Gelato: uma tradição lisboeta e o prazer de jantar à noite

Galeto

Marcelo Rebelo de Sousa geralmente se senta no balcão de trás. Mário Soares sempre preferiu o lugar mais próximo da entrada. O ex-prefeito de Lisboa, Krus Abecassis, frequentemente terminava suas noites aqui, realizando reuniões informais com seu chefe de gabinete durante a década de 1980, quando governava a cidade. Graças a ele, o horário de fechamento do snack bar foi estendido até às 3h30. Quando dirigia O Independente, Paulo Portas às vezes vinha ao Galeto para um último jantar, após fixar uma manchete explosiva.

De políticos, advogados, jornalistas e artistas (e agora, cada vez mais, turistas) a trabalhadores do sexo, agenciadores, traficantes, boêmios e notívagos de todo tipo, gerações de lisboetas começaram — ou terminaram — suas noites neste snack bar na Avenida da República, cuja longevidade parece intemporal, embora tenha completado apenas 59 anos em 29 de julho.

A onde mais em Lisboa você ainda pode encontrar sopa de galinha com vísceras, um prego, um Bife à Galeto, ou até língua de boi com purê de batatas às três da manhã? Sem mencionar os famosos Combinados, os hambúrgueres de brioche, o steak tartare, ou o mítico banana split? (O menu é longo e está disponível até o horário de fechamento, com preços aumentando ligeiramente após as 22h.) Afirmamos: em nenhum outro lugar.

O tradicional restaurante foi recentemente listado entre os 101 Melhores Restaurantes de Lisboa pela ImmigrantFoodie.

E agora, pode em breve ganhar reconhecimento como um site de patrimônio cultural nacional, seguindo um anúncio publicado no Diário da República.

A noite termina às 3h30—ou talvez comece novamente às 7h30, quando o Galeto reabre e o dia começa para aqueles menos devotados à vida noturna. Durante as quatro horas de fechamento, o trabalho não para. Após a refeição tardia da equipe, vem a limpeza e os preparativos para mais um dia. Todos os dias do ano—exceto 1º de maio, uma concessão à revolução que persiste.

Um novo sopro

Tudo começou em 29 de julho de 1966—três dias após a derrota de Portugal para a Inglaterra nas semifinais da Copa do Mundo em Wembley, e uma semana antes da inauguração da Ponte 25 de Abril. O Galeto abriu suas portas no nº 14 da Avenida da República, ao lado da elitista confeitaria Colombo e em frente ao venerável café Versailles, um ponto de encontro da burguesia bem-vestida de Lisboa que uma vez povoou a Avenida Novas.

“Um restaurante de luxo foi inaugurado na Avenida da República. O estabelecimento inclui um snack bar com capacidade para 125 pessoas,” relatou o Diário de Lisboa em 31 de julho de 1966, elogiando as “linhas ultra-modernas” do novo local em “uma das artérias mais movimentadas da cidade” e chamando-o de “uma contribuição notável para o desenvolvimento do turismo do país.” O jornal elogiou suas “instalações bonitas”, “equipe extremamente competente”, e um custo “de cerca de dez mil escudos”—o dobro do preço do próprio imóvel.

Segundo Francisco Oliveira, atual proprietário do Galeto, que ouviu isso de seu pai, António Oliveira—um dos seis sócios fundadores, todos emigrantes portugueses retornando do Brasil, determinados a trazer modernidade de volta a Lisboa.

Francisco, agora com quase 70 anos, tinha 13 anos quando o restaurante abriu e participou da festa de inauguração. “Estou em uma das fotografias—vou te mostrar,” diz ele. Ele assumiu em 2016, mas prefere manter-se nos bastidores.

“Os seis sócios, incluindo meu pai, eram ambiciosos,” ele recorda. “Era um sopro de ar fresco para Lisboa na época, com um impacto enorme na vida da cidade.”

Seu pai, de Água Longa, perto de Santo Tirso, perdeu seu pai aos 11 anos, começou a trabalhar na construção para sustentar a mãe e a irmã, e emigrou para o Brasil aos 24, já casado com três filhos. A vida sorriu para ele lá—mudando de transporte para restaurantes com outros expatriados portugueses.

“Eles construíram uma pequena rede de restaurantes no Rio de Janeiro, que foi um sucesso, e decidiram expandir de volta para casa,” diz Francisco. E casa, claro, significava Lisboa—o resto do país era “apenas paisagem.”

