“Arreda! Arreda!”, clamava o Infante D. Afonso enquanto os transeuntes de Lisboa ficavam estupefatos ao verem o carro a circular à velocidade “supersónica” de 20 kms/hora, onde antes só havia cavalos, burros, carruagens e carroças… e onde até os americanos, antecessores dos elétricos, dependiam da tração animal.
Em 1900 – sob o reinado do rei D. Carlos, irmão mais velho do audacioso automobilista – havia apenas cerca de 150 automóveis em Portugal. Uma década depois, quando a família real e muitos dos seus bens, incluindo a adorada viatura, foram forçados a deixar o país, esse número já havia ultrapassado os 600.
Esses dados nos fazem sorrir com uma espécie de indulgência por um passado que já não é tão distante. Só em Lisboa, estima Rui Martins, que é ativo em diversos movimentos de cidadania em prol da melhoria da cidade, hoje existem aproximadamente 350 mil lugares de estacionamento, conforme analisou em um artigo publicado na Mensagem, em junho deste ano.
Embora o estacionamento seja uma questão complexa em grandes centros como Lisboa, envolvendo implicações políticas, sociais e ambientais, é verdade que os parques destinados a este fim, muitas vezes vistos como estruturas cinzentas, também têm suas próprias histórias. Um exemplo é o Parque dos Restauradores, um dos 40 geridos pela Telpark apenas em Lisboa (200 em toda a Península Ibérica), que é o mais antigo parque subterrâneo do país. Antes disso, foi jáo primeiro parque à superfície de Lisboa, remontando, como veremos, a 1938, quando o coração comercial da cidade pulsava na Baixa.
O acesso à Baixa: um problema antigo
Em 1938, a Direção dos Serviços de Urbanização e Obras da Câmara Municipal de Lisboa apresentou um relatório detalhado intitulado Elementos para o Estudo do Plano de Urbanização da Cidade de Lisboa, onde a preocupação com o trânsito automóvel já ocupava um papel central. Aí pode-se ler: “A criação de parques de estacionamento de automóveis na cidade é de recente data (por postura municipal de Junho de 1937); só está ainda efetivado o Parque da Praça dos Restauradores (…).” Este espaço à superfície tinha uma capacidade máxima de 80 viaturas e “foi projetado de forma que os veículos entrem e saiam dele sem interromper o trânsito.” O custo de cada período de estacionamento era de um escudo.
Os problemas, no entanto, não terminaram ali. As décadas passaram e o trânsito na cidade tornou-se cada vez mais complicado.
Em agosto de 1950, o matutino Século relatou que o local onde estava, até o ano anterior, o mercado da Praça da Figueira “voltou a funcionar como um amplo e central parque de estacionamento para automóveis.” E o jornalista continuava: “A área agora é maior do que na fase anterior e comporta, em boas condições de entrada e saída, cerca de 250 carros. É um início de solução para o problema do estacionamento na Baixa. Os passeios já se apresentaram com menos filas de carros que costumam ladeá-los durante todo o dia.”
Assim se manteve até a construção da estátua equestre de D. João I, criada por Leopoldo de Almeida, no final dos anos 1960. A demolição do mercado, contestada na época, foi justificada pelas autoridades municipais como uma necessidade para descongestionar a Baixa e prolongar a Avenida Almirante Reis.
Vinte anos depois, na agitada Lisboa dos anos 70, a questão do estacionamento voltou a ganhar urgência. Assim nasceu o Parque dos Restauradores, inaugurado de forma solene em 14 de abril de 1973.
Anunciado como o primeiro de um programa camarário para dotar a cidade de novas zonas de estacionamento, possuía uma capacidade para 430 lugares, limite condicionando pela proximidade da linha do Metropolitano. E ainda contava, para espanto de nossos padrões de segurança atuais, com uma bomba para abastecimento de combustíveis.
O acontecimento teve tanta importância que justificou uma reportagem detalhada da RTP, onde o jornalista Adriano Cerqueira entrevistou o Engenheiro Fernando Monjardino, administrador da empresa responsável pela construção do parque, que destacou a “importância deste equipamento, o primeiro parque subterrâneo a ser construído em Portugal, mas que ainda não resolve os problemas de estacionamento verificados em Lisboa.” O projeto de novos espaços desse tipo em outras partes da cidade foi também mencionado.
O Diário de Lisboa, em sua reportagem sobre a inauguração, acrescentou que já havia um novo parque subterrâneo em preparação, desta vez na Alameda D. Afonso Henriques.
Contudo, as taxas progressivas cobradas dos usuários para desincentivar o estacionamento prolongado, uma novidade na época, não agradaram a todos.
