeiros como de recursos humanos, Andrle sublinhou o esforço colectivo de muitas organizações numa vasta rede informal de ajuda.

Outras organizações mais pequenas, como a MinimimiUa, que se dedica ao apoio a grávidas, também sentem os cortes. A People in Need financiou os seus trabalhadores durante mais de dois anos, mas já não consegue continuar esse apoio.

«Estamos à procura de alguém que nos apoie, caso contrário seremos obrigados a encerrar a nossa ajuda», diz a fundadora da organização, Karolina Ruppert.

Uma solução permanente?

No início deste ano, o governo checo aprovou um regime de residência de longa duração com o objectivo de oferecer aos migrantes uma alternativa mais estável à protecção temporária. No entanto, o programa só está disponível para refugiados que não recebam prestações sociais e que tenham ganho mais de 440 mil coroas checas em 2024 (cerca de 18 mil euros, aproximadamente dois terços do salário médio).

Os elegíveis receberão autorizações de residência de cinco anos, com possibilidade de candidatura posterior à residência permanente. Terão acesso livre ao mercado de trabalho, mas não à maioria das prestações sociais não contributivas. Segundo a comunicação social, menos de 20% dos ucranianos no país deverão cumprir os requisitos económicos.

Andrle afirma que quase nenhum dos clientes da People in Need — sobretudo mães com baixos rendimentos e crianças pequenas — ganha o suficiente para obter essa autorização especial.

«Do nosso ponto de vista, os critérios são absurdamente rigorosos. Outras organizações que apoiam refugiados ucranianos pensam o mesmo», afirmou.

A situação actual ameaça deixar milhares de pessoas num limbo quando os combates terminarem. O regime de protecção temporária expirará quando entrar em vigor um cessar-fogo ou quando a guerra terminar, disse Rakušan em fevereiro.

Ainda assim, quase dois em cada três refugiados ucranianos planeiam permanecer na Chequia quando a protecção temporária terminar, segundo um inquérito governamental realizado em 2024 junto de cerca de 14 mil refugiados.

De forma informal, Fridrichová observa que, no armazém da Satník, as mães ucranianas escolhem cada vez mais livros em checo no centro de doações, sinal de um maior grau de integração.

Alexandra, que frequenta o grupo de apoio do Svitlo, diz: «Durante dois anos, os meus filhos perguntaram-me todos os dias quando podíamos voltar para casa». Agora, depois de integrados na escola, vêem oportunidades na Chequia. Tal como muitos refugiados entrevistados, o marido permanece na Ucrânia.

Quando Kateryna Bykova fugiu de Kharkiv em março de 2022, estava grávida de seis meses. O filho nasceu em agosto desse ano. Disse que, quando chegou a Praga, poucas semanas após o início da guerra, não sabia se deveria investir tempo e energia na integração.

«Pensava nisso todos os dias — estava muito nervosa — porque não sabia em que língua devia educar o meu filho. Prepará-lo para o jardim de infância em que cidade? Em que país? É uma pergunta muito difícil. Mas agora percebo que talvez fiquemos aqui em Praga. Não há bons sinais de progresso na Ucrânia.»

Olena Krasulenko, a antiga profissional de marketing em Kyiv, afirmou que não é claro que protecções legais estarão em vigor dentro de um ano. «Não sabia que iria ficar aqui durante tanto tempo — muitos ucranianos não têm quaisquer planos a longo prazo.»

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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