Do Brasil, trouxeram o nome Galeto—de um popular frango jovem assado à moda italiana—e a ambição de introduzir a gastronomia moderna e cosmopolita em uma Lisboa conservadora. Eles transformaram o snack bar em estilo europeu em um local de luxo, evidente na decoração dos arquitetos Vítor Palla e Joaquim Bento D’Almeida—designs que permanecem intactos até hoje—e no serviço eficiente, em estilo de linha de montagem, que se mantém inalterado desde o dia da abertura.

O frango assado não agradou exatamente à clientela elitista de Lisboa, mas o nome ficou. “Caso contrário, o layout continua o mesmo há 59 anos,” diz Francisco. “No andar de baixo, o restaurante tinha 78 lugares e talheres de prata para combinar com a placa de ‘luxo’ na porta, mas naturalmente se tornou mais democrático com o tempo.”

O labirinto eficiente

A pandemia atingiu o Galeto duramente, forçando a sala de jantar do andar de baixo a abrir apenas para eventos ou grandes reservas, embora permaneça totalmente equipada. Ainda assim, o espaço mantém seu brilho caloroso—paredes em preto suave e dourado, balcões de madeira polida formando um labirinto onde apenas os dispostos se perdem, guiados por garçons que atuam como o fio de Ariadne, levando os comensais a um porto seguro. Até os recipientes de sal, pimenta, e molhos, assim como os menus montados no balcão, permanecem dispostos com precisão ritual.

Tudo—do layout à função—foi projetado por Palla e D’Almeida. Eles são parte da identidade do Galeto tanto quanto a equipe. O restaurante emprega cerca de 130 pessoas atualmente, embora já tenha tido 150, todas parte de uma máquina ajustada para eficiência.

“Com o layout que temos, os cozinheiros e garçons nunca precisam deixar suas estações—pratos, talheres, pão, tudo está ao alcance. A comida chega por um elevador, os pratos sujos descem, os limpos sobem—é perfeitamente projetado,” explica Filipe Ferreira, gerente de operações do Galeto nos últimos nove meses.

“A equipe é nosso maior desafio,” admite Francisco. “Com esses horários e essa escala, cada posição requer três pessoas para cobrir todos os turnos. É uma operação complexa.” Assim como seu pai—que trabalhou aqui diariamente até sua morte aos 78 anos—Francisco sente o peso da responsabilidade: “Mais de uma centena de famílias dependem deste negócio.”

A “equipe extremamente competente” elogiada pelo Diário de Lisboa em 1966 ainda é uma característica marcante. Alguns funcionários estão aqui há 40 anos. “Temos uma senhora que veio do antigo café Monte Carlo quando fechou na década de 1990. Ela ainda está aqui. E o Sr. Mário está conosco há quatro décadas. As pessoas esperam só para sentar em seu balcão,” diz Francisco.

Quem é Mário, o que todos buscam?

Esse Mário é Mário Jorge Gonçalves, 55 anos, chefe de garçons, torcedor lifelong do Sporting, nascido e criado em São Mamede, praticamente criado no Galeto também. Seu pai era cozinheiro aqui. “Minha mãe costumava me dar 25 escudos para o bonde, assim eu podia encontrar meu pai depois do trabalho,” ele lembra. Às vezes, ele parava na Colombo para um doce e suco—antes de se tornar o primeiro McDonald’s de Portugal em 1991.

“Quando o McDonald’s abriu em Lisboa, a verdadeira história não foi a abertura—mas sim que foi aberto ao lado do Galeto,” Mário ri. Nove anos antes, em 1982, com 15 anos, após um verão de futebol e música, ele começou no Galeto como auxiliar de garçom. “Tinha horário escolar, intervalo para o almoço, e ganhava doze escudos—meu primeiro salário.” Agora, ele dobrou o tempo de carreira do pai.

Ele trabalha à noite—das 20h às 3h30. “No inverno tudo bem, mas no verão sinto que me roubaram—quando consigo ir para a cama, já está claro. Ainda assim, o show deve continuar—como diz Tony Carreira (é Tony Carreira, certo?).”

Tagarela e afiado, Mário é tão parte do Galeto quanto os talheres. Os clientes regulares muitas vezes esperam por lugares em seu balcão. Entre os pedidos, ele comenta sobre política, esportes ou qualquer coisa na mídia. “Não gosto que o mundo passe por mim. Falo com os clientes, especialmente os que conheço. Nas noites de eleição, é engraçado ver as reações dos perdedores e vencedores—você pode ver isso em seus olhares: agora é nossa vez!

Ele viu gerações chegarem e partirem—clientes que uma vez vieram como crianças agora trazem seus próprios filhos. “Alguns juram que vêm aqui há 50 anos—mesmo antes de chegarmos aos 40!”