Alguns dias depois, a equipe de reportagem da RTP dirigiu-se ao Rossio para noticiar a proibição de estacionamento naquela praça, efetiva a partir do final de abril de 1973, medida que gerou debate, pois ali sempre foi gratuito deixar o carro e ir às compras.
Um espaço com histórias da História
Já vimos como Adélia Brandão, quando jovem, dividia seu tempo entre o trabalho no Palladium (um dos mais renomados cafés de Lisboa, até o fechamento em 1979) e as aulas na Cidade Universitária.
Em 1973, o novo parque tornou-se uma comodidade muito bem-vinda. Porém, após o 25 de Abril, especialmente durante o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), grandes manifestações tomaram a Avenida da Liberdade e o centro da cidade, reunindo milhares de pessoas: “Foram tempos muito intensos, claro, mas, depois de ter sido obrigada a deixar meu carro no parque durante uma noite inteira, comecei a verificar atentamente os jornais da tarde para saber se haveria alguma manifestação planejada para o dia seguinte. Caso contrário, não conseguiria cobrir os custos.”
Assim, a história do país reflete-se em um espaço aparentemente inócuo como um parque de estacionamento.
As histórias de Pedro Ribeiro, que trabalhou nos Restauradores entre 1995 e o início de 2025 (hoje está em uma unidade da Telpark, em Almada), também nos dizem isso:
“No final dos anos 1990, ainda não havia Via Verde, nem possibilidade de pagamento por cartão, embora fosse possível pagar em caixas automáticas, que, por algum tempo, eram mais baratas para incentivar seu uso. Mas o software era fraco e essas máquinas frequentemente apresentavam problemas. Mesmo em condições ideais de funcionamento, não era possível pagar com uma nota de cinco mil escudos, por exemplo. Resultado: sempre havia um funcionário ao lado delas, com um recipiente cheio de moedas para fazer o troco.”
A situação se complicou durante a transição do escudo para o euro: “Era comum as pessoas andarem com as duas moedas e desejarem pagar parte de uma e parte de outra, o que gerava uma enorme confusão.”
Pedro recorda-se das noites de grandes espetáculos no Coliseu e no Teatro Politeama, sempre lotados no parque, o que é tradicional nesta praça de Lisboa, que também abrigou grandes cinemas como o Éden, o Condes e o Odeon antes de seu tempo. Ele guarda na memória tanto o stress causado pela primeira edição dos Globos de Ouro (em que a SIC alugou todo o parque por uma noite), quanto a simpatia do ator Ruy de Carvalho: “Ele estava atuando no Teatro Dona Maria II, talvez na peça Rei Lear, e todas as noites levava seu carro. Após os espetáculos, sempre conversava conosco por alguns minutos sobre assuntos triviais, mas sempre com muita cordialidade.”
Assim como as “estrelas” dos palcos, também “estrelas” do futebol cruzaram seu caminho. Pedro lembra do entusiasmo que a entrada do jogador Di Maria, então no Benfica, provocou em um colega seu. Entusiasmado, ele se aproximou do argentino e pediu uma selfie, a qual foi prontamente concedida. Para surpresa de todos, o interesse não era pelo futebolista, mas pelo carro de alta cilindrada que ele dirigia.
Mais emocionante é a história envolvendo outro ícone do Benfica, Oscar Cardozo: “Naquela época, tínhamos um colega que, assim como ele, era paraguaio. Certa vez, ao ver Cardozo usar uma máquina automática, ele usou o intercomunicador e falou com ele em guarani, uma das línguas oficiais do Paraguai.” A surpresa foi total, mas marcou o início de uma bela amizade.
“Sempre que viajava para o país deles, Cardozo, ao retornar a Lisboa, trazia uma bebida típica para nosso colega.” E conversavam em guarani, claro, deixando todos perplexos.
Nem todas as memórias que Pedro guarda do parque são agradáveis. Ele recorda uma confrontação com um policial que conduzia uma importante figura da política internacional, que insistia em não pagar pelo estacionamento; e mais recentemente, no último dia de 2024, um incêndio causado acidentalmente por uma pessoa em situação de rua que dormia próximo a um ventilador: “Era de manhã, quando cheguei, a situação era tão grave que o metrô não avançava além da Avenida, devido a precauções. Foi um susto, mas ninguém ficou ferido e o parque reabriu às 18 horas, para receber os usuários que vinham para a festa de Ano Novo.”
Com 30 anos de experiência no Parque dos Restauradores, Pedro Ribeiro agora aprecia sua mudança para a outra margem do rio: “Em Lisboa, passei muitas noites de Ano Novo trabalhando, às vezes ajudando os usuários na entrada, trabalho sempre muito complicado nessas datas. Agora, finalmente, posso passar essa noite em casa.” No entanto, ao longo da conversa, é notável o carinho que ele nutre pelas memórias acumuladas no coração da cidade.