As histórias de Mário são intermináveis. Ele se lembra de quando o telefone público vermelho ficava onde agora está a máquina de cigarro—sempre ocupado até os celulares chegarem. Ele recorda os casos de exibição—agora preenchidos com fotos do 50º aniversário do Galeto—que antes hospedavam anúncios pagos com listas de espera.

Ele se recorda de Krus Abecassis chegando perto da hora de fechamento, pedindo croquetes—então uma raridade. Foi esse mesmo prefeito que garantiu os horários noturnos do Galeto, confirmado tanto por Mário quanto por Francisco Oliveira. “Naquela época, muitos cafés fechavam às duas, mas graças a Krus Abecassis, que sempre chegava tarde, estendemos para 3h30. Havia uma demanda enorme—Galeto se tornou a balada,” diz Francisco.

“Era o ponto de encontro,” acrescenta Mário. “As pessoas vinham aqui antes ou depois dos filmes no Monumental ou Quarteto. As noites de touradas no Campo Pequeno também significavam casa cheia—assim como os shows ou as comemorações de futebol na Praça Marquês de Pombal hoje.”

Galeto é “um mundo à parte,” diz ele—um caso sui generis na gastronomia portuguesa. “Servimos 20 horas por dia. Eu sou de antes do ‘brunch’ ser uma coisa, e já tínhamos cafés da manhã brutais.”

Os Combinados—especialmente o Nº 8—e os hambúrgueres são indispensáveis. “Me lembro do pai do Sr. Francisco irado quando o McDonald’s abriu, porque nossos hambúrgueres eram lendários.”

O show deve continuar

Para Mário, o Galeto deveria ter status de serviço público. “Estou brincando—mas honestamente, o que fazemos é um serviço público. Você está sozinho, não se sentindo bem, precisa de uma sopa quente—onde mais você pode ir às 3h30 da manhã? Ninguém mais fica aberto tão tarde.”

Ele viu homens esperando aqui enquanto suas esposas davam à luz na Maternidade Alfredo da Costa, “antes dos celulares existirem.”

Cada noite termina com Mário indo para casa pela Campo Mártires da Pátria por volta das 4h, parando na estátua do Dr. Sousa Martins. “Sou devoto—sempre peço que ele cuide da minha mãe.”

Após a Revolução, o Galeto também mudou. “Antes de 25 de abril, as mulheres não podiam entrar sozinhas à noite, e os homens precisavam usar gravatas,” diz Mário. “Até mantinhamos gravatas extras para emprestar.”

Então veio o boom democrático. A década de 1980 foi a era de ouro do Galeto, lembra Francisco Oliveira. “Lisboa se abriu completamente, e o Galeto se tornou um ponto central tanto para os negócios diurnos quanto para a vida noturna.”

O novo século trouxe desafios—obras no metrô, crises econômicas, e finalmente a COVID-19, que atingiu com mais força locais noturnos como este. “Quando minha irmã assumiu em 2007, as coisas já estavam difíceis por causa das obras do metrô. Então veio a crise—e ela manteve tudo junto heroicamente,” diz Francisco. Ele assumiu em 2016, equilibrando com sua carreira na aeronáutica.

Hoje, a avenida prospera como uma avenida de hotéis e restaurantes, e o Galeto está novamente em pleno funcionamento. “Estamos trabalhando muito bem, dia e noite,” diz Francisco.

Os turistas agora representam uma parte crescente da clientela. “Alguns chegam em voos noturnos e descobrem que o Galeto é o único lugar aberto—eles vêm uma vez por necessidade, depois voltam todas as noites,” observa Filipe Ferreira.

O serviço de café da manhã—presente desde a década de 1960—também os atrai. Francisco modernizou o menu cautelosamente. “Removi o fígado e a língua de boi uma vez, mas tive que trazê-los de volta. Não são os mais vendidos, mas são tradições. Até o chef Avillez veio aqui outro dia—e o que ele pediu? Fígado.”

Outros ícones permanecem intocáveis: o prego, o Bife à Galeto, e os sorvetes caseiros, criados a partir de receitas trazidas por um especialista italiano há décadas.

Para Francisco, é sobre isso que tudo se trata: “A qualidade faz a diferença—e fica na memória. Uma vez, em um trem de Paris, uma mulher portuguesa me ouviu dizer que era dono do Galeto. Ela disse: ‘Você tem o melhor prego do mundo. Toda vez que vou a Lisboa, como um.’”

Lisboa não é o Galeto. Mas o Galeto é Lisboa—um ponto de confluência de balcões onde você sempre pode seguir o mesmo caminho, ou descobrir novos. Por 59 anos. Para sempre.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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